Candidatura da terceira via: mito urbano da política

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Candidatura da terceira via: uma ‘lenda urbana’ da política

Nada indica que, pela terceira eleição seguida, aparecerá uma candidatura capaz de ameaçar Lula e Bolsonaro

No cenário político em que o país navega rumo a 2026, o centro parece patinar na tentativa de se consolidar como alternativa viável à polarização entre Lula e Bolsonaro. O centro ainda não encontra um nome com musculatura suficiente para dar a aparência de novidade capaz de romper o duopólio que domina o Brasil há anos. PSDB e MDB, que já foram protagonistas, não entrarão com candidatos próprios à Presidência; a sensação é de que o tempo passou sem que surja uma figura capaz de aglutinar o eleitorado de centro. Por outro lado, o PSD, mesmo com tentativas consistentes de convencer o eleitorado de que é a casa do equilíbrio, ainda não cravou um nome que tenha fôlego para enfrentar a dupla Lula-Bolsonaro, mantendo a cada dia o panorama atual como referência inevitável.

O discurso interno do PSDB aponta para uma leitura simples: é preciso manter o foco em uma agenda de centro que preserve a inflação sob controle, dialogue com reformas estruturais sem radicalizar e, acima de tudo, fuja de qualquer tom que possa soar como antagonismo aos extremos. Em resumo, a ideia é demonstrar que o centro pode ser capaz de unir parte da sociedade sem abrir mão de uma responsabilidade de governo. Enquanto isso, o MDB, com raízes em governos que marcaram época, não planeja lançar candidatura ao Planalto nesta rodada. A sigla prefere manter a estratégia de atuação focada na Câmara dos Deputados, onde o controle das disputas internas e, principalmente, a gestão dos recursos dos fundos eleitoral e partidário se revelam decisivos para moldar cenários futuros.

No jogo de bastidores, o PSD chegou a articular a possibilidade de ter três governadores como presidenciáveis, alimentando a expectativa de uma candidatura de centro que sobressaísse diante de Lula e Bolsonaro. Contudo, o desfecho não foi favorável: Ratinho Júnior, do Paraná, recuou na hora H, levando consigo a chance de uma alternativa concreta. Com isso, a legenda atravessa o momento sem um nome que possa converter o espaço político em votos expressivos, e o sonho de uma candidatura alternativa volta à estaca zero. Embora haja quem ainda veja a chance de lançar os nomes do governador Ronaldo Caiado (Goiás) ou do governador Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), a verdade é que nenhum deles foi secretamente aprovado como opção preferencial por Gilberto Kassab, o motor estratégico da sigla.

Essa dificuldade ganha fôlego quando se olha o retrato que vem das pesquisas. Na última leitura Atlas em parceria com a Bloomberg, Caiado aparece com menos de 4% e Leite fica pouco acima de 1%. Os números são um retrato claro da assimetria entre o que se deseja ver e o que de fato existe em campo: a terceira via ainda não conseguiu encontrar um voto cativo capaz de romper a habitual polarização. A leitura de que o centro ainda não formou uma frente coesa se reforça à medida que os estrategistas ressaltam que, para avançar, é indispensável ter voto consistente — algo que tem faltado historicamente nessa trajetória.

Na prática, o desafio de articular uma candidatura de centro não é novo. A história recente aponta para combinações com resultados decepcionantes quando se testa a ideia de uma terceira via. Em 2018, Ciro Gomes (então no PDT) chegou a superar a casa de dois dígitos no primeiro turno, mas ficou no pelotão intermediário, atrás de Haddad e Bolsonaro. Em 2022, a tentativa do MDB com Simone Tebet terminou em terceiro lugar, com apenas 4,16% dos votos, e o mesmo Ciro Gomes ficou em apenas 3,04%. Desde então, o discurso de uma continuidade da polarização ganhou consistência, enquanto a esperança de uma potência de centro que pudesse governar com maior apoio parece ter ficado no caminho.

Essa repetição de cenário acende a pergunta: haverá de fato uma saída de centro capaz de transformar a leitura do eleitor em uma virada de jogo? No fim das contas, a leitura predominante entre analistas é de que não há indícios de que a chamada terceira via vá se tornar um protagonista capaz de romper a dicotomia, pelo menos não neste ciclo. Enquanto o eleitor tenta entender o que está em jogo além da briga entre Lula e Bolsonaro, o cenário político parece manter o status quo, com prazos, alianças e cálculos que ainda não convertem em uma candidatura pronta para o Palácio do Planalto.

Para quem acompanha o dia a dia da política, a constatação é simples: a ideia de uma alternativa de centro forte, capaz de atrair votos de diferentes parcelas da sociedade, permanece mais como intenção do que como realidade. E, no plano prático, a ausência de uma candidatura sólida tende a manter o foco da disputa em torno da polarização já consolidada, com poucas chances de surpresas significativas no horizonte próximo. No fim das contas, o leitor segue diante de uma pergunta antiga: o que é necessário para que alguém consiga romper esse circuito? A resposta, por ora, parece depender de uma conjunção de fatores que ainda não se alinharam.

Publicidades e ecos de cenário à parte, o panorama atual reforça que, mesmo com o desejo de ver uma nova formação política, as chances de uma terceira via consolidada vão exigir mais do que anúncios e promessas — vão exigir voto, liderança reconhecível e uma pauta capaz de atrair desde o trabalhador urbano até o eleitor que busca equilíbrio fiscal e reformas estruturais.

  • Caiado — desempenho estimado < 4%
  • Eduardo Leite — desempenho estimado around 1%

Enquanto isso, o que se sabe é que o caminho para uma alternativa de centro continua tortuoso, com o tempo correndo e o eleitor observando, com expectativa, quem finalmente oferecerá uma proposta capaz de romper a velha lógica da disputa entre Lula e Bolsonaro. Será que a chamada terceira via, tão debatida, terá fôlego suficiente para aparecer como protagonista em 2026? No dia a dia, a resposta ainda parece distante, e a sensação é de que, até lá, a polarização continua a ditar os passos da política nacional.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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