Economista diz que Flávio está mais preparado que o pai para governar

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Flávio Bolsonaro está mais preparado que o pai para governar, diz economista

Segundo Gesner Oliveira, fundador da GO Associados e professor da FGV, Flávio Bolsonaro seria o primeiro presidente com uma base sólida no Congresso desde 2010

Em meio ao cenário eleitoral que se desenha para 2024, o economista Gesner Oliveira traz uma leitura que parece mirar o dia a dia dos leitores conectados ao vaivém da economia brasileira. Flávio Bolsonaro aparece como quem poderia chegar ao Planalto com uma base parlamentar mais robusta do que a do pai, Jair Bolsonaro, algo que, segundo Oliveira, faz diferença na prática para quem precisa enfrentar uma agenda econômica complexa. O especialista, fundador da consultoria GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas, sustenta que o próximo presidente, qualquer que seja, terá pela frente uma “bomba fiscal” a ser desarmada, ainda que com estilos distintos de condução.

Na visão de Oliveira, o cenário aponta para uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com as reformas estruturais no centro do debate, principalmente a tributária, a trabalhista e a da previdência. Mesmo quem vencer vai herdar um quadro delicado: o país precisando de um ajuste fiscal firme para assegurar sustentabilidade da dívida pública, sem atrapalhar o crescimento. “Por mais que o eleitor busque equilíbrio, o ajuste fiscal é inevitável para qualquer governo que entre em 2026, sob risco de se perder o controle das contas”, resume o economista.

Além disso, Oliveira aponta um ponto de atenção que está na prática no radar de investidores internacionais: a migração de capitais tem mudado o tom das decisões globais, com o Brasil saindo de uma posição mais marginal para alguém que pode se beneficiar de uma menor exposição aos Estados Unidos. Ainda assim, isso não resolve nossos problemas estruturais. A competição internacional, a insegurança jurídica e a instabilidade política continuam como entraves para quem tenta modernizar o fôlego da economia. A leitura dele é clara: não daremos grandes mudanças radicais, mas a demora para aprovar reformas pode abrir caminho para uma fuga de capital caso não haja avanço consistente.

Sobre o papel de Flávio, o economista destaca que não se repetiria o modelo “delegar tudo ao ministro da Economia” do pai. A ideia é buscar um ajuste fiscal mais contundente, sem abrir mão de critérios de sustentabilidade. Segundo Oliveira, Flávio tende a buscar um padrão que, de certa forma, se aproxima de um arcabouço inspirado no que se viu no governo argentino sob Javier Milei: governança firme, cortes e uma âncora fiscal que sustente o equilíbrio, com a devida proteção a áreas-chave. Pense em desvincular parte de gastos obrigatórios com educação e saúde, desindexar gastos previdenciários do salário mínimo e, ao mesmo tempo, sustentar um regime de reajustes que acompanhe ganhos de produtividade. Tudo isso, claro, acompanhado de grandes cortes de despesas para evitar o descontrole fiscal.

No cálculo de Oliveira, o desafio não é apenas cortar, mas reorganizar. Qualquer plano precisa de músculo para reduzir gastos sem prejudicar o funcionamento do Estado. Se o novo governo conseguir aproveitar o apoio que terá nas primeiras semanas, pode surgir uma âncora fiscal que, entre outros mecanismos, busque manter sob controle a relação entre dívida e PIB, além de reduzir a rigidez de algumas despesas. E aí entra a pergunta: qual seria o caminho se Lula vencer? O ex-presidente não hesitaria em promover ajustes, mesmo que sob custo político, para impedir uma deterioração ainda maior da economia. O temor, porém, é que o dólar suba e a inflação se avive, forçando o presidente a agir com medidas que mexam com o dia a dia das famílias.

Oliveira comenta a hipótese de Lula chegar ao governo com uma base parlamentar minoritária, o que exigiria muita negociação para aprovar qualquer mudança relevante. Nesse cenário, ele aponta dois caminhos possíveis: ou o governo se radicaliza em medidas impopulares para manter a estabilidade, ou busca uma linha de atuação mais próxima do que já foi visto no passado, com nomes como Henrique Meirelles surgindo como referência para manter a economia em equilíbrio. Enquanto isso, o Congresso costuma inflar o despesas por meio de emendas, o que complica ainda mais a tarefa de ajustar as contas sem desagradar grupos de interesse.

Para entender o que tudo isso pode significar na prática, vale ficar de olho no ritmo com que cada governo pretende avançar com reformas. A distância entre discurso e execução se revela na velocidade com que o Congresso responde aos pedidos de ajuste. Em situações de crise aguda, com dólar em alta e inflação rondando, o instinto de sobrevivência do Legislativo costuma falar mais alto—e isso elevando o preço político de cada decisão. Na perspectiva de Oliveira, o Brasil costuma evitar saltos bruscos, mas a lentidão para aprovar mudanças estruturais pode se tornar uma vulnerabilidade importante ante choques externos.

Outro eixo da conversa envolve o cenário externo e como ele molda as expectativas nacionais. A decisão recente de tribunais norte-americanos sobre tarifas e o papel das instituições nesse debate ganham destaque na análise. Segundo o economista, esse movimento nos EUA funciona como um freio que reequilibra o relacionamento entre governo, bancos centrais e mercados. Em termos práticos, esse tipo de decisão favorece uma leitura mais estável para investidores, ainda que as próprias discussões sobre ressarcimentos de tarifas e impactos econômicos permaneçam complexas. Em síntese: trata-se de um contrapeso institucional que poderia favorecer um tom mais contido na política monetária mundial, o que, indiretamente, ajuda o Brasil a manter uma trajetória de juros gradual e previsível.

Em resumo, a cravada de Gesner Oliveira é de que o próximo ocupante do Palácio do Planalto precisará de uma agenda fiscal firme, com foco em sustentabilidade, sem abrir mão de um eixo de crescimento. E, na prática, isso implica combinações entre reformas estruturais, disciplina fiscal e uma gestão competente do Congresso. O leitor comum pode se perguntar: o que isso mudou no meu cotidiano? A resposta passa pela capacidade de manter a inflação sob controle, evitar choques cambiais desnecessários e criar condições para que reformas efetivamente gerem ambientes de negócios mais previsíveis e menos embaralhados pelo debate político de curto prazo.

No fim das contas, o debate divido entre quem entra com base sólida no Congresso e quem precisa reconstruir alianças para governar reflete uma ideia simples: a qualidade da gestão pública hoje influencia diretamente a sua vida de amanhã, do preço da gasolina ao custo de um prato de feijão no fim de mês. A expectativa é que, independentemente do vencedor, haja um empenho claro de reduzir o peso da dívida e de manter a confiança dos investidores, sem abrir mão de proteger aqueles que dependem mais do Estado para fechar as contas no orçamento familiar.

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Jornalista

Renata Oliveira

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