Queda de Maduro derruba também a soberania

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Maduro cai, a soberania também

Entre opressão chavista e intervencionismo norte-americano, a soberania do povo venezuelano permanece sequestrada.

Com a ingerência anunciada dos Estados Unidos no destino da Venezuela, o que parecia ser o fim de um narco-regime associado ao chavismo vai ganhando contornos diferentes na leitura do dia a dia. Nicolás Maduro segue no poder, cercado por aliados do que muitos chamam de Cartel de los Soles, e, ainda que haja quem veja sinais de mudança, o governo americano já sinaliza uma gestão da transição até um desenho de democracia “justa, correta e equilibrada” — restando saber o que isso realmente significa na prática.

No entanto, a verdade que se impõe é complexa: Chávez, Maduro e o chavismo representam, para muitas vozes da região, um capítulo sombrio da história latino‑americana, não uma democracia solidificada. Não se tratou de uma experiência popular, mas de uma continuidade de tendências ditatoriais, alicerçadas em dois pilares perigosos que caminham de mãos dadas: o narcotráfico e o socialismo. O resultado, para milhões, foi pobreza persistente, repressão para quem ousava discordar e um êxodo humano expressivo, traçando itinerários de fuga e busca por sobrevivência.

O legado atribuído a essas forças inclui, entre outras coisas, o financiamento do terrorismo internacional, o tráfico de drogas utilizado para sustentar o aparato de poder, a destruição de uma economia que já foi referência na região e uma crise humanitária de grande escala. O que se vê é o socialismo do século XXI, que, ainda com variações, tende a carregar consequências semelhantes às do século passado.

Por outro lado, quem hoje se põe na linha de defesa da Venezuela nem sempre o faz por amor aos venezuelanos, mas, muitas vezes, movido por uma agenda ideológica. Assim, surgem perguntas: onde estavam esses defensores da justiça quando o governo de Maduro perseguia a oposição, fraudava eleições, mandava forças de segurança repressivas às ruas, inflacionava a moeda e empurrava a população para condições de vulnerabilidade extrema? A leitura comum é de que muitos desses apoiadores veriam os venezuelanos como peças úteis para manter uma visão geopolítica antiamericana, e não como cidadãos com direitos.

Entre a geopolítica e a soberania popular, as engrenagens continuam a girar com a intervenção dos EUA. A narrativa aponta para um país que, sob pressão, utiliza o peso do poder externo para forçar mudanças, ao mesmo tempo em que muitos questionam a legitimidade moral da intervenção. No plano jurídico e ético, fica claro que não houve, na prática, um esforço realmente conjunto para a construção de paz nem esgotamento de vias pacíficas para remover Maduro. Além disso, há quem questione a legitimidade de uma ingerência que, em várias leituras, se difere do que seria uma defesa da democracia venezuelana.

É justamente esse paradoxo que atravessa quem acompanha o episódio: de um lado, um regime violento que chega ao fim; de outro, uma intervenção externa que não nasceu de um consenso moral claro. Entre a opressão de um governo e o intervencionismo de um Estado, a soberania do povo venezuelano parece ficar, mais uma vez, sequestrada.

No fim das contas, reconhecer os crimes do chavismo não exige calar a imoralidade da presença externa. É possível – e até necessário – admitir as falhas do regime sem legitimar a ideia de que qualquer fora pode impor critérios a um povo. E, olhando para o século XX e para a história, fica a provocação de que talvez precisemos menos Napoleões e mais figuras que priorizem a ética do dialogar: Sócrates, Thomas More, Franz Jägerstätter – nomes citados como referência de humanidade diante de grandes dilemas políticos. A vida do povo venezuelano merece atenção contínua, independentemente de rótulos, para que a soberania não seja apenas uma palavra, mas uma prática no dia a dia.

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Jornalista

André Santos

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