Passagens aéreas: por que a guerra no Oriente Médio ameaça o seu bolso
Escalada em preços de petróleo puxada pela guerra no Oriente Médio começou a pressionar tarifas aéreas no mundo; setor teme repasse no Brasil
O agravamento do conflito no Oriente Médio voltou a mexer com o preço do petróleo, e isso impacta diretamente a conta de quem sonha em viajar. Enquanto países como a Índia já registram reajustes de até 15% nas passagens, no Brasil o setor teme que o encarecimento do Querosene de Aviação (QAV) interrompa o ciclo de expansão que levou o país a registrar um recorde de 130 milhões de passageiros em 2025.
A força motriz por trás dessa pressão é a volatilidade do petróleo, que chegou a alcançar US$ 120 por barril, equivalente a R$ 628, antes de recuar parcialmente. Para as companhias brasileiras, a sensibilidade é maior: aproximadamente 60% das despesas operacionais está atrelada ao dólar e o combustível sozinho representa cerca de um terço dos custos totais.
Além do custo do insumo, a própria logística de voo tornou-se um quebra-cabeça caro. Para evitar áreas de conflito e a ameaça de drones ou mísseis, as empresas precisam traçar rotas alternativas, o que aumenta o tempo de voo e o consumo de combustível. Esse redesenho de itinerários desorganiza trajetos tradicionais, principalmente entre a Ásia e a Europa, reduzindo a oferta de assentos num momento de demanda aquecida.
Entre as grandes companhias, nomes como Qantas, SAS e Air New Zealand já revisaram suas tabelas de preços após o barril do QAV subir da média de US$ 90 para a faixa entre US$ 150 e US$ 200. Com o fechamento de corredores estratégicos, a Cathay Pacific precisou acionar voos extras para a Europa, na tentativa de compensar parte da queda de capacidade em rotas diretamente afetadas pelo conflito.
No meio dessa crise, o hedge de combustível surge como um mecanismo essencial: é como um seguro financeiro que permite às companhias travar o preço do querosene em contratos futuros, protegendo-as de altas repentinas. Enquanto Latam, Azul e Gol utilizam essa blindagem, as quatro maiores operadoras dos EUA — American, Delta, United e Southwest — ficaram expostas e podem enfrentar até US$ 11 bilhões (R$ 57 bilhões) adicionais em 2026 por não possuírem proteção.
- Aumento global de tarifas impulsionado pela volatilidade do petróleo
- Rotas desviadas elevam tempo de voo e custos operacionais
- Hedge de combustível como ferramenta de mitigação de riscos
- Risco maior para a aviação regional brasileira
No cenário nacional, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) busca negociar com a Petrobras para que a estatal, responsável por 80% da produção do QAV no país, não repasse integralmente a instabilidade externa. Embora o combustível tenha registrado alta de 8,8% em 2026, a Petrobras ressalta que o preço médio de R$ 3,58 por litro ainda fica consideravelmente abaixo do pico de R$ 5,80 registrado em 2022—um sinal de tentativa de amortecer o impacto antes que alcance o consumidor final.
Por outro lado, Alessandro Oliveira, especialista do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), aponta que o aumento de custos ocorre junto com uma frota de aeronaves restrita. Sem novos aviões para colocar em operação, a tendência é que os voos fiquem mais lotados e a concorrência diminua, empurrando tarifas para cima. É, na prática, a lei da oferta e da demanda operando sob um setor pressionado pela guerra.
O maior risco recai sobre a aviação regional, onde o passageiro costuma reagir com maior sensibilidade aos preços e há menos competição entre empresas. A Abav já descreve o momento como “um dia de cada vez”: operadoras estão racionando combustível, enxugando frequências e, em casos, reduzindo destinos. Se a crise não arrefecer, cidades menores podem sofrer com cortes de voos, isolando regiões que dependem da conexão aérea para manter a atividade econômica.