Outras riquezas naturais da Venezuela consideradas críticas pelos EUA

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As outras riquezas naturais da Venezuela que são ‘críticas’ para os EUA

Não é só de petróleo que consistem as riquezas minerais da Venezuela. O subsolo do país guarda grandes depósitos de ferro, bauxita e ouro, além de coltan e terras raras, fundamentais para a indústria de tecnologia.

Ao longo de mais de um século, a Venezuela foi sinônimo de petróleo e produção energética. Hoje, porém, o que se desenha nos mapas é uma geografia mineral complexa: sob a superfície do território repousam riquezas que vão muito além do hidrocarboneto tradicional. O solo venezuelano abriga cerca de 300 bilhões de barris de petróleo, principalmente na forma de extrapesado, números que superam os registrados pela Arábia Saudita, historicamente grande exportadora do combustível. Em termos de magnitude, não é exagero dizer que o petróleo continua sendo o grande pilar, mas o que está escondido por trás dele revela um painel de recursos que pode transformar cenários econômicos se houver quadro institucional estável para explorá-los.

Esse cenário não se resume a números de reservas. Ao lado do petróleo, surgem jazidas significativas de outros minerais. Ferro, bauxita e ouro aparecem como foco inicial de investimento e exploração, enquanto especialistas mencionam a presença de diamantes, coltan, níquel, cobre e até carvão em diferentes regiões do país. A ideia é que, segundo autoridades locais, o país detenha pelo menos 50 minerais com potencial de exploração comercial, consolidando uma matriz que pode complementar a renda nacional diante de oscilações do petróleo.

Do ponto de vista técnico, o CIIP — órgão ligado à vice-presidência — aponta números impressionantes: a Venezuela abriga a oitava maior reserva mundial de ferro, com 14,721 bilhões de toneladas. Além disso, existem na nação mais de 321 milhões de toneladas de bauxita, matéria-prima para o alumínio. Já no que diz respeito ao ouro, o intervalo estimado fica entre 2,2 mil e 8 mil toneladas, o que o colocaria entre as grandes reservas globais, ainda que muitos especialistas alertem que esses dados não passaram por verificação independente. Em resumo: o mapa mineral do país é extenso, mas falta precisão e transparência em várias frentes.

Grande parte dessas jazidas está concentrada no sudeste, na região de Guayana — que envolve os estados Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro —, onde a história de mineração já acompanha o processo de industrialização há décadas. Em outras áreas, como a península de La Guajira, no Sudoeste, surgem depósitos de carvão; o cobre é encontrado distribuído entre o centro-norte e o nordeste. E, nos últimos anos, as autoridades passaram a falar de reservas de terras raras e do chamado ouro azul, o coltan, que é fundamental para componentes eletrônicos e tecnologia de ponta.

As terras raras, em especial, chamaram a atenção por seu papel estratégico. Um levantamento aeromagnético feito em 1971 já indicava depósitos entre Bolívar e Amazonas, e o nióbio, além do tântalo associados, aparecem em relatórios de instituições que acompanharam a evolução tecnológica global. No entanto, a falta de dados confiáveis, aliada a zonas de difícil acesso e a ambientes cobertos por vegetação densa, dificulta estimativas precisas. Ainda assim, especialistas concordam que esses minerais devem ganhar importância crescente, especialmente pela demanda mundial em baterias, telas, ímãs e outros componentes tecnológicos.

O que também começa a se desenhar é uma estratégia de exploração que envolve o chamado Arco Mineiro do Orinoco. Lançado em 2016, o projeto pretende mapear mais de 110 mil quilômetros quadrados da região para aproveitar o ouro e, no conjunto, explorar minerais como coltan, diamantes e cobre. O território coberto equivale a cerca de 12% do território venezuelano. O objetivo era mobilizar até 150 empresas para desenvolver a mineração na área, mas a prática do dia a dia derrubou expectativas: incerteza jurídica, crise política e sanções internacionais atrapalharam os planos e atrasaram investimentos.

No caminho, o setor de mineração passou por desapropriações durante o governo anterior, com desdobramentos legais ainda em litígio. O resultado é uma atividade que cresceu de forma irregular, com relatos de envolve­mento de organizações criminosas que, segundo especialistas, avançaram na região ao se associar a setores ligados a estruturas militares. Mesmo com a gravidade das denúncias, autoridades venezuelanas asseguram que as irregularidades são casos isolados, e que os responsáveis são punidos. O que permanece é um quadro de fiscalização ainda em construção, com direitos de exploração que dependem de regras claras para investidores privados, algo que o governo vem prometendo alinhar.

Quanto à dinâmica econômica do ouro, em especial, há números que chamam atenção: estima-se que a extração anual fique entre 40 a 50 toneladas, equivalentes a algo entre US$ 2,7 bilhões e US$ 3,3 bilhões, mas apenas uma parcela dos ganhos retorna aos cofres públicos. Organizações de transparência já apontaram números sobre a distribuição de royalties e encargos de exportação, sugerindo que grandes parcelas sejam capturadas por redes criminosas ou por alianças políticas que operam nos bastidores. Em paralelo, o peso do ouro no orçamento externo e em relações diplomáticas seja tema de debates entre autoridades públicas e setores da sociedade civil.

Além do petróleo, o interesse dos Estados Unidos nos minerais venezuelanos está cada vez mais explícito. O discurso oficial ressalta a ambição de acesso total a recursos energéticos e minerais para reconstruir o país, alinhando-se a uma lógica de diversificação de cadeia de suprimentos. O tom entre analistas é de cautela: o recurso natural é uma carta poderosa, mas a viabilidade de transformar isso em produção está correlacionada à estabilidade institucional, à segurança jurídica e a compromissos de responsabilidade ambiental. Nesse contexto, o ouro aparece como peça-chave de um novo equilíbrio geopolítico, justamente quando o país também discute abranger o investimento privado para impulsionar a mineração.

Do lado técnico, a posição dos EUA como ator interessado não se restringe ao petróleo; a ideia de “minérios críticos” ganhou fôlego com a inclusão de bauxita, níquel, cobre e carvão na lista de minerais estratégicos, delineada pelo USGS em novembro de 2025. A leitura é simples para quem observa a indústria: os minerais críticos sustentam setores que valem trilhões de dólares, e a dependência de importações coloca cadeias produtivas vulneráveis em risco. Acrescente-se que o próprio governo venezuelano sinaliza disposição para abrir jazidas minerárias à iniciativa privada, tentando, assim, atrair capital estrangeiro e melhorar a infraestrutura necessária para navegar nesse complexo ecossistema de recursos.

Em meio a esse cenário, muitos especialistas destacam a necessidade de um planejamento cuidadoso. “A riqueza está na região de Cerro Impacto; porém, sem salvaguardas ambientais e sem uma governança estável, o risco de danos ecológicos é real”, comenta um geólogo consultado pela análise. Ainda assim, a expectativa é de que o minério de ouro, o coltan e as terras raras possam, a médio prazo, redefinir a relação entre o país e seus parceiros internacionais, desde que haja, de fato, um arcabouço jurídico que assegure regras claras e respeito às comunidades locais e ao meio ambiente. No fim das contas, o que se coloca em jogo é a capacidade da Venezuela de converter riqueza natural em desenvolvimento sustentável, sem abrir mão da soberania e da responsabilidade social.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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