Venezuela: Justiça libera 379 presos políticos por anistia histórica

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Venezuela: após aprovação de lei de anistia histórica, Justiça libera 379 presos políticos

Após a aprovação de uma lei de anistia histórica, autoridades venezuelanas anunciaram a libertação de centenas de detentos com motivações políticas, em meio a críticas sobre o alcance da medida.

Na prática, a noite de sexta-feira ficou marcada pela libertação de 379 presos políticos pela Justiça venezuelana, um desfecho que chega apenas um dia após a aprovação de uma lei de anistia histórica, promovida por dirigentes do governo interino que atua após a deposição de Nicolás Maduro. A notícia foi anunciada pelo parlamentar responsável pelo processo, que lidera a comissão dedicada à lei e ao monitoramento de sua implementação, em entrevista à televisão. O movimento é apresentado como um passo para “uma Venezuela mais democrática, justa e livre”.

Apesar do anúncio das autoridades, especialistas e organizações de direitos humanos sinalizam que o quadro é complexo. Mesmo com a liberação de 379 pessoas, outros números chamam a atenção: desde o início de janeiro, 448 opositores foram libertados sob liberdade condicional, segundo dados da ONG Foro Penal, mas ainda há quase 650 presos políticos atrás das grades. A avaliação é de que a lei de anistia, aprovada por unanimidade no Parlamento na noite de quinta-feira, pode não abranger todos os casos desejados, abrindo espaço para controvérsias sobre quem fica de fora e por quê.

Entretanto, para muitas famílias, a liberação chega como alívio direto. “Precisamos de ações, não de palavras”, desabafou Narwin Gil, cuja família acompanha de perto a prisão de um familiar na Polícia Nacional, em Caracas. Ela descreveu o clima como de expectativa permanente e afirmou que a nova etapa precisa de passos práticos para que os entes queridos retornem para casa o quanto antes. Do lado de fora das prisões, centenas de familiares permaneceram mobilizados desde o início de janeiro, quando o governo abriu o processo de soltura, com avanços lentos e, muitas vezes, burocracia na fila de espera pelas decisões judiciais.

O próprio diretor da Foro Penal, Alfredo Romero, reforçou que “a anistia não é automática”, cobrando clareza sobre o procedimento de solicitação perante os tribunais. Em entrevista à imprensa, ele destacou falhas estruturais no desenho da lei, que, na avaliação de especialistas, pode deixar muitas pessoas de fora. Ainda assim, o saldo parcial é encarado por apoiadores do governo interino como sinal de maturidade institucional e de uma virada nas garantias de direitos para quem esteve em cárcere nos últimos anos.

No dia a dia, a pressão para ampliar os liberados continua. Por exemplo, a deputada Ali Daniels, líder de uma ONG voltada à justiça, avaliou que o balanço da lei é negativo no sentido de abranger suficientemente as famílias atingidas, ressaltando a necessidade de reformas que reduzam brechas legais e permitam checagens mais ágeis por parte dos juízes. Enquanto isso, alguns oposicionistas celebraram os avanços recentes, mas com ressalvas sobre o alcance das medidas de perdão.

Entre os libertados nesta sexta-feira, figurações de impacto simbólico marcaram o momento. Um caso que ganhou destaque foi o da irmã de um preso, cuja rede de apoio acompanhou a notícia com um misto de alívio e cautela. Em paralelo, um dos aliados próximos à vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado, foi libertado recentemente sob a mesma atmosfera de espera, recebendo apoio popular e elogios de líderes da oposição. A novelidade da liberdade total chegou a ser celebrada publicamente, com mensagens de apoio aos familiares e aos amigos que aguardavam do lado de fora dos presídios.

A amnistia e seus desdobramentos se inserem em uma agenda maior da administração liderada por Delcy Rodríguez, que também envolve uma reabertura do setor petrolífero e uma mudança de tom na relação com os Estados Unidos, rompida de forma mais contundente anos atrás. Em resposta à medida, a Espanha informou que solicitará à União Europeia a suspensão de sanções impostas a Delcy Rodríguez, em reconhecimento às ações que buscam consolidar uma nova etapa regional. No cenário internacional, o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, General Francis Donovan, reuniu-se nesta semana em Caracas com Delcy Rodríguez, com Vladimir Padrino e com o ministro do Interior, Diosdado Cabello, sinalizando uma troca de mensagens sobre segurança e política externa.

Em resumo, a liberação de 379 presos políticos marca um momento de virada parcial, exibindo os avanços e as limitações de uma estratégia que tenta remodelar o mapa de direitos civis na Venezuela. Resta acompanhar se essa onda de solturas se estenderá a um número maior de casos e se, de fato, haverá correspondência entre as promessas de amnistia e a prática cotidiana de justiça no país.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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