Ameaças de Trump à Groenlândia colocam Europa e Otan sob tensão
A Dinamarca afirma que, se Trump tomar posse da Groenlândia, será o fim da aliança de defesa transatlântica que sustenta a segurança da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial
Em meio a uma conjuntura tensa, líderes europeus se reuniram em Paris, junto a emisários do governo dos Estados Unidos, para discutir um caminho viável de paz na Ucrânia. Enquanto o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski dizia que o plano para encerrar o conflito com a Rússia está “90% pronto”, ninguém na sala duvidava do barulho que toda essa atenção gerou. Porque, ali, havia também um elefante de tamanho continental: a Groenlândia.
Groenlândia é a maior ilha do mundo, localizada no Ártico e, apesar de ficar ao norte, é território autônomo da Dinamarca. E, nos últimos dias, rumores incitaram o debate sobre quem realmente pode decidir sobre o território: o inquilino da Casa Branca ou as autoridades europeias. Trump tem reiterado interesse pela posse da ilha, alegando que isso seria estratégico para a segurança nacional dos EUA.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, participou da reunião, destacando a importância de não expor alianças a choques políticos. Ao redor da mesa, estavam aliados de peso da Europa, entre eles Reino Unido, França e Alemanha, que tentaram evitar qualquer escalada com o governo americano. No entanto, seis potências europeias emitiram uma declaração conjunta nos bastidores, afirmando que a segurança do Ártico deve ser defendida coletivamente, em parceria com a Otan, incluindo os Estados Unidos. E que, no que diz respeito a Dinamarca e Groenlândia, as decisões cabem a eles.
No dia a dia, a tensão se amplia quando a Casa Branca via o tema como uma oportunidade de demonstrar firmeza. Em comunicado subsequente, autoridades da imprensa da Casa Branca disseram que estão “ponderando uma série de opções”, incluindo medidas unilaterais que envolveriam a Groenlândia — até uma possível transação de posse da ilha. E o trecho que assustou muitos foi a menção de que “o uso das forças armadas pode ser uma opção à disposição do Comandante-em-Chefe”.
Não é a primeira vez que o assunto aparece nos bastidores. Durante o primeiro mandato de Trump, a ideia já circulava entre interlocutores europeus — mas, à época, muitos riam da proposta. Contudo, após uma intervenção envolvendo a Venezuela, a percepção mudou: o tom mais agressivo passou a ser visto com cautela e sobriedade, principalmente entre os países da região que dependem de vínculos fortes com Washington.
De fato, a preocupação chegou a pontos altos. A Dinamarca deixou claro que o apoio americano não pode se sobrepor às regras da aliança. Já na Europa, o clima oscilou entre a formalidade de manter a cooperação e a insistência de não resignar soberania. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, sinalizou que a decisão final sobre Groenlândia não caberia apenas a Washington, mas aos dinamarqueses e aos islandeses aliados; o chanceler alemão, Friedrich Merz, já adotara tom semelhante. Por outro lado, o presidente francês Emmanuel Macron foi a Groenlândia em dezembro, em gesto público de solidariedade a Copenhague, e, nesta semana, o tom mudou com a publicação da declaração conjunta.
De acordo com analistas, o episódio expõe a vulnerabilidade da Europa diante de uma figura que, para muitos, já testou os limites da relação transatlântica. “Se houvesse uma declaração conjunta robusta de todos os parceiros da UE, mais o Reino Unido, isso seria uma mensagem muito poderosa para Washington”, comenta um especialista ouvido nos bastidores. Ainda assim, apenas uma parte dos aliados assinou esse sinal de unidade, enquanto outros preferiram manter o foco em manter o diálogo com Washington sem fechar fileiras de forma explícita.
Um ponto que não passou despercebido é o papel da União Europeia e a dependência que, ainda hoje, persiste em relação aos Estados Unidos em setores cruciais de segurança — desde inteligência até comando, controle e capacidades aéreas. Questionamentos sobre a real independência europeia voltaram a ganhar fôlego: até que ponto a Europa pode atuar sozinha para conter ambições de grandes potências sem perder o apoio americano?
Para alguns observadores, a situação transforma o tema em um dilema existencial para a Otan. Julianne Smith, que já atuou como embaixadora americana na aliança, aponta que “a Europa precisa reduzir sua dependência dos EUA em questões de segurança e falar com uma voz única”. Enquanto isso, a imprensa interna e as fontes próximas à aliança afirmam que o período recente mostrou, mais uma vez, a centralidade de Washington no equilíbrio estratégico europeu — mesmo diante de tentativas de cooperação multilaterais mais fortes no Velho Continente.
Enquanto o debate segue, fica a dúvida no ar: o que realmente pode mudar na prática para o cidadão comum? No radar, estão respostas que vão desde pactos de defesa renovados até ajustes no uso de rotas de inteligência e de recursos de defesa conjunta. E, no fim das contas, uma coisa parece clara: a Groenlândia não é apenas uma ilha distante, mas um símbolo de como a geopolítica atual pode descer, com leveza, para a mesa de jantar da opinião pública.