Os últimos dias de Maduro no comando: por dentro da queda do governo venezuelano
O mandatário superestimou sua influência e interpretou mal a conversa com o presidente Trump nas semanas decisivas que antecederam sua captura pelas forças dos EUA
Caracas, Venezuela — uma armada de navios de guerra e caças dos Estados Unidos pairava perto das águas venezuelanas, com o Pentágono já desenhando planos para capturar ou derrubar o líder do país. Enquanto isso, no final de 2024, Nicolás Maduro parecia calmo, celebrando a véspera de Ano Novo em casa, cercado de amigos e aliados, conforme relatos colhidos entre quem atuava na sua volta.
Os EUA deixaram claro que não aceitariam a continuidade de um regime que consideravam problemático para seus interesses — e passaram a sinalizar uma intervenção inevitável caso Maduro não abdicasse do poder. Apesar disso, quem acompanha a política venezuelana ouviu de aliados próximos que o presidente repetia que o governo Trump não ousaria atacar Caracas e levar a guerra para o território venezuelano.
Além do choque político, Maduro sabia que espionagem e sabotagens internas eram uma preocupação real. Ainda assim, na prática, ele dizia acreditar que havia tempo para negociar. Traições dentro do círculo próximo e spys em volta eram fatos que o cercavam, o que, de certa forma, ajudava a moldar seu comportamento reservado e cauteloso no fim de dezembro.
Foi um erro de cálculo que teve consequências históricas: o que se seguiu ficou marcado como o primeiro ataque estrangeiro em território venezuelano em mais de um século, levando Maduro e a esposa a uma posição de vulnerabilidade internacional. A ofensiva também ajudou a redirecionar o papel dos Estados Unidos na América Latina, abrindo uma fase de diplomacia de canhoneira que ninguém esperava ver tão cedo.
O mergulho da história é sustentado por relatos de entrevistas com uma dúzia de assessores, amigos e aliados próximos do núcleo do poder. Entre os nomes citados, Delcy Rodríguez, a vice-presidente que acabou fortalecendo vínculos com Washington, aparece como peça-chave na leitura de bastidores. Essa coluna de versões é complementada por falas de outras figuras envolvidas, ainda que sem autorização para falar publicamente.
Durante o impasse com a Casa Branca, Maduro manteve uma postura desafiadora — e, em alguns momentos, até soberba. Alguns de seus assessores lembram que quem está há muito tempo no comando tende a superestimar suas próprias capacidades e, por isso, ouvir apenas quem o agrada é um risco constante de erro de leitura.
Antes dessas semanas decisivas, Trump já havia tentado derrubar Maduro, impondo sanções à indústria petrolífera venezuelana e reconhecendo um líder oposicionista como presidente. Em 21 de novembro, os dois líderes conversaram pela única vez conhecida, em uma ligação que durou entre cinco e dez minutos. Maduro acreditou que a cordialidade daquela conversa renderia espaço para um acordo; já Trump, segundo relatos, viu a situação de modo diferente, como se houvesse um ultimato tácito no ar.
Poucos dias depois, o que parecia ser uma conversa entre adversários evoluiu para um canal de mensagens cada vez mais tenso. Joesley Batista, empresário brasileiro com interesses nos EUA e na Venezuela, foi apresentado como interlocutor capaz de levar a mensagem dos Estados Unidos a Maduro, em contato promovido pelo secretário de Estado, Marco Rubio. De acordo com quem teve essas tratativas, a ideia era clara: Maduro deveria encontrar um caminho para deixar o poder — ou enfrentar consequências ainda mais graves. Batista e o advogado de Maduro se recusaram a comentar, e autoridades venezuelanas não responderam a perguntas detalhadas. Um alto funcionário americano afirmou que houve várias oportunidades para que Maduro aceitasse renunciar.
Ao invés de ceder, Maduro passou a insistir no controle do aparato estatal. A estratégia de manter o país unido às margens da elevação da tensão pública o levou a reduzir encontros sociais, cancelar aparições programadas e recorrer a transmissões gravadas, com um tom quase diário, para manter a popularidade entre apoiadores. Enquanto isso, a segurança foi reorganizada para proteger-se de eventuais infiltrações, com a Guarda Presidencial passando a ganhar ainda mais espaço, o que, por outro lado, acabou deixando o líder menos protegido diante de uma ofensiva externa.
Já no final de 2024, o bloqueio parcial imposto pelos Estados Unidos, que incluiu a detenção de um petroleiro venezuelano, mergulhou a economia do país num colapso cada vez mais agudo. Paralisaram-se os navios-tanque e as refinarias passaram a depender de reallocações de combustível e ajustes logísticos cada vez mais complexos. No dia a dia, a população sentiu o peso de uma crise que se aprofundava com o tempo lá atrás, mesmo com Maduro tentando projetar confiança e domínio sobre as terras sob seu governo.
Até que, na virada de 2025, as tensões atingiram o ápice. Em 3 de janeiro, aeronaves militares americanas cruzaram fronteiras venezuelanas, lançaram ataques a quatro bases militares, capturaram Maduro e a esposa, e a operação resultou em um saldo de centenas de mortos entre cubanos e venezuelanos envolvidos. O episódio encerrou uma era e acentuou uma mudança bastante significativa no papel da intervenção externa na região, marcando a leitura de muitos observadores sobre o futuro político da Venezuela e o papel da presença norte-americana no continente.
Para o leitor comum, a pergunta que fica é simples: o que muda na prática a partir de tudo isso? A história apresentada, ainda que complexa, reforça que decisões tomadas nos bastidores podem redefinir destinos nacionais, com impactos diretos na economia, na segurança e na vida cotidiana das pessoas.