Estimulação neural reduz sintomas da depressão resistente, aponta estudo

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Marca-passo neural reduz sintomas da depressão resistente, diz estudo

Equipamento estimula o nervo vago, que atua na regulação de neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina

Quem convive com depressão resistente ao tratamento sabe que as opções costumam ser limitadas. Um estudo recente coloca em foco uma abordagem inovadora: a estimulação do nervo vago por meio de um implante que fica sob a pele. A pesquisa acompanhou 214 adultos com quadro classificado como depressão de moderada a grave, que já tinham passado por ao menos quatro tentativas de antidepressivos sem alívio significativo. Ao longo de 12 meses de uso — com acompanhamento por mais um período semelhante — os resultados mostraram redução de sintomas e menos crises, abrindo espaço para novas possibilidades no tratamento.

O dispositivo é colocado sob a pele, no lado esquerdo do peito, e se conecta a nervos no pescoço. Embora o implante seja amplamente utilizado como tratamento de epilepsia resistente, o estudo verificou sua eficácia também contra a depressão. Ao todo, houve 80% de redução nos episódios de crise em alguns casos, e o número de pacientes que relatou melhoria aumentou ao longo do tempo de observação. Curiosamente, cerca de 35% daqueles que não haviam visto benefícios no primeiro ano acabaram apresentando melhora ao final da análise — um reflexo de que o efeito do VNS é gradual e se tornar mais evidente entre três e seis meses após a implantação, com progressão ao longo do tempo.

Segundo o médico Alfredo Maluf, do Einstein Hospital Israelita, a estimulação neural é uma das opções mais recentes no arsenal para lidar com depressão resistente. Ainda assim, ele ressalta que o VNS funciona como complemento, não substituindo a medicação antidepressiva necessária. “É um tratamento adjuvante”, aponta.

No campo da depressão, o nervo vago faz parte do sistema nervoso parassimpático, atuando de forma autônoma sobre órgãos como coração, pulmões e intestinos. Além disso, desempenha papel essencial na modulação de hormônios que influenciam diretamente o quadro depressivo. O nervo regula neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina, fatores centrais na regulação do humor. Essa modulação, conforme explica a neurologista Gisele Sampaio Silva, líder de pesquisa clínica em Neurologia no Einstein, ajuda a reorganizar redes cerebrais envolvidas na resposta ao estresse, na motivação e na percepção emocional.

Estudos indicam que o VNS pode reduzir a hiperatividade em áreas associadas ao pensamento acelerado e aumentar a conectividade em regiões ligadas ao controle emocional. “Essa modulação pode favorecer a reorganização de circuitos desregulados na depressão crônica, promovendo uma melhora gradual dos sintomas”, detalha Gisele. Para pacientes com depressão resistente, esse efeito tende a potencializar os benefícios de medicamentos e de outras terapias, sendo especialmente relevante para quem enfrenta crises recorrentes, alterações severas de apetite e sono, e, em casos mais graves, desânimo intenso e ideação suicida.

No fim das contas, a estimulação neural amplia as possibilidades de manejo para quem não respondeu bem aos tratamentos tradicionais. Mas o caminho continua exigindo avaliação médica cuidadosa, acompanhamento contínuo e uma abordagem integrada que inclua psicoterapia e estímulo à atividade física. É a soma dessas estratégias que, no dia a dia, pode fazer a diferença na qualidade de vida de quem convive com esse quadro desafiador.

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Jornalista

Renata Oliveira

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