Desembargador teria sido manipulado por tenente-coronel que matou esposa PM, diz delegado
Descrição
A Polícia Civil de São Paulo avalia que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da soldado Gisele Alves Santana e pela prática de fraude processual, pode ter utilizado a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan como parte de uma estratégia para sustentar a versão apresentada sobre a morte da policial. A leitura foi apresentada pelo delegado Lucas de Souza Lopes, responsável pelo caso, ao afirmar que Rosa Neto agiu de forma calculada ao chamar o magistrado para o local do episódio, no apartamento onde Gisele foi achada com um tiro na cabeça.
Conforme o delegado, o oficial envolvido é visto como “estrategista ao extremo” e “manipulador”. Para a investigação, a presença de Cogan no imóvel poderia servir para transmitir uma imagem de influência institucional e reforçar a narrativa que o tenente-coronel tentou impor logo após a morte da mulher. Na prática, seria uma tentativa de dar ao episódio uma tonalidade de peso institucional, segundo apurado pela autoridade policial.
Em entrevista ao podcast True Crime, do SBT News, Lopes disse que “ele era mais uma peça do xadrez que ele estava montando para a história dele”. “Às vezes, ele sabe que um desembargador tem a relevância do cargo, né?” Ele citou ainda que Rosa Neto buscava demonstrar autoridade perante outros, mesmo que não possuísse esse tipo de influência dentro do judiciário, principalmente porque não teria sido beneficiado pela investigação.
Segundo o delegado, o magistrado não interferiu na cena do crime nem teve contato com objetos da residência. “Ele fica alguns minutos lá, mas não interfere na ocorrência, não tem contato com nenhum objeto da cena do crime, pelo contrário, ele está ali ouvindo a versão apresentada pelo tenente-coronel”, afirmou Lopes. A defesa de Cogan, por sua vez, informou ao Fantástico que ele foi chamado ao local como “amigo, após os fatos, pelo coronel”, sinalizando a narrativa de que o desembargador apenas acompanhou a episódio, sem interferir.
Em coletiva no dia 18, a própria Polícia Civil afastou interferência direta do desembargador, com o delegado Denis Saito assegurando que o desembargador não interferiu na cena do crime e foi ao local “como amigo do tenente”. Mesmo assim, o Conselho Nacional de Justiça solicitou a abertura de uma apuração para avaliar a conduta do magistrado, procedimento aberto em 19 de março e tramitando sob sigilo no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Gisele morreu após ser encontrada com um tiro na cabeça no apartamento em que vivia com o marido, em São Paulo. O episódio começou a ser tratado como suicídio, mas, com o depoimento da mãe da vítima descrevendo o relacionamento como “extremamente conturbado” e acusando Rosa Neto de comportamento abusivo e violento, passou a ser investigado como morte suspeita. O tenente-coronel continua a negar as acusações. Nesta semana, a Justiça de São Paulo manteve a prisão do oficial, que permanece detido no Presídio Militar Romão Gomes.