Cubanos marcham em Havana contra ameaças de Trump
Tradicional marcha direcionou críticas ao governo americano, diante de declarações do presidente Donald Trump, em tom de resistência anti-imperialista e demonstração de apoio ao país caribenho
Na noite de terça-feira, as ruas de Havana ficaram lotadas de gente que participou de uma marcha histórica destinada a enviar uma mensagem de firmeza diante das advertências do governo dos Estados Unidos. O ato, conhecido como a “marcha das tochas” e realizado na véspera do aniversário de José Martí, reuniu milhares de cubanos que caminharam sob um tom de defesa da pátria e de resistência ideológica frente às tensões com Washington.
No centro da mobilização, esteve o presidente Miguel Díaz-Canel, que acompanhou o desenrolar da caminhada ao lado de jovens e dirigentes. A multidão, que avançou pela Avenida da Revolução e se posicionou sob a curiosa iluminação noturna, expressou uma postura clara: não se trata de nostalgia, e sim de um chamado à ação em defesa da independência cubana. “Este não é um ato de nostalgia, é um chamado à ação”, explicou Litza Elena González Desdín, líder da Federação de Estudantes Universitários, em meio à multidão reunida aos pés da escadaria da Universidade de Havana.
A escalada de discursos ganhou contornos ainda mais ácidos quando a própria capital recebeu a observação pública do presidente Donald Trump, que, durante uma visita a Iowa, declarou que “Cuba vai cair muito em breve”. A fala se conecta ao recente atrito entre as duas partes, que ficou marcado por forte retórica de Washington após a detenção, no início de janeiro, do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, principal aliado de Cuba na região. No discurso do governo cubano, a sequência de eventos é vista como uma pressão externa cujo objetivo final é provocar mudanças de regime.
À frente da marcha, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, usou as redes sociais para registrar o movimento, afirmando que milhares de cubanos, muitos liderados por jovens, marcham pelas ruas de Havana respondendo às previsões de queda de Trump com uma postura anti-imperialista firme e inabalável. A mensagem ressaltou a determinação de cumprir a trajetória histórica do país diante de pressões externas, mantendo o foco na independência e na solidariedade regional.
Historicamente, a mobilização de 27 de janeiro é associada à memória de José Martí, herói nacional que moldou o pensamento revolucionário cubano. A edição deste ano manteve a tradição ao remeter aos dias que antecedem o aniversário do líder revolucionário, ao mesmo tempo em que remete à origem do gesto de resistência, datado de 1953, quando Fidel Castro e jovens colegas desafiaram o governo da época. O desfile noturno desse episódio histórico é visto como uma inspiração permanente para os organizadores da marcha atual.
O contexto político e internacional que envolve a ilha ajuda a entender o peso simbólico da marcha. Após a operação que resultou na captura de Maduro, as autoridades cubanas reforçam a ideia de que a relação com os EUA não se resolverá apenas com acordos comerciais, mas por meio de uma postura de firmeza ideológica. A narrativa oficial sustenta que o embargo e as ameaças externas são parte de um jogo maior de pressão externa, que requer unidade entre as gerações cubanas para manter a linha de resistência.
Para além das expressões de apoio à soberania cubana, a cobertura de agências internacionais, incluindo EFE e AFP, destaca o papel de veículos independentes na transmissão de eventos que envolvem o país. A Deutsche Welle também é citada como emissora internacional que acompanha o noticiário com foco em jornalismo independente, traduzindo o que se passa em solo cubano para o mundo.
No dia a dia, o que fica para o leitor comum é a sensação de que o tema transcende a política de gabinete. Trata-se de uma demonstração de identidade, de memória histórica e de uma posição clara diante de tensões que atravessam fronteiras. Enquanto o futuro permanece incerto, a cidade de Havana continua a responder com mobilização cívica, mantendo viva a tradição de um país que busca manter sua voz firme no tabuleiro geopolítico da região.