Diretor americano prepara thriller político atual sobre Bolsonaro

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Director americano de filme sobre Bolsonaro diz estar fazendo ‘thriller político contemporâneo’

Cyrus Nowrasteh diz que ‘Dark Horse’, idealizado por bolsonaristas, deverá ser lançado em 2026, ano eleitoral, e promete um ‘retrato complexo e honesto’ do ex-presidente.

O cineasta Cyrus Nowrasteh, de origem iraniana e com carreira marcada por títulos de forte apelo político e religioso, quebrou o silêncio pela primeira vez para falar sobre o projeto Dark Horse. O filme, concebido com o apoio de bolsonaristas e acompanhado de familiares de Jair Bolsonaro, tem previsão de estreia para 2026, justamente em um momento em que o Brasil vive outra temporada de disputa presidencial. Em entrevista por e-mail, Nowrasteh afirma que o objetivo é entregar um retrato complexo e honesto do ex-presidente, sem enfeites.

Questionado sobre a possibilidade de retratar uma figura tão polarizadora, o diretor diz que esse tipo de personagem pode render pesquisa profunda e narrativa instigante. “Uma figura polarizadora não é um tema fértil para um filme? Não deveríamos questionar a autoridade e as narrativas dominantes?” ele provoca, deixando claro que a obra pretende ir além de adjetivos simples e oferecer camadas, conforme já fez em trabalhos anteriores.

Dark Horse fica a cabo da produção da Go Up Entertainment, sob a batuta de Karina Ferreira da Gama. A dupla de criação envolve Mário Frias, hoje deputado federal (PL-SP) e ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro, reconhecido como um dos apoiadores mais atuantes do ex-presidente no Congresso. Nas redes, Frias tem compartilhado imagens dos bastidores; uma delas mostra ele e Carlos Bolsonaro ouvindo a oração de Jim Caviezel, o ator escolhido para interpretar Bolsonaro no longa.

O próprio Nowrasteh já tem história com o Brasil. Em 1995 ele participou da coautoria do roteiro de Jenipapo, dirigido por Monique Gardenberg, com quem mantém contato desde então. Entre seus filmes mais marcantes estão O Apedrejamento de Soraya M (2008), que aborda uma condenação injusta de uma mulher no Irã, e O Jovem Messias (2016), além de Sequestro Internacional (2019). O lançamento recente Sarah’s Oil (2025) — sobre uma menina cuja herança envolve petróleo — também é citado, com críticas de veículos importantes que apontam a obra para uma reflexão sobre petróleo e poder.

A relação entre religião, política e cinema surge como uma linha de frente do projeto. Ainda não está definido se haverá um tom explicitamente religioso na abordagem de Bolsonaro. O ex-presidente, católico, se aproximou de setores evangélicos, sobretudo por meio da influência da esposa, Michelle. Já Frias, que idealizou o filme, também se declara cristão e defende que a fé tenha espaço na vida pública. No entanto, Nowrasteh garante que não vai apresentar o político como herói, repetindo a ideia de que o retrato terá nuances, sem verniz.

No eixo da narrativa, o filme volta-se para a tentativa de ataque de 2018, quando Bolsonaro levou uma facada em Juiz de Fora durante a campanha presidencial. O diretor descreve Dark Horse como um thriller político contemporâneo que lança luz sobre perguntas ainda sem resposta, articulando momentos da vida do ex-presidente em flashbacks ao longo de uma linha temporal que culmina na vitória de 2018. Além disso, há a pretensão de alcançar um público internacional, com o filme em inglês e uma versão dublada para o Brasil.

O elenco principal traz Jim Caviezel, figura conhecida internacionalmente por interpretar Jesus em A Paixão de Cristo (2004) e por peças recentes como O Som da Liberdade. Caviezel aparece em fotografias ao lado de Frias e de outros apoiadores durante as gravações, e, segundo Frias, seria a escolha inevitável para o papel do ex-presidente.

Quanto à produção e ao financiamento, aDark Horse fica sob a gestão da Go Up Entertainment, liderada por Karina Ferreira da Gama. Entre os registros, a produtora aparece como responsável por alugar o Memorial da América Latina, em São Paulo, para as gravações, com um contrato de aproximadamente R$ 126 mil. Karina também preside a ANC — Academia Nacional de Cultura — que recebeu, por meio de emendas parlamentares de deputados do PL, cerca de R$ 2,6 milhões para uma série sobre “heróis nacionais”. Além disso, a empresária é sócia do Instituto Conhecer Brasil, que teve recursos significativos entre 2024 e 2025 para a implementação de internet em comunidades de baixa renda, segundo reportagens. O instituto também recebeu duas emendas de R$ 1 milhão em 2025, vinculadas a Frias, que não revelou a origem dos recursos para Dark Horse. Frias diz que o filme possui baixo orçamento para padrões norte-americanos, mas não detalha financiadores. Ele aponta a SPCine e o governo de Tarcísio de Freitas como apoiadores, enquanto as autoridades de São Paulo — a prefeitura e o governo estadual — afirmaram não ter dado suporte à produção. A SPCine, em defesa do trâmite técnico, autorizou as gravações após avaliação institucional.

Para fechar, Frias e Karina Ferreira da Gama não se pronunciaram sobre a transferência de emendas ou de recursos da prefeitura aos envolvidos no projeto. A reportagem tentou contato com os dois, porém não houve resposta.

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Jornalista

Ana Martins

Designer de interiores apaixonada por achados acessíveis. Adora transformar espaços sem estourar o orçamento e compartilhar cada descoberta.

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