Como Trump atua na Venezuela e divide o mundo em zonas de influência

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Por que ação de Trump na Venezuela divide mundo em zonas de influência e projeta nova era global

Menções de Donald Trump à doutrina Monroe e ameaças contra Cuba, México e Colômbia marcam retomada de postura intervencionista dos Estados Unidos.

A operação de captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, realizada por forças americanas, foi rápida—apenas algumas horas—mas especialistas dizem que o desfecho pode reverberar bem além das fronteiras da América Latina. Estamos entrando em uma fase em que grandes potências parecem mais dispostas a agir conforme seus próprios interesses, abrindo espaço para uma leitura de mundo em que esferas de influência não são apenas lembranças do passado.

No dia a dia da geopolítica, o debate passa pela leitura de como China e Rússia interpretarão o episódio. Enquanto publicamente condenam a ação, as potências emergentes também sabem que o uso da força fora de seu território pode servir como justificativa para atitudes semelhantes em seus próprios redutos. E, por aqui, surge a pergunta que não quer calar: que consequências isso terá para países vizinhos, inclusive para o Brasil?

Doutrina Monroe não é nova, mas volta a ganhar destaque. Concebida num momento em que potências europeias ainda tinham presenças coloniais nas Américas, a ideia original associava a região a uma proteção dos Estados Unidos contra intervenções europeias, ao mesmo tempo em que os europeus eram convidados a não intervir no continente. Hoje, sob a leitura de quem supervisiona a política externa, há o esforço de manter o Hemisfério Ocidental sob a influência americana, ainda que as interpretações variem conforme o leitor.

No desfile de justificativas, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, mencionou, em entrevista, o conceito de “esferas de influência” ao defender a ação na Venezuela. Ele deixou claro que, no século 21, não se admite que o país vizinho esteja sob controle de forças que, segundo ele, ameaçam a segurança regional. A narrativa aponta para uma visão de mundo em que a intervenção é apresentada como uma forma de preservar o que os EUA entendem como ordem estratégica no continente.

Do outro lado, o relato histórico não é apenas de intervençãoHumanidade, mas de intervenções que moldaram o mapa da região. O Corolário Roosevelt, por exemplo, transformou a Doutrina Monroe em uma espécie de “polícia mundial” para estabilizar vizinhos endividados e impedir que potências europeias se afirmassem no continente. Na prática, isso se traduziu, ao longo do tempo, em ações que foram além do discurso diplomático—de construção de obras a pressões políticas que definiram governações.

Essa ampliação da doutrina dançou com episódios de intervenção militar na América Latina ao longo do século XX, especialmente durante a era da Guerra Fria. Ditaduras e golpes apoiados ou favorecidos por Washington marcaram décadas de viradas políticas, com repressões que ainda ecoam na memória coletiva. Nos dias atuais, o que está no centro do debate é se a retórica de hoje abre portas para ações mais ousadas amanhã, sobretudo em países onde a resistência política permanece ativa.

A operação envolvendo Maduro foi acompanhada de sinais de que os Estados Unidos pretendem manter o foco em países da região. Além de Cuba, México e Colômbia, especialistas citam a Groenlândia como área de interesse estratégico, ainda que sem detalhes sobre qualquer movimento concreto. O significado, no entanto, não se resume àquelas nações: é a ideia de que o poder pode ser usado para moldar governos, alianças e fluxos econômicos no mapa regional.

Do ponto de vista do Brasil, o momento é de cautela, mas também de leitura estratégica. Lula criticou a operação—dizendo que os bombardeios e a captura de Maduro ultrapassaram uma linha aceitável—mas, ao mesmo tempo, tem mostrado uma relação de maior proximidade com a Casa Branca, após uma fase de sanções que acabou sendo flexibilizada. O desafio para o Brasil é não ficar preso entre o desejo de manter relações pragmáticas com Washington e a necessidade de defender uma atuação autônoma no cenário regional, sobretudo em áreas sensíveis como tarifas, minerais estratégicos e gestão de crises institucionais.

Para analistas, o episódio pode atrasar a reaproximação entre as duas maiores economias da região, especialmente nas frentes de comércio e acordos de recursos. Há quem aponte para o risco de novas listas de sanções ou de pressão regulatória caso haja avanços em agendas consideradas problemáticas pelas autoridades americanas. E o tema ocorre em ano eleitoral no Brasil, o que acrescenta uma camada de complexidade ao equilíbrio entre cooperação e independência estrangeira.

Além disso, há quem veja no episódio um sinal de que os Estados Unidos retornam a um patamar de atuação mais assertivo na América Latina. Para quem acompanha a cena internacional, essa postura reabre a discussão sobre o lugar da democracia, do direito internacional e dos acordos entre potências no século 21. E surge, ao mesmo tempo, o debate sobre o que isso significa para a governança regional, para a segurança econômica e para a cidadania de cada país.

As leituras vão além do mapa político: quem celebra a imposição de regras e quem teme que o uso da força se torne justificativa para mudanças de regime em outros territórios. Mesmo condenando publicamente, China e Rússia sinalizam que não concordam com o método, mas reconhecem que a arena internacional pode continuar a permitir intervenções sob determinadas géneses. No fim das contas, o que está em jogo é a confiança no direito internacional versus a tentação de redefinir políticas de vizinhança pela força.

Para o leitor comum, o recado é claro: estamos diante de uma nova paisagem em que as esferas de influência ganham contornos mais nítidos. Enquanto a comunidade internacional tenta manter um equilíbrio entre soberania, segurança compartilhada e direitos humanos, as decisões de Washington continuam a dialogar com interesses nacionais que vão muito além da Venezuela. E, neste momento, observar o que acontece com as relações entre Brasil, América do Sul e as grandes potências pode oferecer pistas importantes sobre o rumo da geopolítica global nos próximos anos.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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