Intervenção militar dos EUA no Brasil é mito, diz especialista

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“Intervenção militar dos EUA no Brasil é mito”, diz especialista em Direito Internacional

Alexandre Teixeira comenta pesquisa da Quaest que aponta apoio da população brasileira à operação que capturou Nicolás Maduro

Em conversa que parece tirar o peso de uma crise geopolítica do cotidiano, o doutor em Direito Internacional Alexandre Teixeira afirma que o temor de uma possível intervenção militar dos EUA no Brasil é mais mito que cenário plausível. O que ele analisa não é o presente em si apenas, mas o conjunto de fatores que envolvem a atuação norte-americana na Venezuela e as leituras que isso provoca aqui. No dia a dia da política externa, segundo ele, o Brasil tem mostrado uma posição de neutralidade que, na prática, faz mais sentido diante de uma arena internacional cada vez mais complexa.

O recorte vem de uma pesquisa recente da Quaest, que aponta que 46% dos brasileiros aprovam a operação dos EUA que culminou na captura de Nicolás Maduro. Ao mesmo tempo, o levantamento revela que parte da população teme o desfecho militar externo, com 58% manifestando preocupação com uma intervenção no próprio país. Nessa linha, Teixeira não enxerga o Brasil como alvo de ações militares, destacando que “não há real ameaça” nesse sentido. É um mito que paira sobre a nossa sociedade, afirma ele, lembrando que a tradição brasileira sempre privilegiou soluções diplomáticas e não-interferência em crises regionais.

Para o especialista, a atuação dos EUA na Venezuela pode ter sido motivada por uma combinação de objetivos, entre eles o combate ao narcotráfico, ainda que o petróleo venezuelano também apareça como um fator de peso no equilíbrio geopolítico. No entanto, ele ressalta que isso não se transforma automaticamente em uma ameaça direta ao Brasil no curto prazo. Na prática, a leitura dele é clara: a estratégia diplomática brasileira, de manter o país fora de conflitos externos que não lhe digam respeito, continua sendo a escolha mais sensata.

Ainda sobre o pano de fundo da Quaest, Teixeira questiona o significado da própria sensação de medo. Ele observa que reconhecer o direito da população de temer uma escalada militar é diferente de reconhecer que esse medo se converte em uma possibilidade prática para o Brasil hoje. “Nós estamos vivendo um momento delicado internamente, com Forças Armadas que perderam parte da sua capacidade de dissuasão e sem a mesma potência de anos atrás. Não há razão para o Brasil se ver como alvo das ambições militares dos Estados Unidos”, enfatiza o especialista, reafirmando que a neutralidade é a melhor forma de preservar soberania e estabilidade.

Quanto ao rumo regional, Teixeira destaca que a posição brasileira na crise venezuelana tende a permanecer voltada para a não-interferência. A leitura dele é de que a maioria prefere uma postura de diálogo e soluções pacíficas, com a condenação da operação por parte do governo brasileiro não surpreender, mas a tendência prática é manter o Brasil longe de alianças que possam arrastar o país para conflitos.

No que diz respeito ao futuro da própria Venezuela sob o eixo Trump, o analista vê possibilidades de estabilização gradual. Maduro, segundo ele, pode perder força com a captura, mas ainda assim o cenário exige que se discuta política e economicamente as saídas para a crise. A cooperação com setores do governo interino, incluindo nomes como Delcy Rodríguez, aparece como um caminho que pode favorecer algumas soluções, ainda que preocupações com direitos humanos e democracia continuem sob avaliação internacional. E, nesse jogo, a proximidade entre Trump e o presidente colombiano Gustavo Petro é lembrada como sinal de que a diplomacia, ainda que firme, busca sempre uma saída negociada.

Ao ampliar a visão para o conjunto da região, Teixeira aponta que a relação entre as grandes potências — Estados Unidos, Rússia e China — seguirá ditando o ritmo da geopolítica global. A possibilidade de escaladas militares existe, é real, mas ele insiste que, para o Brasil, o retorno à negociação e à cooperação permanece como saída mais sensata. “É a prática da diplomacia que costuma vencer no fim das contas”, resume, deixando claro que a neutralidade é o fio que pode proteger a soberania brasileira nesse cenário de forte competição internacional.

Se você pensa que tudo pode mudar repentinamente, o especialista convida a observar o panorama com um olhar um pouco mais pragmático: o que acontece hoje não é apenas uma narrativa de poder, mas uma lição sobre como a cultura de não intervenção pode, no fim, manter o Brasil estável diante de tensões externas que sempre rondaram a região.

  • 46% aprovam a operação dos EUA na Venezuela
  • 58% temem uma possível intervenção militar dos EUA no Brasil
  • Brasil mantém uma postura de neutralidade como estratégia de soberania
  • Forças Armadas em fase de ajuste, sem a antiga capacidade de dissuadir com o mesmo peso
  • Diálogo e soluções pacíficas são preferidos pela diplomacia brasileira

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Jornalista

Lucas Almeida

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