Última intervenção militar dos EUA na América Latina vs Venezuela atual

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Como foi a última grande intervenção militar dos EUA na América Latina – e como se compara à situação atual na Venezuela

A última vez que os Estados Unidos enviaram tantos navios de guerra para a região foi em 1989, quando derrubaram o presidente do Panamá, Manuel Noriega, a quem acusavam de narcotráfico – acusação semelhante feita contra Maduro

Quando o assunto é intervenção militar, a lembrança mais marcante para muitos é a operação que chegou ao Panamá no final dos anos 80. Hoje, o noticiário internacional aponta para uma escalada semelhante de forças ao redor da Venezuela, e a pergunta volta à tona: estamos diante de uma repetição, ainda que em um contexto diferente, ou de algo inteiramente novo? No centro dessa investigação está justamente a maior mobilização de marinha desde o fim da Guerra Fria, com Washington mantendo o foco em um regime latino-americano que, segundo a narrativa oficial, estaria envolvido com o narcotráfico e o tráfico de poder.

Na prática, o que aconteceu em 1989 foi a Operação Justa Causa, que envolveu cerca de 30 mil soldados e uma invasão que transformou o Panamá em palco de um choque direto entre Washington e uma liderança local. A sequência começou com um tiroteio que ceifou a vida de um jovem fuzileiro, o tenente Robert Paz, lembrando que, por trás dos números, estavam pessoas comuns vivendo sob pressão extrema. Em poucos dias, o governo panamenho caiu e a missão – oficialmente para restaurar a ordem, derrubar um regime envolvido com narcotráfico – se consolidou como uma intervenção de grande monta no continente.

As semelhanças entre aquele episódio e o momento atual na região passam pelo eixo da tensão entre Washington e uma figura latino-americana forte no poder, cuja queda seria vista como um grande avanço estratégico. Em ambos os casos, acusação de narcotráfico foi mobilizada para justificar ações de grande impacto público. Além disso, tanto o Panamá quanto Venezuela guardam peso estratégico — o Canal do Panamá e as amplas reservas de petróleo venezuelano — elevando o que está em jogo e atraindo a atenção de analistas, governos e governos rivais.

Mas as diferenças, é claro, são relevantes e não poucas. O cenário de Guerra Fria deu espaço a um mundo de múltiplas frentes, alianças e pressões diversas, mudando a forma como as potências internacionais calculam riscos e custos. Em 1989, Noriega já tinha vínculos de longa data com a CIA, além de provas que o ligavam a operações de narcotráfico — incluindo informações que pesavam sobre o cartel de Medellín. Já no caso de Nicolás Maduro, a narrativa dos EUA envolve uma acusação de participação de elites venezuelanas com atividades ilícitas, mas o enquadramento legal e a força das evidências são objeto de intenso debate entre especialistas e autoridades de Caracas.

Ao longo dos anos, os EUA passaram a vincular o que chamam de cartéis históricos com uma estrutura de poder encarregada de recursos naturais e de rotas de entrada de drogas nos Estados Unidos. Embora a equipe de Trump tenha falado em narcoterrorismo para justificar ações contra o que seria o tráfico na região, muitos juristas, defensores de direitos humanos e estudiosos questionam se esse rótulo encontra base sólida no direito internacional para esse tipo de confronto específico. Em paralelo, surgem discussões sobre a existência real de uma entidade formal chamada Cartel de los Soles, ou se trata de uma construção analítica para descrever uma rede de autoridades que se beneficiam de atividades ilegais dentro de portos venezuelanos.

Essa ambiguidade não ficou só no campo acadêmico. A avaliação de que há ou não um cartel é acompanhada de debates sobre responsabilidades — e, principalmente, sobre qual é o regime a ser responsabilizado. Em Caracas, por exemplo, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, rejeitou a ideia de que exista tal cartel, chamando a narrativa de uma invenção imperialista para retirar Maduro do poder. Ainda assim, há evidências de envolvimento de familiares próximos na prática de contrabando e trânsito de drogas que resultou em ações de autoridades americanas, com prisões ocorridas fora do país, e com sanções que se estenderam aos vínculos empresariais de parentesco da família presidencial.

Entre 2015 e 2022, por exemplo, sob o governo dos Estados Unidos, sobrinhos de Maduro foram alvo de operações de narcotráfico nos EUA e na região caribenha, inclusive com prisões em território haitiano e posteriores trocas de prisioneiros. Names como Francisco Flores de Freitas e Efraín Antonio Campo Flores ganharam notoriedade nesse período, levando a um conjunto de sanções e de narrativas que conectam a esfera financeira, o contrabando de drogas e os recursos da venezuela com o aparato de poder. Em cada etapa, o governo americano manteve firme a posição de responsabilizar o regime por crimes que, segundo Washington, afetam a população norte-americana. E, nesse debate, o termo narcoterrorismo continuou a aparecer com insistência.

Observando a prática, o Pentágono sustenta que as ações contra embarcações relevantes estavam em conformidade com as regras de engajamento. Contudo, surgiram questionamentos sobre a legalidade da repetição de ataques, especialmente quando surgiram relatos sobre a segunda investida, com a morte de dois sobreviventes. O governo americano defendeu a operação, destacando que tudo ocorreu dentro de um arcabouco legal de ações em conflitos armados não internacionais, mas as imagens de vídeo e os pareceres jurídicos ainda alimentam debates entre legisladores e especialistas. Enquanto isso, a tensão entre EUA e Venezuela continua a crescer, com episódios como a apreensão de ativos venezuelanos e a pressão diplomática que não mostra sinais de recuo.

No campo estratégico, fica claro que o horizonte é marcado por incertezas: alguns analistas veem a operação venezuelana como uma combinação de retórica dura, ações pontuais de alto impacto e a possibilidade de escaladas que fogem do formato clássico de confrontos. No dia a dia, leitores comuns podem se perguntar: o que isso muda para a vida na prática? Em que medida uma eventual solução negociada seria aceitável para Maduro e para a Casa Branca, simultaneamente? E como interpretar o que está por trás de cada ataque ou sanção, quando a geopolítica se mistura com disputas internas de poder?

Em síntese, a lição do período panamenho é clara, ainda que com sinais diferentes: conflitos modernos podem não ser tão convencionais quanto uma invasão, mas a faísca que acende uma crise pode acender um fogo capaz de transformar a região. Hoje, a Venezuela permanece no centro de uma equação que envolve interesses estratégicos, disputas jurídicas e uma rede de alianças que vai além de fronteiras nacionais. Da mesma forma, o leitor comum pode tirar uma conclusão simples: acompanhar com senso crítico o que envolve poder, dinheiro e segurança é essencial, porque as consequências não escolhem caminho nem intensidade, quando o tema é a estabilidade de uma região tão próxima de casa.

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Jornalista

Fernanda Costa

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