Estudo contesta queda da desigualdade brasileira, celebrada por Lula

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O estudo global que contesta queda da desigualdade no Brasil celebrada pelo governo Lula

Um relatório internacional sustenta que a concentração de renda no Brasil ganhou espaço entre 2014 e 2024, descompassando a leitura oficial de diminuição da desigualdade.

O debate sobre quem fica com a renda no Brasil ganhou nova tensão: dois estudos recentes apresentam cenários opostos sobre a desigualdade. De um lado, o World Inequality Report 2026 aponta que a parcela de renda nas mãos dos mais ricos aumentou nos últimos anos, deixando o país mais desigual entre 2014 e 2024. Do outro, uma nota técnica do Ipea afirma que a desigualdade ficou no menor nível em 30 anos em 2024, com avanços para os mais pobres e queda relevante na pobreza. No dia a dia, a leitura do governo tem recebido elogios explícitos, enquanto especialistas discountem a leitura oficial com ressalvas metodológicas. Alguém pode se perguntar: afinal, o Brasil está mais igual ou mais desigual?

Segundo o World Inequality Report 2026, a renda concentrada entre os 10% mais ricos permaneceu elevada, com sinais de alta ao longo do período analisado. Entre 2014 e 2021, a fatia de renda detida pelo 10% mais rico passou de 57,9% para 59,9%, recuando apenas marginalmente para 59,1% em 2024 — ainda acima do patamar de 2014. Já a parcela que cabe aos 50% mais pobres caiu de 10,7% em 2014 para 8,2% em 2021, com recuperação parcial para 9,3% em 2024. Para medir a evolução da desigualdade, o estudo utiliza o índice obtido ao dividir a fatia dos 10% mais ricos pela dos 50% mais pobres, que passou de 53,7 para 63,5 entre 2014 e 2024, com o ápice de 73 em 2021.

A abordagem do estudo internacional reúne informações de pesquisas domiciliares — como as do IBGE — com dados da Receita Federal, a fim de capturar mais fielmente a renda de quem está no topo da pirâmide, especialmente a renda de capital e ganhos de investimento. Mesmo assim, os autores reconhecem limitações: as informações de IR no Brasil estavam disponíveis apenas até 2023, o que os levou a realizar extrapolações para estimar a distribuição em 2024. Em resumo, a leitura que emerge é de que a desigualdade tende a se manter elevada, mesmo que haja variações pontuais ao longo do tempo.

Entre críticos e defensores, a leitura é que, embora o PNAD — a base de dados utilizada pela PNad — seja essencial para entender o movimento da renda comum, ele tende a subestimar a renda dos mais ricos, cujos ganhos costumam vir de investimentos e operações financeiras. Nesse ponto, o estudo do World Inequality Lab afirma buscar uma visão mais completa ao combinar diferentes fontes, ainda que reconheça que, mesmo com premissas conservadoras, a desigualdade tende a aumentar quando se olha para o topo da distribuição. “É preciso olhar para o topo para não perder a essência da desigualdade”, comentam os pesquisadores.

Já o Ipea — com base nos dados de renda da PNad — sustenta que a desigualdade de 2024 atingiu o menor nível desde o início da série, há 30 anos, e que esse recuo está ligado à ampliação de programas de transferências de renda e a um aumento na oferta de emprego. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, caiu quase 18%, de 61,5 para 50,4, ao longo do período analisado. Além disso, a renda média mensal por pessoa saltou quase 70% entre 1995 e 2024, e a pobreza extrema recuou de 25% para 5% da população. Na prática, destacam os técnicos, vemos sinais positivos de melhoria de renda para os mais pobres e menor vulnerabilidade.

Essa leitura divergente não passou batida entre economistas. Em entrevistas, muitos ressaltam as limitações de cada método. Por exemplo, Guilherme Klein, professor da Universidade de Leeds, aponta que a subestimação de rendimentos na PNad é uma realidade em praticamente qualquer estudo domiciliar, especialmente quando se trata de renda de capital. Ele defende que a combinação de dados da PNad com informações da Receita Federal oferece uma visão mais estável da desigualdade, sobretudo no topo, onde o capital pesa mais. “Quando você junta os dados da PNad com os dados do IR, você tem uma visão mais consistente da desigualdade”, afirma Klein, que também atua economicamente no Made/USP.

Do lado do Ipea, o pesquisador Pedro Herculano de Souza explica por que o estudo recente recorreu aos dados da PNad: na época em que o estudo começou, as informações do IR disponíveis ainda não eram suficientemente atualizadas para o recorte temporal pós-pandemia. “O processo científico, para mim, é usar o melhor dado disponível para o objetivo em questão”, diz. Mesmo assim, Souza reconhece a necessidade de cautela: mudanças na tributação de investimentos podem distorcer séries históricas, e o IR atual precisa ser visto com cuidado para entender de fato a renda mais elevada. O pesquisador também reforça que, quando tiver dados mais atualizados da Receita, poderá reavaliar as conclusões com séries mais longas.

No campo das leituras técnicas, a discussão costuma mergulhar nos números. No caso do Ipea, a leitura baseada na PNad reforça a narrativa de que a pobreza diminuiu e a desigualdade recuou até níveis muito baixos, alimentando avaliações positivas do governo. Por outro lado, o World Inequality Report reforça uma leitura de desigualdade que persiste em proporções elevadas, ainda que o país tenha experimentado altas para a renda dos mais ricos durante a pandemia, seguida por uma recuperação parcial.

Entre investimentos de política pública, vale mencionar o choque entre leituras e a agenda de reformas. O texto de referência aponta que, entre as medidas aprovadas, está a reforma do Imposto de Renda em tramitação no Congresso, que prevê isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e a criação de um imposto mínimo de até 10% para quem recebe acima de R$ 50 mil por mês. Em resumo, a pauta fiscal busca equilibrar ganhos com a necessidade de financiar políticas de transferência de renda e serviços públicos — um eixo que, segundo especialistas, pode ter efeitos diferentes conforme a leitura de desigualdade predominante no momento.

Para o leitor, a pergunta prática fica: que leitura fica mais perto da nossa realidade no dia a dia? Se, de um lado, contas oficiais apontam queda na pobreza e arranjo de renda mais equitativo, de outro, o retrato internacional sugere que a concentração de renda continua firme entre os mais ricos. No fim das contas, a compreensão da desigualdade depende de quais dados pesamos e de como cruzamos diferentes fontes para formar a imagem de conjunto. O que fica claro é que o Brasil continua discutindo como medir, entender e, principalmente, reduzir a distância entre quem tem menos e quem tem muito.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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