Chega e PS trocam acusações sobre Venezuela e Hungria
Chega chamou o PS cúmplice de Maduro. PS chamou Ventura “fraude política” e “colaborador de Putin”. O debate sobre preços virou guerra de viagens.
Em uma sessão marcada pela interpelação ao Governo, no Parlamento, os temas econômicos deram espaço a uma contenda entre da ordem política mais acirrada. A discussão sobre as medidas para conter a subida de preços, estimulada pela tensão no Médio Oriente, acabou virando palco para acusações sobre viagens oficiais e leituras ideológicas de cada lado. No dia a dia, o que fica é a sensação de que ações públicas são usadas como moeda de disputa entre posições distintas.
André Ventura, líder do Chega, não economizou críticas ao secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, afirmando que a comitiva includiu uma passagem pela Venezuela para, nas palavras dele, prestar vassalagem a um regime que considera autoritário. Segundo o chefe parlamentar do Chega, Carneiro teria ido ao país sul-americano no fim de semana anterior para demonstrar apoio ao que classificou de governo tirano, assassino e corrupto.
Carneiro, por seu lado, respondeu lembrando que a Venezuela abriga uma das maiores comunidades de emigrantes portugueses e que muitos deles enfrentam dificuldades, com alguns citados como presos políticos. A mensagem foi a de que o país, e as comunidades portuguesas que ali vivem, exigem atenção e apoio, especialmente em momentos tão difíceis, algo que, segundo ele, o PS busca assegurar em cada gesto público.
O embate ganhou contornos ainda mais ásperos quando o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, pontuou outra viagem de Ventura, agora à Hungria, associando-a ao apoio à extrema-direita europeia, em parceria com Viktor Orbán. Na leitura dele, Orbán tem restringido o apoio da UE à Ucrânia, o que, para Brilhante Dias, coloca Ventura ao lado daqueles que estariam contornando a ajuda ao povo ucraniano — e, por consequência, alinhando-se a forças que podem ser interpretadas como próximas de Putin.
O senhor é uma fraude política, criticou Brilhante Dias na réplica, adicionando que o Chega, ao que tudo indica, ganhou espaço eleitoral também no exterior, mas que isso não pode servir de justificativa para qualquer distorção. Em resposta, Ventura afirmou que o Chega não abandona as visitas às comunidades portuguesas na Venezuela, desde que não haja labor de submissão a ditadores; e completou dizendo que, se houver fraude, recairia sobre o partido que tem no seu histórico ligações com o passado autoritário, citando, entre linhas, o legado de outras forças políticas em Portugal.
O debate ganhou ainda a intervenção do PSD, com Hugo Soares a lamentar que o foco tenha saído do tema relevante para o dia a dia dos portugueses e entrado em um jogo de acusações que pouco acrescenta à vida cotidiana. A corrida de críticas contou com a participação também da Il, que acompanhou as falas sobre as viagens oficiais, avaliando as narrativas apresentadas pelos adversários.
Mais adiante, o deputado Paulo Muacho pediu a palavra para defender a divulgação de “notícias” que mostrem viagens de ministros do governo de Pedro Passos Coelho, apoiado por André Ventura, à Venezuela, uma menção que alguns interpretaram como tentativa de comparar governos passados com o presente, em busca de legitimidade para as ações atuais. No centro do debate, ficou a impressão de que a política externa e a proteção às comunidades portuguesas no exterior tornaram-se palcos de disputas ideológicas que refletem o que os grupos pretendem apresentar aos eleitores.
No fim das contas, o que marcou o encontro foi o retrato de que, apesar das disputas, a vida cotidiana de quem está em casa segue sendo influenciada por decisões tomadas no Parlamento, inclusive quando o assunto envolve viagens, alianças políticas e a percepção pública sobre o que é ético ou não. Mas, afinal, o que isso muda na prática para o cidadão comum? A resposta pode depender de como cada bloco souber traduzir as tensões em medidas concretas que cheguem até os lares.