Como cautela de aliados dos EUA mostra que não há solução rápida para crise com Irã aberta por Trump
Os líderes europeus hesitam em ajudar Trump a garantir a segurança do Estreito de Ormuz. Mas eles sabem que a inação não é opção.
A tensão na região persiste, e, ao que tudo indica, a cautela entre os parceiros dos Estados Unidos está no centro do jogo. Ao longo dos seus dois mandatos, o presidente norte-americano não tem feito segredo sobre críticas aos aliados da OTAN, e agora volta a colocar a aliança sob os holofotes ao sugerir que deixar de proteger o Estreito de Ormuz seria um golpe para o próprio futuro da aliança. “A Otan foi criada como uma aliança de defesa”, afirmou, em tom de retomar o debate, o ex-chefe do Estado-Maior britânico, o general Nick Carter. “Não foi pensada para que um país possa puxar uma guerra de forma unilateral e obrigar todos a participar”, completou ele. A ironia, aliás, não passou despercebida: vindo de alguém que, pouco tempo antes, havia provocado uma polêmica ao mencionar a Groenlândia — território soberano de outro aliado da Otan, a Dinamarca —, as declarações de Trump soaram ainda mais provocativas.
As reações imediatas não foram tímidas. Um porta-voz do governo alemão deixou claro que uma guerra com o Irã não teria relação direta com a Otan. Já o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, pareceu desdenhar a ideia de que marinhas europeias modestas pudessem ditar o andamento da situação. “Que vale esperar de algumas pocas fragatas europeias quando a Marinha dos EUA, tão poderosa, não pode fazer tudo sozinha?” questionou ele. Esse tipo de posicionamento evidencia uma realidade: esta crise não é simples de enquadrar, e a responsabilidade parece cada vez mais repartida entre Washington e seus aliados europeus.
No centro do debate está a necessidade urgente de encontrar uma solução para o Golfo, porque o bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz — com exceções para navios que transportam petróleo para aliados como China e Índia — tem mantido governos ocidentais correndo atrás de respostas mais duras e coordenadas. A leitura prática é clara: a crise nasceu com a decisão de Trump de levar o tema a sério em campo de batalha, mas hoje o desafio é resolver o impasse sem provocar impactos ainda maiores na economia global. E o que se sabe é que não há saída rápida.
Na prática, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, confirmou durante entrevista coletiva que interlocuções com os EUA e com parceiros europeus e do Golfo estão em curso para desenhar um “plano viável”, mas ainda não chegamos ao estágio de tomada de decisão. O tom é de cautela: conversas continuam, mas a definição não chegou. A leitura é de que todos querem evitar escaladas desastrosas, ao mesmo tempo em que reconhecem que o timing político e militar não se encaixa com soluções imediatas.
Minas no mar? Sim, essa é outra frente. O debate também envolve a possibilidade de uso de minas, drones e outras tecnologias para manter a navegação livre, e isso exige cooperação perto do litoral iraniano. O navio caça-minas HMS Middleton permanece no porto de Portsmouth, na Grã-Bretanha, para manutenção de rotina, deixando a região sem uma presença tradicional de limpeza de minas britânica pela primeira vez em décadas. Em seu lugar, a Marinha Real britânica aposta em drones marítimos desenvolvidos recentemente, capazes de detectar e neutralizar minas sem colocar as tripulações em risco.
A atual realidade tecnológica também pesa. A dragagem de minas, que já foi uma função central para várias marinhas, caiu na sociedade militar como uma prioridade menor ao longo dos anos. O ex-comandante da Marinha Real, Tom Sharpe, alerta que a tecnologia britânica ainda não foi testada em combate, o que adiciona incerteza ao planejamento. Carter lembra que a última grande operação de retirada de minas em alto-mar ocorreu em 1991, no Golfo, e que, desde então, nenhum país investiu na escala necessária com a mesma presteza de antes. De fato, os navios mineiros da classe Avenger da USA Navy, com cascos de madeira para evitar detonadores magnéticos, estão sendo substituídos por navios de combate costeiro da classe Independence, além de uma série de sistemas não tripulados.
Enquanto isso, a ameaça de iranianos não fica apenas no eixo marítimo. A Guarda Revolucionária pode recorrer a barcos rápidos armados, drones navais “suicidas” e mísseis costeiros para interromper rotas comerciais. Fotografias divulgadas pela agência Fars News parecem indicar grandes estoques em túneis subterrâneos, sinalizando preparo prolongado para o momento atual. Há quem afirme que Trump já sinalizou a intenção de manter o estreito aberto mesmo que assim impliquasse ataques à costa iraniana. Enquanto isso, ataques antigos a barcos-lança-minas já foram alvo de ações americanas, mas, no cenário atual, a adesão de aliados para acompanhar tais operações ainda não é uma certeza.
Neste cenário, as dúvidas se acumulam. O ambiente é de incerteza e de muita cautela entre governos que não desejam ver uma escalada descontrolada. Como resultado, os aliados parecem se mirar mutuamente, sabendo que a inação não é uma opção, mas que a atuação conjunta exige termos legais, garantias robustas e um plano bem desenhado. Starmer enfatiza que a solução precisa envolver o maior número possível de parceiros, enquanto o Reino Unido ainda exige garantias concretas antes de qualquer deslocamento para uma missão potencialmente arriscada. E, no momento, esse plano não existe.
De qualquer forma, a leitura final é simples: a crise desencadeada pela tensão no Irã não se resolve de forma rápida. Ainda assim, os olhos de governos, investidores e cidadãos comuns estão voltados para o desenrolar das conversas, que podem definir quem estará disposto a assumir responsabilidades extra para manter as vias de navegação abertas. Enquanto isso, a mensagem que ecoa é clara: a cooperação entre Estados se impõe se quisermos evitar que uma crise regional abale ainda mais a economia global e o dia a dia das pessoas.