As polêmicas de Toffoli no STF, da indicação por Lula às críticas no caso do Banco Master
Ministro desde 2009, Toffoli tem trajetória marcada por decisões que causaram controvérsia.
O ministro Dias Toffoli, integrante do Supremo Tribunal Federal desde 2009, é uma figura que divide opiniões no país. Sua ligação histórica com o Partido dos Trabalhadores e com o governo de Lula gerou críticas persistentes desde a nomeação, há quase duas décadas. Ao longo da carreira, ele enfrentou pelo menos quatro pedidos de impeachment, sendo o mais recente movido por um grupo de senadores que apontam possível crime de responsabilidade no âmbito do caso Banco Master. Mas o que está em jogo vai muito além de rótulos políticos: envolve como o STF conduz investigações e decisões que mexem com grandes relações de poder no Brasil.
A engrenagem doBanco Master começou a ganhar contornos mais fortes no fim de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição. Em dezembro, Toffoli assumiu a relatoria do inquérito após acatar um pedido da defesa para que o caso trilhasse caminho até o STF. A condução da apuração sob o ministro tem gerado questionamentos sobre vínculos pessoais e possíveis conflitos de interesse dentro da Corte, alimentando um clima de tensão entre integrantes do próprio tribunal. No decorrer das apurações, acabou ganhando espaço histórico o episódio envolvendo um resort em Ribeirão Claro, no Paraná, apontado como elo entre investigados no caso e familiares do ministro.
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, dois irmãos de Toffoli, José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, teriam atuado como sócios do empreendimento Tayayá, por meio da empresa Maridt Participações, entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025. A história fica ainda mais entrelaçada quando se lembra que, em 2021, parte da participação do resort foi vendida a um fundo ligado a Fabiano Zettel, pastor e empresário, cunhado de Daniel Vorcaro — dono do banco Master.
Vorcaro e Zettel chegaram a ser presos durante a Operação Compliance Zero, que apura possíveis fraudes envolvendo o Master. Enquanto Zettel ficou detido temporariamente para preservar sigilo, Vorcaro encontra-se atualmente em prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico. A defesa tem afirmado que Vorcaro colaborou com as autoridades e que todas as medidas judiciais serão cumpridas com transparência. Embora não haja participação direta do gabinete de Toffoli na gestão do resort, o endereçamento da empresa dos irmãos dele consta em Marília, interior de São Paulo, e a publicação registrou visitas frequentes da esposa de José Eugênio ao local.
Na prática, o resort Tayayá tem servido como espaço de encontros entre Toffoli, políticos e empresários. Uma apuração do Metrópoles mostrou que o ministro ficou no Tayayá pelo menos 168 dias desde dezembro de 2022, com diárias de segurança custando números que chegam a R$ 548,9 mil aos cofres públicos. Em vídeos divulgados pela imprensa, o ministro aparece recebendo figuras como o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Luiz Pastore. Pastore, aliás, é o dono de um jatinho que, em novembro de 2023, levou Toffoli a Lima, no Peru, para acompanhar uma final de Libertadores, viagem na qual também estavam um advogado do Master e outros diretores da operação.
Em resposta às investigações, a BBC News Brasil procurou a assessoria de Toffoli por meio do STF, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. Já o presidente do STF, Edson Fachin, divulgou uma nota defendendo o tribunal e Toffoli diante das críticas à condução do caso Master. Fachin destacou que o STF não se curva a ameaças ou intimidações, e que eventuais dúvidas sobre procedimentos devem ser analisadas pelos ritos internos, reforçando a necessidade de institucionalidade e respeito às regras processuais.
Essa não é a primeira crise que envolve Toffoli. Ao longo dos anos, ele acumulou críticas sobre a proximidade com políticos investigados e decisões que geraram desconfiança sobre a imparcialidade do tribunal. Em 2012, por exemplo, ele participou do julgamento do Mensalão sem se declarar suspeito, votando pela absolvição de José Dirceu, com quem trabalhava no governo, o que acabou sendo alvo de extensas discussões. Mais tarde, ele também foi apontado por ter enfraquecido restrições associadas a Dirceu no âmbito da Lava Jato, em uma avaliação que ele mesmo comentou anos depois, dizendo que o STF teve papel central para o que reconheceu como o início de mudanças importantes no combate a crimes de corrupção.
Durante a sua passagem pela presidência do STF, em 2018, Toffoli inaugurou o que ficou conhecido como o inquérito das fake news sem provocação formal da PGR, apontando para uma atuação que muitos consideraram excessiva e controversa. Na ocasião, o então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, chamou a ação de exagerada, enquanto a então PGR, Raquel Dodge, tentou manter o inquérito sob controle institucional, o que acabou sendo decidido pelo próprio tribunal. Em 2020, Toffoli afirmou que a abertura do inquérito foi uma das decisões mais difíceis de sua gestão, destacando que a história avaliaria o papel daquele instrumento na democracia brasileira. A investigação permanece em curso, alimentando debates sobre equilíbrio entre liberdades e proteção institucional.
Outros episódios que marcaram seu percurso envolvem decisões em julgamentos de casos relativos à Lava Jato, como a determinação de que crimes comuns, quando conectados a crimes eleitorais, sejam julgados pela Justiça Eleitoral, afastando o Ministério Público Federal do Paraná de processos relevantes. Críticas também chegaram por ações em que Toffoli suspendeu investigações que utilizavam dados de controle financeiro; ao longo do tempo, ele reavaliou tais decisões, defendendo a necessidade de prudência institucional e do respeito aos limites da jurisdição.
Em termos de desdobramentos recentes, a imprensa destacou perguntas sobre a necessidade de abrigar investigações sob a custódia do STF versus enviada para autoridades competentes. Em entrevista à BBC, especialistas e juristas manifestaram cautela quanto à centralização de escolhas, especialmente quando o inquérito envolve familiares de autoridades em posição de foro privilegiado. Entre perspectivas críticas e defesas, o debate segue em aberto sobre o papel de Toffoli no STF e o impacto de suas decisões na confiança pública no sistema judiciário.
Mas, afinal, o que isso muda no dia a dia do cidadão? A narrativa em torno de Toffoli acende um debate sobre como o Judiciário deve manter a distância de facilidades que possam parecer acordos de interesses, sem abrir mão da autonomia necessária para apurar irregularidades com rigor. No fim das contas, a discussão não é apenas sobre uma pessoa, mas sobre como as instituições tentam preservar a democracia, com transparência, responsabilidade e respeito às regras do jogo.
- Indicação de 2009 pelo PT e Lula, que moldou percepções sobre vínculos político-jurídicos.
- Inquérito das fake news e seu impacto institucional, com debates sobre limites do STF.
- Mensalão e Riveranças sobre imparcialidade em julgamentos de figuras próximas ao governo.
- Caso Master e o papel do STF como palco de controvérsia envolvendo recursos, sigilo e relações com o mundo financeiro.
- Reações públicas e defesa institucional, com notas oficiais reiterando a necessidade de respeito às normas e à independência das cortes.