Delcy Rodríguez busca garantir controle do poder em meio a divisões internas na Venezuela
Nos 12 dias que se passaram desde a destituição de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez tem trabalhado para consolidar seu poder, ajustando lealdades e alinhando interesses-chave, ao mesmo tempo em que atende às exigências de Washington para ampliar a produção de petróleo.
Logo após o desfecho que deixou Maduro sem comando, a Delcy Rodríguez, 56 anos, emerge como a figura que tenta costurar um equilíbrio entre as forças internas e as pressões externas. Tecnocrata discreta, ela já ocupou posições de alto nível — vice-presidência e ministério do petróleo — e agora busca assegurar a lealdade necessária para navegar em um cenário marcado por divisões históricas. No dia a dia, a missão é clara: manter o eixo do governo firme, sem abrir mão da capacidade de decisão que sustenta o poder.
Entre os movimentos-chave, a nomeação de um ex-presidente do banco central para ajudar a gerenciar a economia, a escolha de um chefe de gabinete e, principalmente, a indicação de um novo líder para a DGCIM, a temida agência militar de contrainteligência. Tudo sinaliza uma estratégia de reorganização que visa consolidar controle, ao mesmo tempo em que se tenta empurrar reformas econômicas sob a supervisão de autoridades próximas a Maduro. Na prática, trata-se de reforçar lealdades dentro de estruturas estratégicas do aparelho estatal.
Fontes com conhecimento próximo ao governo descrevem a movimentação como uma jogada para enfrentar o que muitos consideram a maior ameaça à continuidade do poder: Diosdado Cabello, ministro do Interior de linha dura, com vínculos estreitos com serviços de segurança e com as redes de coletivos. Cabello, que continua sendo uma peça central no tabuleiro, aparece ao lado da presidente interina em atos públicos e na condução de estratégias que visam manter sob controle o aparato de defesa e de segurança. Ainda assim, fontes insistem que o desafio principal da czarina, como ela é chamada nos corredores do poder, não está apenas em Cabello, mas em como neutralizar a fragmentação entre diferentes facções dentro do próprio chavismo.
Para muitos observadores, a aposta de Rodríguez envolve manter o apoio dos Estados Unidos para manter a política de produção de petróleo — um ponto sensível que exige cooperação com Washington sem abrir mão da autonomia que o aparato militar e as redes estatais exigem. Ela não parece imaginar que pode sobreviver sem o aval americano, disse uma fonte próxima ao governo, destacando a delicada linha entre autonomia nacional e dependência estratégica. Além disso, não faltam sinais de que a equipe de Rodríguez já está promovendo mudanças na gestão das forças armadas, com demissões de funcionários e a nomeação de novos oficiais, um movimento que busca alinhar o Exército com seus objetivos.
Entrevistas com sete fontes na Venezuela — diplomatas, empresários e políticos — descrevem um retrato de risco e ambiguidade: uma líder que precisa consolidar o controle interno ao mesmo tempo em que cumpre as exigências de Washington sobre as vendas de petróleo. As revelações, feitas sob condição de anonimato, ajudam a entender os bastidores de um governo que tenta se firmar em meio a tensões profundas entre lealdades internas e pressões externas. No discurso anual ao parlamento, a presidente interina pediu unidade, lembrou de sua trajetória de fidelidade a Maduro e prometeu abrir um novo capítulo com investimentos mais robustos no petróleo, sinalizando direções que a economia venezuelana espera seguir.
A Casa Branca respondeu a perguntas por e-mail, remetendo a comentários já feitos em semanas anteriores, mas as peças do quebra-cabeça político permanecem em movimento. Em uma entrevista recente à Reuters, Trump disse que Rodríguez havia sido muito agradável de lidar e sinalizou a expectativa de recebê-la em Washington em algum momento. O relacionamento com Washington, aliás, ganhou contornos mais complexos quando se comentou sobre uma possível visita da líder aos EUA, uma possibilidade que indica como as vias de comunicação entre Caracas e Washington seguem ativas, apesar das tensões.
O grupo liderado por Cabello não ficou de fora das leituras: ele esteve ao lado de Rodríguez na sessão nacional de quinta-feira, e as mensagens públicas indicaram uma relação de aparente união entre eles. No entanto, fontes com conhecimento do relacionamento entre as duas apontam que Cabello continua sendo a maior ameaça à capacidade de governar de Rodríguez — especialmente se optar por manter o seu ganho de influência sobre as pressões diárias nas estruturas de poder civil e militar. A tensão entre facções não é apenas estratégica; é também uma preocupação clara para quem observa de perto as engrenagens do poder venezuelano.
No cotidiano da capital, o clima de insegurança se refletiu em incidentes e no medo de desdobramentos. Poucas horas após a posse de Rodríguez, houve uma breve explosão de fogo antiaéreo do lado de fora do palácio presidencial, movimento que gerou preocupações sobre novos ataques ou tentativas de desestabilização. Depois, relatos indicaram que a causa teria sido um mal-entendido entre a polícia e a guarda presidencial, que derrubou drones usados para vigilância — sem que se soubesse a quem pertenciam. Mesmo assim, a atmosfera de contenção persiste, com moradores e funcionários públicos atentos a cada sinal de risco.
Em várias regiões do país, o estado de ânimo é de surpresa diante dos acontecimentos, misturado a receio. Dentro do PSUV, alguns membros locais passaram a incentivar a espionagem entre vizinhos e a denunciar qualquer celebração da queda de Maduro, segundo relatos de fontes que pediram discrição. Em meio a esse cenário tenso, Rodríguez precisa convencer os leais de que não é apenas uma executora de comandos externos, mas alguém capaz de manter a estabilidade necessária para atravessar os próximos meses sem desestruturar a máquina pública.
A operação de reorganização não acontece apenas no alto escalão: ela envolve também a economia, que vive uma fase de volatilidade acentuada após as pressões externas. A acumulação de decisões políticas e a gestão das redes clientelistas que se entrelaçam com as Forças Armadas têm impacto direto na vida prática do cidadão comum, como a distribuição de insumos, a logística de petróleo e as políticas públicas. Em resumo, o equilíbrio entre manter o apoio de Washington, conter Cabello e reorganizar as estruturas de poder interna pode redefinir não apenas o rumo do governo, mas também o cotidiano das pessoas que vivem sob o peso dessas mudanças.
Enquanto Rodríguez avança em sua estratégia, o país observa se esse movimento será suficiente para consolidar uma frente estável ou se as tensões internas vão se intensificar, exigindo mais ajustes no comando e nas alianças. No fim das contas, o que está em jogo é a capacidade de manter uma liderança que possa fazer frente aos riscos — internos e externos — que sempre fazem parte do cenário venezuelano.