Trump diz que EUA vão intervir se Irã matar manifestantes; Teerã reage com ameaças e fala em caos regional
Ao sinalizar disposição para intervir, Trump reforça sua estratégia de confronto com Teerã e se coloca, retoricamente, ao lado dos manifestantes
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira que o país pode intervir caso as autoridades iranianas reprimam com violência os protestos que se espalham pelo Irã. Em publicação na rede Truth Social, o republicano escreveu que os EUA estão “prontos para agir” e alertou que, se o regime “atirar e matar” manifestantes pacíficos, os americanos “virão em seu socorro”. No entanto, não detalhou que tipo de ação estaria sob consideração.
A resposta de Teerã não tardou. Ali Larijani, assessor do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, disse que Trump deveria “ter cuidado” e advertiu que qualquer intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã poderia desestabilizar a região e pôr em risco interesses americanos no Oriente Médio.
As declarações ocorrem em meio a uma onda de protestos que ganhou contornos nacionalmente relevantes. A mobilização começou no fim de dezembro, em Teerã, impulsionada pela desvalorização do rial frente ao dólar e pela escalada do custo de vida. A inflação foi apontada em 42,2% em dezembro, com alta de 72% nos preços dos alimentos, segundo dados citados por organizações internacionais. Desde então, as manifestações se disseminaram para outras cidades, com participação de estudantes e cidadãos que criticam o regime clerical. Em diversos locais, o público exigiu mudanças, chegando a pedir o fim do governo de ali Khamenei.
Vídeos verificados por veículos internacionais mostram confrontos com forças de segurança, carros incendiados e bloqueios de ruas. No âmbito da cobertura, ao menos seis pessoas morreram na quinta-feira, segundo a imprensa iraniana e grupos de direitos humanos. A agência semioficial Fars informou mortes em Lordegan, Azna e Kouhdasht, sem esclarecer se as vítimas eram civis ou agentes. A ONG Hengaw indicou que dois dos mortos em Lordegan eram manifestantes, ainda que as informações não tenham sido verificadas de forma independente.
O governo iraniano adotou um tom ambíguo. O presidente Masoud Pezeshkian disse estar disposto a ouvir “demandas legítimas” da população — sinal de abertura. Por outro lado, o procurador-geral Mohammad Movahedi-Azad alertou que qualquer tentativa de “criar instabilidade” será enfrentada com uma “resposta decisiva”, indicando que a repressão poderá continuar. A troca de farpas ocorre em um contexto de longa deterioração das relações entre Washington e Teerã.
Desde que Trump retirou os EUA do acordo nuclear em 2018 e reinstalou sanções, a economia iraniana passou por uma espiral de crise. Em junho do ano anterior, Washington alegou frear o programa nuclear iraniano ao realizar ataques contra instalações nucleares no país. Em resposta, o Irã lançou um ataque de mísseis contra uma base militar norte-americana no Catar, elevando o risco de confronto direto. Nos últimos dias, Trump voltou a ameaçar ações militares se o Irã tentar reconstituir seu programa nuclear ou expandir seu arsenal balístico. Paralelamente, Washington anunciou sanções contra indivíduos e empresas no Irã e na Venezuela, envolvendo-se mais ativamente em questões de defesa e exportação de armas.
Analistas ouvidos por veículos como Reuters e CNBC observam que os protestos atuais costumam combinar fatores econômicos imediatos com desgaste político acumulado. Para Suzanne Maloney, do Brookings Institution, as palavras de ordem indicam que parte da população não busca apenas alívio econômico, mas mudanças estruturais no regime. Ainda assim, especialistas ressaltam que protestos anteriores, ainda que intensos, foram contidos sem derrubar o poder. No cumprimento de uma estratégia de confronto, ao sinalizar disposição para intervir, Trump reforça a linha de choque com Teerã e se coloca, retoricamente, ao lado dos manifestantes. Para o Irã, o tom funciona como argumento para denunciar ingerência externa e justificar medidas de segurança mais duras. O desfecho imediato é um aumento do risco de escalada em uma região já sensível, marcada por conflitos entre potências, rivalidades locais e a interseção com o programa nuclear iraniano.