Ex-assessor de Trump vê ameaças à Groenlândia como tática de barganha

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Ex-assessor de Trump diz que ameaças à Groenlândia podem ser ‘tática de negociação’

Em entrevista à BBC, Gary Cohn, ex-gestor econômico do governo Trump, afirma que as falas sobre invasão teriam o objetivo de abrir espaço para concessões, incluindo recursos estratégicos

O debate sobre o que move as falas do presidente americano ganhou uma leitura considerada mais estratégica. Gary Cohn, ex-presidente do Conselho Econômico Nacional e hoje vice-presidente da IBM, disse à BBC que as menções a uma possível interferência na Groenlândia podem, na prática, entrar no campo das táticas de negociação. Para ele, o recado não seria apenas de força, mas de cenário para conseguir acordos que beneficiem os interesses de Washington no Ártico e além. É uma leitura de quem acompanhou Trump perto de vários bastidores.

Segundo Cohn, houve uma conversa com uma delegação do Congresso dos EUA que revelou uma percepção comum entre republicanos e democratas: a Groenlândia deve permanecer como está. Em meio a esse cenário, o ex-assessor destaca que a Groenlândia guarda recursos de grande interesse mundial, especialmente minerais de terras raras, que são cruciais para o avanço da tecnologia de ponta. Nesse contexto, ele aponta que a ideia de ampliar a presença militar dos EUA na ilha poderia nascer justamente da busca por segurança e influência na região do Atlântico Norte e do Ártico, que vêm se tornando cada vez mais sensíveis a tensões geopolíticas.

Sobre a linha dura de palavras, Cohn não descarta o uso da retórica mais agressiva como uma estratégia para chegar a um acordo. “Ele pode ter exagerado ao anunciar algo para, no final, conquistar o que realmente queria”, diz o ex-assessor. A mensagem, na visão dele, é clara: as exigências de Washington podem ter sido pontuadas para obter concessões futuras, incluindo até um acordo sobre os minerais estratégicos da Groenlândia. Ainda assim, ele reforça: invadir um país que não quer ser invadido e que faz parte da Otan seria exceder limites em qualquer cenário.

Além disso, o tornante contexto global, com Davos em evidencia na Suíça, mostra que o debate sobre o Ártico não é apenas militar. O Fórum Econômico Mundial serve como palco para discutir como a tecnologia — especialmente IA e computação quântica — pode redesenhar a geopolítica. A IBM, entendida por Cohn como núcleo da transformação atual, mantém um papel de protagonismo ao redor de plataformas quânticas que já operam em vários setores da economia. No dia a dia, ele observa que a IA está se tornando a espinha dorsal de operações que precisam transformar dados em decisões consistentes, preparando o terreno para que a tecnologia caminhe junto com a geopolítica.

Entre os desdobramentos, Cohn comenta ainda que a decisão de intervir na Venezuela pode ter sido parte de um movimento estratégico para dificultar o alcance da China, o maior comprador de petróleo americano, além de impactar relações com Rússia e Cuba. Em sua leitura, o foco nos minerais de terras raras deixa claro por que a Groenlândia aparece como cenário tão relevante para quem olha o mapa de dependências tecnológicas do século XXI.

Como parte do diálogo, o líder também aponta que, embora o tema de fiscalidade e tecnologia haja ganhado espaço, a discussão sobre recursos naturais continua em aberto. A Groenlândia tem reservas consideráveis desses minerais, que alimentam não apenas equipamentos de IA, mas também o futuro da computação quântica, dois pilares que Geoffrey Iverson, bem como outras vozes em Davos, citam como centrais para o que vem por aí. E, no ritmo dos negócios, a IBM figura como símbolo de uma era em que tecnologia de ponta e política internacional caminham lado a lado.

Por fim, não faltam pontos de reflexão. Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, reagiu a uma polêmica ligada a Nobel da Paz ao afirmar, em mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega, que não há relação entre uma carta presidencial e a premiação. “Não sei nada sobre a carta do presidente à Noruega, e é totalmente falsa a ideia de que o Nobel orientaria qualquer decisão”, disse ele. O recado, ainda segundo ele, é de que a Groenlândia é encarada como ativo estratégico e não pode ser terceirizado no debate de segurança regional. No fim das contas, o que parece claro é que os recursos de terras raras e o papel da IA não vão sair da agenda, independentemente de quem conduza as conversas.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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