“Não haverá possibilidade de a França, sozinha, não permitir o acordo”, diz Lula
Em coletiva de imprensa, Lula relatou detalhes de sua conversa com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen
Em entrevista coletiva realizada em Foz do Iguaçu, neste sábado, 20 de dezembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que, na prática, a França não teria condições de, de forma isolada, barrar a conclusão do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. O adiamento da assinatura seguia repercutindo, mas o discurso do líder brasileiro enfatizou a força de um conjunto de condições compartilhadas para avançar com o texto.
“Se a assinatura já estiver pronta e faltar apenas a França, segundo Ursula von der Leyen e o futuro presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, não haverá margem para a França, sozinha, impedir o entendimento”, afirmou Lula. A fala repercutiu no tom de quem acompanha o processo há décadas e, ao mesmo tempo, aponta para uma leitura prática sobre quem precisa de quem para fechar o acordo.
Segundo o próprio mandatário, a líder europeia indicou disposição técnica e política para formalizar o pacto no início de janeiro de 2024. No dia a dia, o que ficou claro é que o cronograma depende de como as partes resolvem pontos sensíveis, especialmente no que diz respeito à avaliação de exigências históricas de cada lado. Além disso, Lula destacou que, conforme informações repassadas por von der Leyen e pelo futuro presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, a posição francesa não teria respaldo suficiente para vetar o avanço, desde que as demais condições sejam atendidas.
O governo brasileiro projeta que o documento possa ser assinado já no primeiro mês da presidência pro tempore do Paraguai, atualmente sob o comando de Santiago Peña. Embora a Comissão Europeia pretendesse fechar o pacto naquele mesmo fim de semana, a estratégia acabou sofrendo mudança diante do posicionamento da Itália. O governo italiano alinhou-se à França na solicitação de mais tempo para a análise dos termos, o que deixou o entrave central nas questões de proteção ao setor agrícola europeu. Na prática, a resistência italiana reforçou a pressão de produtores rurais de seu país, atrasando a ratificação imediata do texto.
O acordo entre Mercosul e União Europeia está em negociação há 25 anos, e o projeto traça diretrizes que incluem uma série de frentes distintas. Entre elas, a redução ou extinção gradual de tarifas de importação e exportação, a padronização de regras para o comércio de bens industriais e produtos agrícolas, a definição de normas para investimentos estrangeiros e o alinhamento de padrões regulatórios entre os países participantes. Esses pilares aparecem como eixo central de uma parceria que mira maior integração comercial, mas que depende de um delicado equilíbrio entre interesses agrícolas, industriais e de competitividade.
Segundo informações recolhidas pela agência AFP, a nova previsão para a conclusão dos trâmites está fixada para o 12 de janeiro, ainda em território paraguaio. Nesse ajuste, Ursula von der Leyen classificou a mudança de cronograma como um ajuste pontual, reforçando que é necessária uma maioria política sólida para viabilizar a criação de uma zona de livre comércio entre os blocos. A leitura, do lado brasileiro, é de que a evolução do diálogo continua dependente de uma convergência de interesses que preserve os acordos e as salvaguardas já discutidas ao longo de décadas de negociação.
A conversa entre Lula e Von der Leyen, na prática, ilustra como o tema transita entre planos diplomáticos e impactos diretos em setores produtivos. Enquanto o front político sinaliza avanços, os representantes europeus permanecem atentos às demandas relativas aos subsídios agrícolas, à concorrência fiscal e à proteção de mercados sensíveis. No fim das contas, o leitor comum pode perguntar: o que muda no dia a dia se esse acordo sair do papel? Em linhas gerais, trata-se de um quadro onde tarifas, padrões regulatórios e regras de investimento passam a caminhar juntos, com potencial de ampliar o intercâmbio de mercadorias entre continentes, mas também de exigir ajustes contínuos de políticas públicas nos dois lados.
Economistas e observadores destacam ainda que a janela de oportunidade depende não apenas de formalidades diplomáticas, mas da capacidade de cada país de traduzir esses compromissos em ganhos para agricultores, industriais e consumidores. Nesse contexto, a etapa atual é de ajustes estratégicos, com a ideia de que o acordo, em algum momento, poderia entrar em vigor de forma mais abrangente, sem prejudicar segmentos que mereçam proteção temporária ou mecanismos de transição bem calibrados.