O que Trump pode fazer militarmente se Irã não responder a seu ultimato
Os EUA podem causar muitos danos à infraestrutura civil, mas especialistas militares dizem que não é viável executar todas as ameaças de Trump
O relógio está correndo em torno de uma promessa que não é apenas dura, mas também carregada de consequências para civis: em caso de não haver um acordo até o prazo marcado, o presidente Donald Trump sinalizou que destruiria boa parte da infraestrutura civil do Irã em apenas algumas horas. A ideia gerou imediatas dúvidas entre especialistas e analistas militares, que lembram que qualquer ataque de grande escala ao setor elétrico ou a estruturas civis pode, para começar, ser pouco viável na prática e, no fim das contas, pode não conseguir empurrar Teerã para a negociação de forma rápida.
No dia a dia, a linguagem é agressiva: falar em destruir “todas as pontes” e usinas de energia em menos de quatro horas, caso os iranianos não aceitem o acordo até 21h (horário de Brasília), é uma ameaça sem precedentes para um país soberano. Além disso, o conjunto de avisos parece ter o efeito de um balaço retórico, já que o ataque a infraestrutura civil pode configurar crimes de guerra segundo juristas e especialistas em direito internacional. Ainda assim, Trump mantém o tom mais duro em pronunciamentos públicos, minimizando questões legais em favor da pressão sobre Teerã.
Do ponto de vista estratégico, contudo, os especialistas apontam uma dificuldade prática enorme: o Irã é significativamente menor que os EUA – cerca de um terço do tamanho geográfico do território americano. Embora as autoridades norte-americanas tenham conhecimento da localização de instalações nucleares e de outros pontos-chave, é improvável que seja possível identificar milhares de alvos secundários espalhados pelo país para destruí-los em tão curto intervalo. “Cumprir essa ameaça literalmente exigiria um esforço extraordinário. E o que isso mudaria na linha de frente?” questiona um ex-funcionário da defesa que pediu anonimato. “Trump parece buscar um novo patamar de pressão que produza uma virada estratégica para os EUA, mas ainda não está claro qual seria esse nível.”
Na prática, atacando o conjunto da rede de energia Iraniana pode soar mais viável do que destruir cada ponte do território. A análise aponta que a maior parte da geração de energia e das refinarias iranianas está concentrada em três províncias litorâneas no Golfo Pérsico: Bushehr, Khuzestan e Hormozgan. Um ataque bem dirigido a esses corredores de energia poderia ameaçar a renda do regime, bem como restringir o fluxo do petróleo para o Golfo e o Estreito de Ormuz. E não é apenas uma questão de impacto econômico: cortes generalizados de energia dariam um duro golpe à população e poderiam complicar os planos diplomáticos.
Entre as mensagens em aberto, o vice-presidente Mike Vance reconheceu que já houve ataques aéreos em alvos militares no litoral — a ilha de Kharg, que lidera boa parte das exportações iranianas de petróleo —, mas afirmou que isso não representava uma mudança estratégica na linha de Trump. A sinalização é de que as negociações com o Irã continuariam até o prazo, ainda que o tom fosse de advertência, com promessas de infligir “dor muito maior” à economia iraniana caso o regime não mude de conduta. E não faltam explicações oficiais sobre a sequência: o envio especial Steve Witkoff e o genro Jared Kushner aparecem como líderes da diplomacia de ocasião, com o vice-presidente atuando de maneira mais direta apenas se houver espaço para acordos próximos. A Casa Branca, por sua vez, negou qualquer vínculo entre as declarações de Vance e a possibilidade de um ataque nuclear.
Enquanto isso, parte da infraestrutura civil já foi alvo de ações, e a imprensa iraniana relatou ataques aéreos envolvendo tanto os EUA quanto Israel que teriam atingido uma ponte em Qom. Três semanas antes, Trump havia dito que as obras de pontes importantes foram atingidas em operações militares. Mesmo assim, não está claro se a nova rodada de ataques que ele prometeu seria suficiente para convencer Teerã a retornar às negociações. Ainda existem divergências relevantes entre as partes, incluindo o futuro do setor petrolífero iraniano, o programa nuclear e o controle estratégico do Estreito de Ormuz. O diálogo direto só surgiu depois de semanas de negociação indireta e, até o momento, as discussões continuam em um patamar tenso, sem perspectiva de desfecho imediato.
A leitura entre especialistas aponta que, num cenário de escalada, o peso recairia sobre a população civil, o abastecimento de energia e, por extensão, os preços globais da energia. O fato de o Irã já ter enfrentado quedas de energia mesmo antes da atual escalada sugere que tocar na infraestrutura crítica poderia não funcionar como alavanca moral tão facilmente quanto imagina quem defende a escalada. Por outro lado, atacar o setor elétrico poderia atrasar ou complicar tentativas de reabrir o Estreito de Ormuz, um canal crucial para o fluxo de petróleo e para o comércio global. E o preço de esse movimento? A economia iraniana, já sob pressão, poderia sentir um impacto ainda maior, mas não está garantido que esse custo se traduza em uma cooperação mais rápida com Washington.
No fim das contas, o debate não é apenas sobre números ou táticas. Trata-se de entender o que essa linha de ameaça revela sobre a estratégia de Washington: qual objetivo realmente se busca ao pressionar com o peso de ações de grande impacto direto na vida cotidiana da população iraniana? A percepção de que o regime iraniano manterá firme sua postura, especialmente diante de um conflito que ele percebe como existencial, é comum entre analistas. Enquanto isso, os leitores podem se perguntar: o que isso muda na prática para quem assiste de perto a cada desdobramento? E qual equilíbrio entre pressão militar, sanções e diálogo pode, de fato trazer resultados sem transformar o Oriente Médio em uma zona de risco maior?