Os dilemas de Lula com convite de Trump para Conselho da Paz de Gaza
Planalto avalia convite para grupo liderado pelos EUA em meio à desconfiança sobre se grupo pode prejudicar funcionamento da ONU.
Em Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aproveitou a passagem pelo Fórum Econômico para anunciar oficialmente o Conselho de Paz, uma iniciativa que coloca um conjunto de países sob a influência americana no centro de uma atuação voltada à reconstrução e à desmilitarização da Faixa de Gaza, após mais de dois anos de confrontos entre Hamas e Israel. A criação do órgão está ancorada em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em novembro de 2025, que prevê uma gestão transitória da região até que a Autoridade Palestina finalize um processo de reforma.
No ato de lançamento, Trump esteve acompanhado de representantes de 19 países que aderiram à iniciativa, entre eles Arábia Saudita, Indonésia e Argentina. O Brasil também recebeu o convite para compor o bloco, sinalizando o interesse de Washington em ampliar a parceria com o país sul-americano no cenário internacional.
Segundo o discurso de Trump, o Brasil teria um papel de destaque no Conselho da Paz. “Eu convidei. Eu gosto dele. Lula terá um grande papel no conselho da paz de Gaza”, afirmou o presidente americano, lançando o tom de uma cooperação que, na prática, pode mexer com tradições de atuação multilateral.
Nesta sexta-feira, 23 de janeiro, o presidente Lula reagiu criticando a proposta e afirmando que Trump pretende “ser dono da ONU”. Em Salvador, no encontro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o líder petista afirmou que vivemos um momento crítico no cenário global, com o multilateralismo sendo posto de lado em favor de soluções unilaterais, e que a carta da ONU estaria sendo “rasgada” no dia a dia da política mundial.
Ao longo das leituras sobre o assunto, analistas ressaltam as dúvidas sobre os objetivos reais do Conselho criado por Trump. Uma das questões centrais é se o órgão serviria apenas para tratar da reconstrução de Gaza ou se seria uma tentativa de substituir a ONU, instituição que costuma receber críticas de Washington. O documento fundador aponta Trump como presidente do Conselho e prevê um conselho executivo com forte presença de membros do governo norte-americano, incluindo o secretário de Estado, o enviado especial e Jared Kushner, genro do presidente.
Ao comentar o tema, especialistas ouvidos pela imprensa comentaram que o convite coloca o governo brasileiro diante de dilemas sensíveis. Um deles é a falta de clareza sobre como funcionaria a abrangência do Conselho — transição em Gaza ou algo com alcance global. Outro ponto é o risco de retaliação por parte dos Estados Unidos caso o Brasil rejeite a proposta. Além disso, há a preocupação com a possibilidade de perda de influência regional caso o Brasil não participe, especialmente porque Argentina e Paraguai já aderiram ao projeto, o que aumenta a pressão para uma posição brasileira.
No Davos, enquanto repetia que o Conselho atuaria “em conjunto com a ONU”, Trump também manteve críticas à instituição e celebrou o potencial do grupo para ações futuras. No dia a dia da diplomacia brasileira, a dúvida é como equilibrar uma defesa clara de reformas nas estruturas de governança global — especialmente a própria ONU — com a cautela de não abrir mão de influência regional nem de alianças históricas com os Estados Unidos.
Celso Amorim, assessor para assuntos internacionais da Presidência, chegou a dizer em entrevista que a proposta poderia representar uma espécie de ameaça à ONU, descrevendo-a como confusa e potencialmente disruptiva para o sistema multilateral. Do outro lado, Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais, alerta que aceitar o convite poderia legitimar um agrupamento sem objetivos bem definidos, enquanto recusar pode manter a possibilidade de o Brasil participar das negociações sobre Gaza, dependendo de como as coisas evoluírem.
Para Marc Weller, diretor do programa de Direito Internacional na Chatham House, a situação exige coordenação entre países. Ele reforça que qualquer hesitação do Brasil deve ser compartilhada com a UE e com organismos regionais da América Latina para evitar que decisões de Washington incidam de forma abrupta sobre a região. Em paralelo, Oliver Stuenkel, da FGV, acredita que o custo de recusar tende a ser baixo, especialmente se a transparência do processo não for assegurada, o que pode reduzir o interesse do Brasil em aderir sem condições claras.
Além disso, a dinâmica regional interessa diretamente ao Brasil: Argentina e Paraguai já estão no radar do Conselho, o que pressiona a capital brasileira a não ficar à margem. Milei, na Argentina, e Peña, no Paraguai, participaram do lançamento, o que evidencia uma nova configuração política na região que não é neutra em termos de alianças com Washington. Casarões aponta que o melhor caminho para o Brasil pode ser manter o convite em “banho-maria”, abrindo espaço para avaliar o desdobramento sem se comprometer de imediato.
Em resumo, o governo brasileiro precisa pescar entre dois mares: defender reformas das estruturas de governança global — incluindo a busca por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU — e, ao mesmo tempo, observar com pragmatismo os impactos de uma adesão que possa reduzir o protagonismo nacional diante de Washington e de seus aliados. No fim das contas, a decisão envolve escolher entre evitar ficar fora de decisões que afetam a área geopolítica do Oriente Médio e preservar a capacidade de atuar de forma autônoma na região, mantendo o peso de uma liderança regional sólida.