Chefe da NASA quer que Trump oficialize Plutão como planeta
Jared Isaacman defende a “restauração” do status do corpo celeste como uma homenagem à astronomia americana; no entanto, a ciência explica por que um decreto presidencial não tem poder no espaço
O debate sobre o status de Plutão — que já dura quase duas décadas — ganhou um novo capítulo. Jared Isaacman, bilionário e atual administrador da NASA, voltou a acender a polêmica ao sugerir que o presidente dos EUA deveria agir para devolver o título de planeta ao corpo celeste. Em entrevista exclusiva ao Daily Mail, ele afirmou, com tom de campanha, que “eu apoio 100% o presidente Trump em tornar Plutão grande de novo”, citando o slogan político “Make America Great Again”. Para Isaacman, tal movimento seria uma forma de homenagear a contribuição do astrônomo Clyde Tombaugh, responsável pela descoberta do objeto em 1930.
Mas a relação entre política e ciência não funciona por decreto. Na prática, a definição de termos astronômicos é uma competência institucional que não depende de vontades governamentais. A autoridade encarregada desse tema é a União Astronômica Internacional (IAU), uma organização não governamental independente de qualquer país. Em 2006, a IAU definiu critérios claros para considerar um corpo como planeta — três itens que Plutão acabou não cumprindo integralmente.
Entre os critérios citados pela IAU, destacam-se: orbitar o Sol, ter massa suficiente para manter uma forma quase esférica e limpar a vizinhança ao longo de sua órbita. Plutão atende aos dois primeiros, mas falha no terceiro, já que sua órbita cruza a de Netuno e o caminho é compartilhado com muitos outros objetos do Cinturão de Kuiper. Por isso, foi reclassificado como planeta anão, abrindo espaço para que a conversa pública ganhe novas cores, mesmo diante da matemática astronômica.
O debate americano costuma ser visto por parte da comunidade científica como expressão de orgulho nacional — afinal, Plutão foi o único planeta descoberto por um norte-americano até a mudança de classificação em 2006. Por outro lado, a história também lembra que não foi o primeiro a perder essa condição: Ceres, o maior objeto no cinturão de asteroides, manteve a aura de planeta apenas por décadas antes de ganhar o rótulo de planeta anão. Enquanto as discussões entram em campo, a ciência mantém o ritmo dos fatos e não se deixa levar por apelos ideológicos.
Para quem gosta de curiosidades, vale o detalhe sobre a órbita de Plutão: desde a sua descoberta em 1930, ele não completou uma volta inteira ao redor do Sol. A tal volta só deverá ser concluída em 2178, um lembrete de como o tempo cósmico coloca os acordes humanos em compasso bem diferente do nosso cotidiano. Além disso, as suas cinco luas não orbitam o planeta anão diretamente, mas sim um ponto logo acima dele, o baricentro, resultado do tamanho relativo de Caronte e das demais luas. No fim das contas, a dança orbital de Plutão é tão peculiar que até o título de banda regional — Plutão Já Foi Planeta — fica no ar como uma brincadeira que retrata bem a história.
Para quem observa de longe ou de perto, a pergunta que fica é: “Mas o que isso muda na prática?” A resposta é complexa, porque envolve ciência, memória histórica e, claro, aIdéias de identidade científica. Enquanto a política tenta empurrar a agenda para o espaço, a comunidade educativa e o público em geral se mantêm atentos aos critérios técnicos que regem o universo — e que não dependem de decisões presidenciais. No dia a dia, o que permanece é a curiosidade: por que alguns corpos atraem tanta paixão popular e o que isso revela sobre como entendemos o cosmos?
Mesmo com a polêmica, a vida continua a girar no espaço. Plutão continua na fronteira do Sistema Solar, lembrando que a ciência possui regras próprias e que a história de cada objeto celeste envolve mais do que rótulos de classificação. No fim das contas, a conversa sobre se ele continua ou não como planeta é menos sobre o que já foi definido e mais sobre como interpretamos o que descobrimos. E para quem acompanha de perto, cada detalhe — desde as órbitas até as luas que o cercam — acrescenta camadas à nossa compreensão do universo, sempre com o olho firme na evidência e no método científico.