Por que Trump está estremecendo a ordem global mais do que qualquer outro presidente desde a 2ª Guerra
As exigências de Trump em relação à Groenlândia representam um ‘despertar brutal’ em um momento repleto de riscos
No epicentro da agenda de seu segundo mandato, anunciado em meio a aplausos retumbantes, Donald Trump reaparece como personagem capaz de reconfigurar regras que pareciam estáveis há décadas. No dia 20 de janeiro de 2025, ele deixou claro que não pretende seguir o roteiro diplomático tradicional: “Nada ficará no nosso caminho” foi a senha que abriu uma nova página da diplomacia norte‑americana. Enquanto os holofotes ainda piscam, ele recupera a lembrança do Destino Manifesto do século 19 — aquela velha ideia de que os EUA teriam, por vocação histórica, o direito de expandir sua influência — e transforma o cenário: o alvo que antes era o Canal do Panamá volta a surgir, agora em formato de debate sobre Groenlândia. Dessa vez, o tom é de determinação irrestrita. E a pergunta que não quer calar é: o que isso muda na prática?
Ao longo do século passado, a história dos EUA está repleta de decisões que levaram a invasões, ocupações e intervenções secretas para derrubar governos. Não é pouca coisa para se pensar quando se observa a guinada recente: uma liderança que desafia práticas consagradas, insinuando que as regras do jogo, tal como as conhecemos, podem não ter mais valor universal. Há quem leia esse movimento com pessimismo: é o sinal de uma era em que o direito internacional seria, aos olhos de alguns, apenas um conjunto de convenções a ser contornadas conforme a conveniência. Em Paris, em Davos, Macron não esconde o alerta sobre um mundo que não gosta de regras rígidas, mesmo que não tenha citado Trump nominalmente. A leitura é de que vivemos uma virada de rota que pode acender novos atritos entre potências e velhas alianças.
Entre as rajadas de declarações e as propostas de ação, surge a possibilidade real de anexação da Groenlândia — tema que já ganhou o centro das conversas entre capitals. A dúvida não é apenas sobre legalidade: é sobre qual seria o custo de uma operação dessa envergadura para a ordem estratégica europeia, para a OTAN e para o equilíbrio no Ártico. Os defensores da agenda “America First” de Trump vão insistir que o território gelado é, antes de tudo, uma peça de valor geoestratégico: controle de rotas, acesso a recursos e, claro, um instrumento de barganha com potências rivais. Do lado de fora, a preocupação é de que esse impulso possa reabrir feridas históricas de soberania e de alianças duradouras que sustentam a paz desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Como os aliados reagem quando o imprevisível presidente parece atravessar limites? A diplomacia, por ora, tenta ganhar tempo e, ao mesmo tempo, manter a coesão ocidental. Não faltam vozes que reconhecem o charme de uma negociação agressiva, mas também há quem defenda que é essencial manter o diálogo aberto para evitar que o contencioso se transforme em conflito direto. Entre os que tentam medir as probabilidades de um desfecho pacífico, o consenso é de que é preciso ficar atento aos sinais de que o arsenal de Trump pode ir além de críticas verbais e se tornar ações concretas no terreno.
Um dos episódios que ilustra o tom da disputa veio de um republicano que passou a questionar a atuação das Nações Unidas. Em entrevista à imprensa conservadora, Randy Fine sugeriu que a ONU teria falhado como mediadora da paz e, de forma polêmica, insinuou que, em determinadas situações, contrariar a organização poderia ter efeitos desejáveis. Paralelamente, uma iniciativa no Congresso ganhou contornos mais palpáveis: o projeto de lei intitulado “Anexação e Estadualização da Groenlândia” que já circula entre os assessores da Casa Branca. As propostas são sinais de que o debate está longe de ser apenas retórico — envolve medidas institucionais que podem acelerar uma transferência de controle ou de administração do território.
Como responderão aliados próximos quando tudo parece pender para uma escalada? A combinação de cautela e pragmatismo é a estratégia mais repetida entre diplomatas e assessores. Dizem que é provável que o caminho passe por manter a conversa, acompanhar de perto as movimentações do próprio Trump e tentar construir uma frente comum que não ceda à tentação de reagir de forma impulsiva diante de cada provocação. Ainda assim, é claro que há um desgaste com o estilo dele: promessas rápidas, reviravoltas frequentes e uma preferência por ações que parecem premiar o acordo direto com o vizinho mais poderoso, a começar pela bancada da própria administração.
Entre as avaliações, uma linha dura ganha força: a percepção de que Trump é um “transacionista” que prefere o poder real das suas negociações ao complexo equilíbrio de alianças. Autores de análise apontam que, para ele, o mérito de uma decisão está na consequência imediata de vitória, não nos valores compartilhados que costumam guiar as relações entre democracias. Não é, porém, uma leitura unânime. Outros observam que Trump sabe testar a paciência de coalizões, mas também sabe ler o terreno político em que está inserido, adaptando suas táticas conforme o desenho internacional muda. “Ele fala e age”, resume-se como uma das características mais marcantes do seu jeito de fazer política, algo que agrada parte de seus apoiadores e alarma a comunidade internacional.
