Não foi Salazar que inventou os Descobrimentos
Não será já altura da esquerda abandonar as suas visões pueris sobre a história colonial do país e de também ela se orgulhar do que, no nosso passado, é óbvio motivo de orgulho?
Nos últimos tempos, temos visto uma campanha firme contra a expressão Descobrimentos, palavra que carrega, para muitos, a memória da época em que navegadores portugueses cruzaram oceanos, abrindo rotas que conectaram continentes e povos até então desconhecidos para parte do Velho Mundo. Este debate não gira apenas em torno da terminologia, mas de como enquadramos a nossa história: alguns afirmam que as terras já eram habitadas, que o termo deveria ser repensado para evitar ahistorias. Outros defendem que o vocabulário correto é “invasão”, para enfatizar episódios de violência e apropriação. No dia a dia, a leitura que propomos é outra: preservar a ideia de uma trajetória geográfica e cultural que moldou identidades e caminhos entre continentes. Além disso, é preciso reconhecer que cada tribo de historiadores pode escolher um ponto de vista, sem eliminar a riqueza de quem carrega a memória de Portugal no noroeste da Península Ibérica.
Para quem se reconhece nessa matriz cultural, marcada por raízes greco-romanas e pelo cristianismo, a História não é apenas uma coleção de datas; é uma narrativa construída com documentos, relatos e percepções de época. E, no nosso caso, a leitura de que emergiu a abertura de rotas marítimas acabou se traduzindo, acima de tudo, em descobertas geográficas, trocas étnicas e intercâmbios culturais que atravessaram oceanos. É natural que se sinta orgulho disso, especialmente por fazer parte de uma tradição que viu os navegadores saírem de um extremo da Europa para tocar terras distantes. Se fossemos de outra região ou de outra tradição, claro que o veríamos de modo diferente; mas aqui é assim que seguimos, com a nossa própria lente.
Não é novidade que certos argumentos tentem associar a palavra Descobrimentos a épocas políticas específicas, como o Estado Novo, para insinuar uma proximidade entre o termo e regimes autoritários. O que muitos chamam de manobra é, na verdade, uma leitura estreita. O vocabulário de descobertas, de descobrimentos, de navegar e de explorar já fazia parte da prática da língua portuguesa há muito tempo — antes mesmo de Salazar nascer. Em termos simples: o debate não é sobre uma figura única, mas sobre uma prática linguística que, como muitas outras, persiste porque já existe há gerações.
Para ilustrar esse ponto, vale recordar um episódio histórico de 1836: um decreto então publicado regulou o tráfico de escravos a partir das possessões portuguesas na África e, no preâmbulo, apareceu uma linguagem grandiosa sobre reis, navegadores e Quinas que, naquela época, descrevia o papel civilizador da Portugalidade. Não cabem hereges interpretações que reduzam tudo a uma agenda modernista; o texto evidencia uma linguagem que já circulava entre políticas liberais e absolutistas, muito anterior a qualquer leitura sobre Salazar. A ideia central é simples: o termo “Descobrimentos” pertence a uma tradição de discurso firme na cultura portuguesa, com um lastro histórico que não pode ser apagado por filiações partidárias de hoje.
Nesse sentido, não há razão para abandonar o termo com o objetivo de agradar grupos ou correntes políticas específicas. O peso histórico dele transcende governos e regimes, mesmo que, no presente, algumas vozes tentem reduzir o significado a uma crônica de fascínio pela nostalgia ou pela condenação moral. O que fica claro é que a palavra carrega uma memória mais ampla, que envolve ciência, navegação, comércio, religião e intercâmbio entre povos, e que merece ser debatida de forma madura e aberta.
Três meses e meio atrás, em 12 de dezembro de 2025, o arqueólogo Alexandre Monteiro publicou no Observador um artigo que defendia a criação de um Museu dos Descobrimentos, com vocação crítica, científica e inclusiva, alinhada à dimensão global da nossa história. A partir dessa ideia, Monteiro organizou uma petição dirigida à Assembleia da República para estimular uma discussão pública sobre o tema. Embora a petição tenha reunido, até agora, cerca de 1600 assinaturas, ela revela o interesse de parte da população em enxergar o passado com mais nuance e responsabilidade. O recado é claro: o debate precisa ganhar fôlego e transformar-se em projeto de país, não em disputa de ideias entre nichos ideológicos.
Não faltam exemplos de tensões em torno do assunto. Em 2021, Fausto, um homem de esquerda, tentou oferecer uma leitura mais matizada da epopeia das Descobertas, admitindo que a saída de Portugal para o mundo no século XV teve seu valor — e que o estuário do Tejo testemunhou a partida de um povo inteiro. Contudo, essa posição incomodou parte da esquerda que, ainda hoje, tem uma relação complexa com símbolos de memória nacional. Inclusive Ascenso Simões comentou que há sempre um “saudosista” no coração de quem experimenta mudanças radicais. Esses episódios mostram que o tema não é apenas acadêmico: ele chega à praça pública, provoca debates e desafia a forma como pensamos quem somos e de onde viemos.
É legítimo defender um futuro que reconheça o passado sem apagar seus contornos. Descobrimentos, História, Cultura — são palavras que merecem um tratamento que vá além de polarizações. A ideia de um museu que converta esse passado em conhecimento crítico, aberto ao mundo e às vozes que dele emanaram, pode ser um marco para Portugal e para o turismo cultural que busca qualidade, perspectiva histórica e responsabilidade educativa. No fim das contas, a pergunta não é apenas se existiram colonizações, guerras ou trocas, mas como contamos tudo isso, com a devida complexidade, para quem lê hoje, sem simplificações nem rancor.
Convido o leitor a acompanhar o desdobramento desse debate com curiosidade, senso crítico e vontade de entender que a nossa memória nacional não é estanque. Ela pode — e deve — evoluir com novas leituras, novas fontes e novos contextos. Afinal, o que está em jogo não é apenas uma nomenclatura, mas a forma como traduzimos a nossa relação com o mundo, a nossa identidade e o orgulho que sentimos por ter, em algum momento, feito parte de uma grande aventura marítima that moldou o planeta.
Descubra mais, reflita sobre o que isso muda no dia a dia e participe do círculo de diálogo que envolve historiadores, educadores e cidadãos interessados em construir uma memória mais rica e mais responsável.
- Mantém-se a leitura histórica como base para entender o passado sem anular detalhes complexos.
- Restaura-se a memória coletiva com humildade, reconhecendo as múltiplas perspectivas que compõem a nossa história.
- Propõe-se um museu crítico que exponha dados, fontes e interpretações para o público, sem omissões.