Venezuelanos que rejeitam Maduro e Trump: vilão que te salva de outro

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Os venezuelanos que se opõem a Maduro e também a Trump: ‘É como um vilão te salvando de outro’

Venezuelanos que não se identificam nem com Nicolás Maduro, nem com as políticas de Donald Trump em relação ao seu país relatam à BBC as dificuldades que enfrentam para que as pessoas entendam o porquê de sua posição.

É quase impossível ler o que vem de Venezuela sem ouvir uma frase que resume o dilema de quem está entre dois extremos: “É como se um vilão estivesse salvando você de outro”. Foi assim que Gabriel, um nome fictício adotado para proteger a identidade, descreveu o sentimento que permeia quem viveu recentemente na prática a crise política que atravessa o país. Gabriel é migrante, latino e integra a comunidade LGBTQIA+. Para ele, representar o que Donald Trump é contra não é apenas um posicionamento ideológico: é, de fato, uma crítica às políticas externas que envolvem seu país. E, ao mesmo tempo, ele também se opõe veementemente ao chavismo de Nicolás Maduro.

“O chavismo me obrigou a deixar a Venezuela da noite para o dia, com apenas US$ 250 no bolso”, ele recorda. O relato, comovante, reforça a percepção de que a migração foi dura e abrupta, e que a distância não apaga a memória da família nem o peso de ter que recomeçar do zero em outra lógica social. Hoje, Gabriel encara um limbo: entende as ações de quem governa do outro lado do hemisfério, mas não se sente representado por nenhuma das políticas que moldam o debate no seu país de origem. “Parece que as pessoas não conseguem entender esse ponto intermediário”, diz, descrevendo uma sensação de isolamento que se instala quando a opinião pública escolhe enxergar apenas o preto ou o branco.

Entre os seus círculos mais próximos, a conversa costuma se arrastar por tortuosas vias. “No meu meio, essa batalha interna é real: fico feliz ao ver Maduro algemado, mas, por outro lado, não consigo agradecer a Trump por isso”, admite Gabriel. A ambiguidade não é excesso de cinismo, mas uma tentativa de carregar todas as vozes que cabem nesse momento tão carregado de símbolos. A ideia de que a discussão venezuelana pode ser reduzida a uma simples escolha entre esquerda ou intervenção externa parece, para ele, uma leitura superficial que não ajuda a explicar a complexidade que lá persiste.

Outra voz que aparece com destaque é a de Ana, moradora de Caracas. Ela acordou em meio aos bombardeios e à tensão que se abateram sobre a capital. “Eu estava tão perto do Forte Tiuna que, ao acordar, pensei: ‘Os gringos invadiram mesmo’”, relembra, com a dor ainda visível na fala. Ana se define pela educação de esquerda, mas também pela crítica contundente ao intervencionismo externo. Ela lembra do histórico de América Latina, marcado por episódios em que o uso da força externa parece uma reação menos premente do que a busca de soluções próprias para a vida cotidiana.

A história de Ana se cruza com a do recorte mais amplo de leitores que acompanham a região: não se trata apenas de apoiar ou rejeitar o intervencionismo, mas de entender as consequências na vida real. “O que se quer é que as políticas externas não se sobreponham às necessidades de quem vive aqui, como educação, empregos, luz e água”, afirma. Ela também aponta a avaliação de que quem está na oposição não é homogêneo: a crítica a Maduro não implica automaticamente apoio a Trump, e vice-versa. E, ainda assim, vê uma pressão de rotular pessoas de modo simplista, o que aumenta o atrito entre posições diversas dentro da própria Venezuela.

Em meio a esses relatos, surge um traço comum: a percepção de uma era de polarização em que a imagem substitui a experiência vivida pelas pessoas. Gabriel lembra que, nos últimos dias, as redes sociais e o boca a boca empurraram para o extremo de cada lado do espectro político. “Parece que o debate ganhou contornos tão agressivos que é difícil manter uma leitura humana da situação”, resume. E, nesse cenário, o risco é grande: estereótipos passam a ditar como os venezuelanos são vistos no exterior, e o próprio país fica reduzido a uma figura de vilões de cinema.

Laura, outra entrevistada, reforça a sensação de que a situação viu-se atravessada por uma dupla intervenção — a de Trump e a de potências como Rússia e China — que, segundo ela, transforma a vida cotidiana em campo de batalha político-ideológico. “É difícil manter a equanimidade quando se vê que as questões vitais — luz, água, comunicação — se tornam moeda de disputa entre potências”, diz. Ela também revela uma experiência pessoal de isolamento: por vezes, as pessoas a chamam de “morna” por não escolher um lado com radicalidade. “Não é que eu queira agradar a todos, mas é importante falar de realidades complexas”, afirma, insistindo na necessidade de não reduzir a vida venezuelana a rótulos fáceis.

O conjunto dessas versões mostra um país em que a intensidade de cada posição não esgota as nuances locais. Tanto Gabriel quanto Laura reconhecem que houve uma frustração grande ao ver emergir a sensação de que, nos dias recentes, muitos tentaram encaixar a Venezuela numa única lente — esquerda ou intervenção externa — sem levar em conta os dramas cotidianos das pessoas. O êxodo migratório, as tensões de protestos anteriores, a percepção de eleições contestadas, os casos de repressão e a pressão internacional formam um mosaico que não admite simplificações.

Para Laura, esse mosaico também é a prova de que a vida dos venezuelanos não pode ser reduzida a uma visão que serve apenas a agendas externas. “A prioridade é a vida,” enfatiza, lembrando que muitos convivem com dificuldades básicas que para alguns parecem invisíveis no conteúdo dos debates públicos. “É fácil discutir teorias de intervenção ou de geopolítica, difícil é sustentar a convivência com a própria população quando a realidade é de vulnerabilidade diária”, acrescenta.

O reconhecimento de que existem tons de cinza não é apenas uma posição intelectual: é uma tentativa de manter a humanidade no centro do debate. O que acontece na Venezuela hoje não é apenas sobre quem governa ou quem intervém por meio de acordos internacionais. Trata-se de pessoas que convivem com cortes de energia, com dificuldades de comunicação, com incertezas sobre o futuro e com a necessidade de traduzir uma situação tão complexa para o dia a dia de seus vizinhos, familiares e colegas de trabalho. Nesse contexto, o relato de Ana, Gabriel e Laura oferece uma visão íntima de como cada um tenta manter a dignidade em meio a uma crise que não tem fim à vista.

Embora as discussões sejam acaloradas, fica claro que o desafio é justamente construir pontes no meio dessas rachaduras entre posições antagônicas. “Somos vistos pela lente da polarização, mas o que mostramos é que a vida continua — com dúvidas, medos e esperanças”, conclui Gabriel. E, no fim das contas, a lição que fica é a de que compreender as pessoas passa pela prática de ouvir histórias como as deles, sem reduzir cada uma à etiqueta de quem está certo ou errado.

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Jornalista

Renata Oliveira

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