Há quem veja nisso um padrão repetido de comportamento que não surpreende apenas pela ousadia, mas pelo modo com que desmonta convenções diplomáticas. A ideia de que o mundo pode ser reorganizado por meio de trocas diretas de poder, sem o mesmo peso para instituições coletivas, volta com força na leitura de analistas. É nessa linha que muitos associaram a trajetória de Trump a uma espécie de “lavagem de sanidade” — expressão cunhada para descrever a performance polida de um líder que, na prática, impulsiona políticas com consequências imprevisíveis para alianças e tratados. E, no centro dessas avaliações, fica claro que o leitor comum precisa acompanhar com atenção quais medidas concretas poderão emergir dessa nova fase da diplomacia americana.
O cenário ajuda a entender por que se fala, no dia a dia, de uma versão atualizada da Doutrina Monroe, agora com ares de modernização que alguns chamam de Donroe: a ideia de que os EUA não apenas defendem seus interesses, mas também moldam o espaço ao seu redor sem muita consideração pelas normas que só funcionaram enquanto houve uma ordem liberal de pós‑guerra. Em Davos, a retórica de defesa de um mundo com menos regras ganhou espaço, mesmo que muitos reconheçam que manter a coesão entre aliados é uma tarefa cada vez mais árdua. Enquanto isso, Trump não tem hesitado em exibir mensagens privadas de líderes que, segundo ele, buscam manter seu apoio — e, em alguns casos, já deixou claro que prefere a eficiência de um “jantar juntos” a manter a cortesia tradicional das relações diplomáticas.
O retrato de como isso se desenrola envolve também o Atlântico Norte. O secretário de Estado, descrito por aliados como o principal diplomata de Trump, admite que o presidente não opera como um político tradicional e que, por vezes, “diz e faz” sem hesitar. Além disso, a OTAN, que já viu seus membros ampliar gastos de defesa nos últimos anos, é apontada como peça central da tensão: o aumento da pressão econômica e militar dos EUA sobre aliados europeus alimenta um debate sobre que tipo de garantia de segurança a aliança pode oferecer diante de uma visão unilateral de governança mundial. Não é à toa que líderes como o primeiro-ministro da Noruega e o presidente francês entendem que a estabilidade do Ártico depende de uma leitura compartilhada dos riscos e de uma negociação que não abandone a cooperação ao acaso.
Do outro lado do Atlântico, o que se percebe é uma tentativa de manter o curso sem abandonar o diálogo. O Canadá, por exemplo, tem observado de perto o que acontece com a ordem global e, em Davos, o primeiro-ministro canadense ressaltou a necessidade de encarar o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse. A pergunta que fica é simples: até onde os países vizinhos estarão dispostos a ceder para evitar uma ruptura maior? Nesse debate, a figura de Donald Trump emerge como a força que pode, de uma hora para outra, redesenhar o mapa de velhas alianças ou, ao menos, colocar o tema da soberania em evidência com uma clareza difícil de ignorar.
Há quem veja a cena e lembre que, em termos práticos, a maior parte das respostas ainda depende de fatores que não cabem apenas à vontade de uma pessoa. A tensão entre o desejo de manter uma ordem estável e a tentação de alterar o equilíbrio estratégico coloca em jogo a credibilidade de instituições internacionais e a segurança de milhares de pessoas que vivem em zonas de fronteira. E, quando se olha para frente, a dúvida persiste: os aliados conseguirão convencer Trump de que vale mais a pena buscar soluções com base no consenso do que apostar em ações que possam reacender conflitos históricos? Mesmo que muita gente aposte no diálogo, fica claro que a arena internacional continua sendo palco de decisões que, hoje, podem parecer simples no papel, mas que na prática exigem uma visão de longo prazo, paciência e souplesse para sustentar acordos em meio a tempos de incerteza.
Questionado sobre o que poderia impedir a escalada, Trump, em entrevista recente, respondeu com uma autencidade brutal: a própria moralidade e o domínio da própria mente seriam os limites. Não é pouco para quem resolveu redesenhar a paisagem polar de paz e guerra. E é justamente essa combinação de audácia e autoconfiança que faz com que um grande número de aliados busque, mais do que nunca, encontrar caminhos para coabitar um mundo que não pode mais ser vivido apenas pela mesma regra de sempre. No fim das contas, a dúvida não é se haverá uma nova era de negociações difíceis, mas se haverá espaço suficiente para que vozes diversas permaneçam na mesa, sem que uma única figura imponha, por meio da força, a direção que o planeta seguirá.
Para quem acompanha o desenrolar diário da política internacional, fica a sensação de que estamos diante de um momento em que cada decisão passa a ter peso de testemunho: o quão conectado está o mundo à ideia de regras compartilhadas e qual é o preço de desafiar esse pacto. O próximo capítulo, marcado pela possibilidade de uma viagem de Trump ao pódio de Davos já na semana que vem, pode não apenas redefinir alianças, mas também redefinir a própria percepção de o que é possível fazer em nome da soberania americana. E, no dia a dia, seguimos atentos: o que mudará na prática, e o que continuará a ser apenas a promessa de uma nova era.
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