Lula define condições para integrar o conselho de Trump

Ouvir esta notícia

Lula impõe condições para participar do Conselho da Paz sugerido por Trump

descricao

Em diálogo com o presidente norte-americano, Lula destacou que a iniciativa precisa ficar restrita à situação da Gaza, com assento para a Palestina, e associou essa visão a uma reforma mais ampla das Nações Unidas, incluindo a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou de uma pauta que agrega política externa e escolhas estratégicas. Em conversa telefônica com Donald Trump, ontem, ficou evidente a tentativa brasileira de vincular o eventual ingresso ao Conselho da Paz a um recorte específico: limitar a atuação à crise na Gaza e assegurar a presença palestina. Ao mesmo tempo, Lula reiterou a importância de manter a paz e a estabilidade na Venezuela.

O telefonema teve início na noite de domingo (25), quando a Casa Branca acionou a diplomacia brasileira para uma conversa na manhã seguinte. Embora a sondagem tenha partido dos Estados Unidos, o Brasil já vinha cobrando um novo diálogo entre as duas partes há semanas. De prática, este foi o quinto contato entre Lula e Trump desde setembro do ano passado, quando eles instituíram um canal direto de comunicação entre os seus governos.

Segundo o governo federal em nota, “Lula propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina”. Nesse contexto, o presidente também ressaltou a necessidade de uma reforma abrangente da ONU, com prioridade à ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Quem acompanha a política externa afirma que o Brasil não pode aceitar um convite que enfraqueça instituições históricas da ONU. Aceitar o assento no Conselho da Paz seria, na prática, um movimento que contraria a linha brasileira de fortalecer e reformar instituições multilaterais. O texto do Conselho da Paz, enviado junto do convite, deixa em aberto os campos de atuação, o que alimentou a leitura de que os EUA poderiam querer explorar outros desdobramentos geopolíticos além da pauta da Palestina. Nesse cenário, se Trump não fizer distinções claras, a participação brasileira fica pouco provável.

Além disso, a gestão petista não viu com bons olhos o fato de que todas as decisões do Conselho da Paz poderiam, em tese, passar pelo veto de Trump, ainda que ele seja voz dissonante. Esses aspectos alimentam o temor de uma maior concentração de poder comparada ao que já existe no Conselho de Segurança da ONU, instituição onde apenas alguns países detêm veto. A defesa de ampliar a diversidade e os poderes dos países que compõem o colegiado é uma linha antiga do governo brasileiro, que acrescenta uma camada de cautela diante do novo colegiado.

Mesmo com as ressalvas, a avaliação de Brasília é de que o Brasil ainda não recebeu uma resposta final sobre a participação no Conselho da Paz. No mesmo telefonema, Lula voltou a mencionar a proposta brasileira encaminhada ao Departamento de Estado, em dezembro de 2025, para fortalecer a cooperação no combate ao crime organizado, bem como o congelamento de ativos de grupos criminosos e o intercâmbio sobre transações financeiras. A parceria na área de segurança é vista como estratégica para a campanha de reeleição, ajudando a desmontar narrativas de opositores que veem o Planalto como negligente no enfrentamento da criminalidade.

Ainda sem fechamento definitivo, as negociações devem seguir até março, quando Lula planeja viajar a Washington para cumprir a primeira visita de Estado do petista a Trump. Segundo o Planalto, os dois lados passaram também pelas perspectivas econômicas, com boa leitura de que as duas economias caminham para manter um bom relacionamento que já ajudou a reduzir parte das tarifas sobre produtos brasileiros.

No decorrer do diálogo, também houve espaço para um olhar sobre a Venezuela, com Lula defendendo a necessidade de preservar a paz e a estabilidade na região. E, para completar, as contas externas recentes apontam um déficit maior do que o registrado em momentos anteriores, sinalizando o desafio macroeconômico que acompanha o cenário internacional.

O que achou deste post?

Jornalista

Carlos Ribeiro

AO VIVO Sintonizando...