Religião como instrumento político: a fé e o bolsonarismo em 2025

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Religião como moeda política: a fé e o bolsonarismo em 2025

Ao longo do ano, a fé e o bolsonarismo caminharam juntos, com orações, vigílias e um debate constante sobre o papel da religião na vida pública e na identidade de eleitores.

Desde a ascensão de Jair Bolsonaro, a relação entre crença e política no Brasil ganhou contornos cada vez mais próximos. Em 2025, esse elo ficou ainda mais explícito: questões de saúde do ex-presidente e uma condenação a 27 anos e 3 meses de prisão por participação em uma trama golpista alimentaram a percepção de que religião e atuação pública seguem entrelaçadas. Segundo o cintro político Murilo Medeiros, a família Bolsonaro sabe ler a fé como um marcador identitário extremamente potente; não é apenas fé pessoal, é uma linguagem política permanente que atravessa o cotidiano.

Para Medeiros, o bolsonarismo nasce como uma política de valores, estruturada em pilares como família, autoridade e uma oposição a pautas identitárias. Esse arcabouço ajudou a solidificar o sentimento de pertencimento político entre apoiadores. Ainda segundo o cientista, a fé funcionou como um atalho de confiança política em meio a uma atmosfera de desconfiança generalizada, especialmente entre quem não se reconhecia nas narrativas tradicionais. No entanto, ele adverte que o desafio democrático não está na fé em si, mas no momento em que sua expressão passa a capturar instituições públicas, abrindo espaço para uma lógica de exclusão em vez de pluralismo.

Já o analista Deividi Lira aponta para a natureza histórica e estrutural dessa relação entre religião e política no Brasil. Mesmo com o Estado reconhecidamente laico, a liberdade religiosa amplia a presença de atores religiosos no debate público. Segundo ele, o crescimento de igrejas neopentecostais ajudou a consolidar a religião como discurso político, capaz de moldar identidades coletivas e pautas morais. O efeito é ambíguo: por um lado, amplia a participação política de determinados segmentos; por outro, pode tensionar a laicidade do Estado e favorecer uma polarização que desloca o foco de políticas públicas para questões morais.

A fé e o bolsonarismo

O ano não foi simples para quem apoia Jair Bolsonaro. O ex-presidente passou por uma cirurgia em 13 de abril para tratar uma suboclusão intestinal e ficou internado por cerca de três semanas. Durante esse período, lideranças religiosas associadas ao movimento costumavam cantar e orar pelo sucesso da recuperação em intervalos de poucas horas, formando uma espécie de vigília espiritual em torno da figura pública. Em paralelo, a cena política acompanhou o desenrolar de medidas restritivas e decisões judiciais que moldaram o ambiente de apoio e oposição.

No dia 4 de agosto, Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar, após decisão do STF relacionada a descumprimentos de medidas anteriores. Ao longo da fase de constrained, parlamentares aliadas e um círculo de religiosos próximos à família aparecem com frequentes visitas, reforçando a imagem de um movimento que combina fé, política e solidariedade. Em especial, houve uma atuação destacada da ala religiosa, que transmitiu uma leitura de “apoio espiritual à família” dentro de uma órbita de influência que se estende para além da esfera estritamente religiosa.

Durante aquele período, a presença de discursos, orações e gestos públicos associados à fé continuou a marcar o cotidiano dos apoiadores. Grupos religiosos e lideranças associadas à família Bolsonaro participaram de eventos que demonstraram a continuidade dessa relação entre crença e atuação política, levando muitos a perguntarem: qual o peso real da fé na decisão de voto e na condução de políticas públicas?

Para entender o cenário, vale observar que a relação entre religião e política no Brasil, de fato, tem raízes profundas. A partir da Constituição de 1988, o país decidiu manter a laicidade do Estado, mas a liberdade religiosa acabou ampliando a participação de atores religiosos no debate público. Esse movimento, segundo especialistas, pode ampliar a participação de certos grupos na arena política, ao mesmo tempo em que exige cuidado para não diluir o papel do Estado como árbitro de políticas públicas, preservando o espaço para discordâncias, pluralismo e instituições independentes.

Como leitura de impacto para o cotidiano de leitores e eleitores, o que fica é a percepção de que a fé funciona como elo de união entre segmentos de apoiadores, familiares e comunidades, ao passo que o debate público ganha contornos mais morais do que meramente técnicos. No fim das contas, a pergunta que fica é prática: até que ponto a manifestação de crença deve orientar decisões governamentais, sem comprometer a laicidade e a diversidade de visões que compõem a sociedade?

  • Marcador identitário da base de apoio, com impacto no comportamento cívico e político
  • Presença crescente de atores religiosos na arena pública, associada a mudanças na laicidade
  • Relação entre fé e políticas morais, com risco de polarização aguda
  • Casos de alto perfil que aproximam fé e política na prática, incluindo eventos públicos e vigílias

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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