Por que Trump demitiu a procuradora-geral Pam Bondi e o que isso tem a ver com o caso Epstein
Trump estava frustrado com Bondi devido à forma como ela lidou com os arquivos de Jeffrey Epstein, criminoso sexual que morreu na prisão em 2019.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira a demissão de Pam Bondi, procuradora-geral dos EUA. Em 1º plano, a conversa sobre o futuro da vaga ficou com o substituto interino, Todd Blanche, que assume temporariamente, conforme reporte da CBS, parceira da BBC nos EUA. A saída de Bondi, embora não surpreendente para muitos observadores, caiu em um momento que pareceu abrupto, segundo o jornalista Bernd Debusmann Jr. da BBC na Casa Branca.
Na véspera, Bondi havia acompanhado o presidente até a Suprema Corte para ouvir argumentos sobre a polêmica em torno do fim do direito automático à cidadania para pessoas nascidas em território americano — o chamado caso da “cidadania por nascimento”. Contudo, a tensão com Bondi crescia justamente pela forma como conduziu os arquivos do caso Epstein, o bilionário cuja morte na prisão, em 2019, deixou uma lacuna jurídica a ser preenchida com um possível novo julgamento. No período em que Bondi esteve à frente da Justiça, a condução dos arquivos envolvendo Epstein provocou críticas de legisladores de ambos os lados do espectro político, sob a acusação de má gestão na divulgação de documentos críticos.
Além disso, Bondi carregava a responsabilidade de conduzir investigações criminais envolvendo oponentes políticos, como o democrata Adam Schiff (Califórnia) e a procuradora-geral Letitia James (Nova York). Segundo a BBC, boa parte dessas apurações acabou produzindo resultados insatisfatórios. Trump havia comentado publicamente, em setembro, que a lentidão nesses casos estava “destruindo nossa reputação e credibilidade” em mensagens publicadas nas redes sociais — agora reforçando que Bondi seguia para uma “nova função no setor privado” e seria substituída por Blanche.
A mudança se insere em uma sequência de alterações na equipe de alto escalão do governo durante o mandato de Trump. Esta é a terceira demissão de peso, sucedendo a saída da ex-secretária de Segurança Interna Kristi Noem e a do conselheiro de Segurança Nacional Mike Waltz — cujo cargo, por sua vez, foi incorporado à pasta de Marco Rubio. Desde que Trump retornou à Presidência, muitos analistas destacam que a relativa estabilidade no gabinete representa uma mudança expressiva em relação ao seu primeiro mandato, marcado por várias trocas de figurões ao longo de 2017–2020.
Como o caso Epstein ajudou a moldar essa demissão não é segredo: o presidente estava insatisfeito com a maneira como Bondi tratou os arquivos do governo relacionados ao acusado de crimes sexuais. Ao longo de seu mandato, Bondi prometeu tornar públicos os documentos, porém, posteriormente, alguém do governo parece ter recuado, levando à divulgação de milhões de papéis pelo Departamento de Justiça, enquanto uma infinidade de itens ainda não havia sido tornada pública. As reações foram rápidas: parlamentares de ambos os lados passaram a questionar por que informações que identificavam vítimas não eram totalmente ocultadas, enquanto identidades de pessoas não vítimas continuavam a ser protegidas. Vítimas conversaram com a BBC, afirmando que Bondi não havia se reunido pessoalmente com elas nem respondido a e-mails sobre os crimes de Epstein.
Entre os críticos, o republicano Thomas Massie, do Kentucky, chegou a declarar publicamente apoio à demissão de Bondi, vendendo a ideia de que o próximo procurador-geral deveria divulgar todos os arquivos de Epstein conforme a lei, além de seguir com investigações, processos e prisões. Do lado democrata, o grupo que conduz a comissão sobre Epstein prometeu responsabilizar Bondi por supostamente ter encoberto informações e por ter influenciado o Departamento de Justiça para proteger figuras de maior influência, incluindo a ex-socialite britânica Ghislaine Maxwell, condenada a 20 anos de prisão. O democrata Ro Khanna, que havia emitido uma intimação para Bondi depor, afirmou que, mesmo fora do cargo, ela ainda precisa prestar esclarecimentos ao Congresso.
Quem é Pam Bondi? Nascida em Tampa, na Flórida, Bondi cursou justiça criminal na Universidade da Flórida em 1987 e se formou em direito pela Stetson University em 1990. Advogada desde 1991, ela construiu boa parte de sua carreira no Ministério Público do Condado de Hillsborough por mais de 18 anos, lidando com casos que iam de violência doméstica a homicídios. Eleita a primeira procuradora-geral da Flórida em 2010, Bondi pontuou seu mandato com foco em temas como opioides, drogas sintéticas e tráfico humano, recebendo o apoio da então candidata à vice-presidência Sarah Palin. Além da atuação política, Bondi esteve ligada ao America First Policy Institute, instituto conservador que reuniu ex-membros da equipe de Trump, liderando seu braço jurídico, e atuou na comissão de opioides e abuso de drogas de Trump. Ao longo do tempo, Bondi permaneceu próxima de Trump, inclusive integrando sua equipe jurídica durante o primeiro impeachment do então presidente, quando ele alegou fraude eleitoral para justificar a vitória de 2020.
Na prática, a demissão de Bondi coloca em foco não apenas a relação entre o ex-presidente e a antiga aliada, mas também os limites da divulgação de registros envolvendo casos de elevado impacto público. No dia a dia da política norte-americana, a história serve como lembrança de que a gestão de arquivos sensíveis pode ter desdobramentos diretos sobre quem está no topo do governo. E para o leitor comum, fica a dúvida: pequenas decisões sobre transparência e processos legais podem, de fato, mexer com a credibilidade de uma Casa Branca?