Como o Paquistão convenceu Trump e se tornou um mediador improvável na guerra com o Irã
O papel do Paquistão como intermediário neste conflito surpreendeu muitos. Mas talvez não devesse
No cenário tenso em que EUA, Israel e Irã balançam entre avanços e recuos, o Paquistão vem ganhando espaço como um diplomata não convencional. Asim Munir, chefe das Forças Armadas paquistanesas, parece ter a simpatia de Donald Trump, que o chamou de seu “marechal favorito” e já destacou que Munir entende o Irã de forma singular. Enquanto isso, o país ainda mantém uma postura de mediação, sem se tornar parte direta do conflito e, pesadamente, sem abrigar bases norte-americanas. No dia a dia, essa posição o coloca numa posição estratégica inusitada.
O Irã não é apenas vizinho do Paquistão — com uma fronteira de aproximadamente 900 km — mas também aparece, segundo autoridades, como um parceiro fraterno, com laços culturais e religiosos profundos. Além disso, o Paquistão não opera sob a lógica de intermediários tradicionais do Golfo e, curiosamente, não está diretamente envolvido nos combates. Ainda assim, o que se vê é uma disposição clara para intervir, e boa parte da leitura internacional aponta que a paz entre EUA, Israel e Irã estaria alinhada com os interesses paquistaneses.
No entanto, o equilíbrio não é simples. Como pode um país envolvido em atritos com Afeganistão e Índia posicionar-se como garantidor de tranquilidade regional? Hoje, Islamabad patina entre cobranças de defesa e pressões econômicas, mantendo ataques aéreos no Afeganistão e uma soma de tensões com a Índia que, por vezes, ameaça uma escalada mais ampla. A prática é de uma linha estreita entre servir de ponte entre Washington e Teerã, ao mesmo tempo em que transmite mensagens diplomáticas a outras nações muçulmanas e aumenta contatos com parceiros estratégicos do próprio palco regional.
Para entender o cenário, vale observar o custo do equilíbrio. O Paquistão, que depende fortemente de petróleo importado — com grande parte do combustível trafegando pelo Estreito de Ormuz — está consciente de que uma escalada pode pressionar ainda mais a já sensível economia doméstica. Michael Kugelman, pesquisador sênior do Atlantic Council, reforça que o país tem muito a perder e a ganhar: há um interesse explícito em contribuir para a desescalada, mesmo reconhecendo os riscos de qualquer erro de cálculo.
Em termos de medidas internas, o governo paquistanês já respondeu com ajustes econômicos, como o aumento recente de preços dos combustíveis e a adoção de uma semana de trabalho de quatro dias para funcionários públicos, buscando reduzir o consumo de energia. Mesmo com tais medidas, as dúvidas sobre o desfecho permanecem, e não é possível ignorar o atrito de interesses entre os aliados — o que compõe o cenário de uma diplomacia de alto risco.
Enquanto isso, o pano de fundo geopolítico ganha contornos ainda mais densos. Em 2023, um acordo de defesa com a Arábia Saudita já deixava explícito que qualquer agressão a um dos dois países seria encarada como agressão a ambos, o que levanta questões sobre como Pakistan reagiria se a Arábia Saudita entrasse no conflito. O temor é claro: uma intervenção saudita poderia deixar a fronteira west do Paquistão vulnerável e exigir escolhas difíceis à distância.
Mesmo diante desse quadro, há quem sustente que o Paquistão não está agindo apenas no calor da oportunidade. Maleeha Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa, aponta que a percepção pública no país oscila entre o apoio ao Irã e a contenção diplomática necessária. Para alguns observadores, a reação de Washington tem ficado favorável ao Paquistão, ajudando a projetar Islamabad como facilitador e mediador mais confiável aos olhos de um governo competitivo com Teerã.
As leituras, portanto, sugerem uma estratégia de “neutralidade útil”: o Paquistão busca manter portas abertas com o Irã, sem abrir mão de uma relação estável com os EUA, ao mesmo tempo em que evita se tornar vulnerável a pressões externas. Como descreve Kugelman, a ideia é adotar estratégias diplomáticas não convencionais, diferentemente de rivais como a Índia, para manter margem de manobra e dialogar com múltiplos polos de poder — uma postura que ajuda Islamabad a se manter relevante no tabuleiro regional.
No ritmo dos acontecimentos, o ministro das Relações Exterior paquistanês, Ishaq Dar, viaja à China para reforçar alianças estratégicas, sinalizando que o país continua a buscar apoio além de seus vizinhos diretos. Ainda assim, as perspectivas de um acordo de paz permanecem incertas; como admitido por especialistas, as chances não são altas diante dos elevados níveis de desconfiança entre as partes envolvidas e das exigências simultâneas de cada lado.
No fim das contas, o Paquistão parece ter apostado numa leitura de cenário em que a diplomacia de múltiplos alinhamentos é mais pragmática do que idealista. Se der certo, pode colocar o Paquistão no topo da sala de negociação global; se falhar, pode permanecer como um exemplo de ingenuidade estratégica, sem que isso retire o país do tabuleiro como peça relevante. A dúvida que fica é: até onde essa abordagem pode sustentar-se sem se tornar uma aposta arriscada para a própria estabilidade interna?