Aliados de Maduro no círculo de poder da Venezuela sob a mira de Trump

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Os aliados de Maduro que integram seu círculo íntimo de poder na Venezuela que estão na mira de Trump

Ao longo da última década, alguns dirigentes do chavismo se tornaram peças-chave que moldam o governo de Nicolás Maduro. A BBC detalha quem são eles e por que acumularam tanto poder no país.

No auge da crise de legitimidade que a Venezuela enfrenta, Maduro conseguiu manter-se no comando cercado por uma mão‑de‑ferro de aliados próximos. Alguns deles ocupam cargos estratégicos e atuam com influência própria nas decisões, não apenas como asseclas, o que explica por que o tema é observado com atenção pelo eixo político internacional. Além disso, Washington e seus aliados passaram a mirar diretamente esse núcleo, elevando sanções, monitorando movimentos e pressionando por mudanças no cenário interno.

Cilia Flores, muitas vezes descrita pela imprensa como a “primeira-combatente” do chavismo, tornou-se mais que uma figura simbólica. Seu protagonismo começou a ganhar contornos reais quando Maduro a escolheu para ocupar posições de peso após o retorno vitorioso de Chávez. Advogada com especialização em Direito Penal e Trabalhista, Flores construiu uma trajetória que começou na defesa jurídica dos militares ligados ao falecido quarteirão golpista de 1992. Desde 1998, sua carreira política foi embalando sua ascensão: deputada, presidenta da Assembleia Nacional e, em 2012, Procuradora-Geral da República. Mesmo diante de sanções dos Estados Unidos e de sanções adicionais a membros de sua família, incluindo três filhos e um sobrinho, Flores demonstra manter autocrítica distância entre o cargo público e o controle político do governo. Muitos analistas a veem cada vez mais como alguém com autonomia para influenciar políticas—e, para alguns, como a força que sustenta a cadeira presidencial.

Diosdado Cabello aparece como a outra face do poder interno. Considerado o “número 2” do chavismo por décadas, ele sempre foi visto como um polêmico artífice de estratégias que mesclam disciplina ideológica com competência de barganha dentro do tabuleiro político. Embora a imagem pública tenha passado por oscilações, Cabello manteve-se ligado às decisões centrais: ministérios, controladoria de órgãos e uma presença constante na estrutura do PSUV como primeiro vice‑presidente. Seu histórico inclui desde participação no sangrado golpe de 1992 até ocupações em cargos-chave, como ministro do Interior e da Justiça. Além disso, ele apresenta um programa semanal no veículos estatal, onde defende posições e ataca adversários. Sanções dos EUA, vinculadas a acusações de narcotráfico, lavagem de dinheiro e corrupção, acompanharam Cabello ao longo dos anos, com recompensas que chegaram a cifras expressivas. No fundo, a combinação de lealdade aos círculos de poder e a habilidade de articular coalizões o tornam uma figura difícil de contornar dentro do chavismo.

Vladimir Padrino López personifica a influência duradoura das Forças Armadas na governação. Nomeado presidente da Defesa em 2013 e ministro da Defesa desde outubro de 2014, ele representa uma continuidade que tem permitido ao governo manter o controle sobre o aparato militar por mais de uma década. O que chama a atenção é que, desde o golpe de 2002, Padrino tem sido essencial para abafar fracturas internas dentro das Forças Armadas, promovendo uma gestão que evita confrontos abertos e busca repartição de poder com setores distintos do setor militar. A presença de Camimpeg, a empresa militar criada em 2016 para atividades ligadas ao petróleo, bem como a concessão de controle de áreas estratégicamente importantes como o Arco Mineiro, reforçam como o poder militar está entrelaçado ao cotidiano político. “As Forças Armadas, hoje, são Padrino López. E Padrino López é Maduro”, resume-se na avaliação de analistas, que veem nele o equilíbrio entre narrações políticas e interesses institucionais.

Jorge Rodríguez tornou-se uma figura reconhecida no cenário político venezuelano já em 2003, quando atuou como reitor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Na prática, ele foi um dos pilares que ajudaram a consolidar a vitória de Chávez na conturbada etapa do referendo que abriu caminho para o fortalecimento das políticas sociais chavistas. Ao longo dos anos, Rodríguez assumiu funções relevantes, como ministro das Comunicações e, mais recentemente, presidente da Assembleia Nacional. Médico psiquiatra de formação, ele traz uma visão estratégica ao chavismo, atuando como articulador político de Maduro e liderando campanhas que contribuíram para manter a unidade do bloco governista. Em análises de especialistas, a percepção é de que Jorge Rodríguez não é apenas o braço direito do presidente, mas alguém com aspirações de futuro dentro do poder, sempre próximo de que o chavismo encontre uma direção estável.

Delcy Rodríguez completa o quarteto entre os nomes que compõem o núcleo de poder de Maduro e que exerce papel decisivo tanto no interior quanto na arena internacional. Ela acumula hoje o cargo de vice-presidente executiva, cargo que já ocupou ao longo de mais fases de governo, incluindo pastas como Ministra das Relações Exteriores, das Comunicações e da Economia. Delcy também atua como Ministra de Petróleo, posição que a coloca em linha direta com o manejo estratégico dos recursos energéticos nacionais. Sua trajetória inclui momentos de alto impacto, como disputas diplomáticas com blocos regionais e controvérsias que ficaram conhecidas como Delcygate. Suas sanções, tanto pela União Europeia quanto pelos Estados Unidos, reforçam a percepção de que Delcy é uma figura que opera entre o operacional e o político, capaz de enfrentar dificuldades de frente e manter o funcionamento do governo em meio às pressões internacionais.

Esses nomes representam, no dia a dia, o que fica para trás de uma narrativa que mistura militância, governança e interesses. Além das funções públicas, eles aparecem como peças centrais que ajudam a sustentar o aparato do Estado, ao mesmo tempo em que se tornam alvos de pressões externas. O que isso muda na prática para a vida de quem vive na Venezuela e para quem acompanha o cenário regional? No fim das contas, o equilíbrio entre a lealdade a Maduro, a capacidade de negociação e o poder institucional que cada um carrega é o que determina a margem de manobra do governo diante de uma oposição cada vez mais determinada e de um cenário internacional que não dá sinais de facilidades.

  • Cilia Flores — liderança política com trajetória no chavismo e foco em tomada de decisões; alvo de sanções internacionais e de fortemente influente no governo.
  • Diosdado Cabello — figura central do partido, articulador de políticas e voz pública, com histórico de sanções e recompensa associadas.
  • Vladimir Padrino López — pilar militar, mantendo o Ministério da Defesa estável e influente por mais de uma década.
  • Jorge Rodríguez — estrategista político, articulador de campanhas e provável elo entre o governo e o processo eleitoral.
  • Delcy Rodríguez — operação direta sobre áreas-chave como Petróleo e Relações Exteriores, com atuação política contundente e histórico de sanções.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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