Liderada por Boulos, ala do PSOL enfrenta resistência para avançar federação com PT
Trata-se de parte importante da estratégia de Lula na campanha à reeleição
Guilherme Boulos, hoje considerado o rosto mais destacado de um setor do PSOL, conduz uma aposta ousada: aproximar o partido do PT por meio de uma federação. No entanto, esse movimento encontra forte resistência interna e acende um debate sobre autonomia, identidade e o custo de uma aliança que pode redefinir a esquerda no Brasil.
Para entender o cenário, vale lembrar que uma federação, criada pela legislação de 2021, exige que os partidos mantenham uma aliança estável por pelo menos quatro anos, apoiando os mesmos candidatos em todo o território nacional. É justamente esse instrumento que Lula quer explorar para consolidar uma frente mais coesa contra o bolsonarismo. Em 2022, o PT já agregou PV e PCdoB nesse formato; a nova ideia seria incluir também o PSOL, que já trilha caminho com a Rede em outra federação.
Dentro do PSOL, surgiram vozes que defendem a ideia como forma de enfrentar temas prioritários, entre eles o fim da escala de trabalho 6×1. Nomes que se destacam nessa linha foram Erika Hilton, articuladora importante para pautas trabalhistas, e Sonia Guajajara. Em documento público, assinado por esses apoiadores, aparecem ainda argumentos como a dificuldade de superar a cláusula de barreira — um desafio que afeta o acesso a fundos eleitorais e ao tempo de TV — como motivos para defender a federação. Mas a posição não é unânime.
Entre quem discorda, estão principalmente dois dirigentes do PSOL-Rede: Paula Coradi, presidente do PSOL, e Heloísa Helena, que comanda a Rede. Durante a semana, deputadas e deputados como Sâmia Bomfim, Glauber Braga e Fernanda Melchionna publicaram vídeos valorizando a ressalva: a federação poderia transformar a sigla em um simples puxadinho do PT, minando a independência no Congresso e forçando coalizões com forças de centro e direita. Para Braga, por exemplo, haveria o risco de o PSOL ter de apoiar o candidato de uma aliança grande no primeiro turno, citando até mesmo o caso do Rio de Janeiro, onde o reduto da sigla poderia perder espaço para esse modelo.
Para Mayra Goulart, cientista política que liderou estudos sobre federações, há vantagens e desvantagens. Segundo ela, somar forças pode trazer ganhos, mas, no dia a dia, partidos podem ver sua representação reduzida ao selar acordos com siglas maiores. Ela aponta ainda o desafio adicional para o PSOL: manter a sua autonomia crítica dentro de uma federação com o PT.
O embate, que se desenha para o próximo sábado, ocorre justamente durante uma reunião do diretório nacional do PSOL. A expectativa é de que uma boa parte dos filiados rejeite a proposta — estima-se que cerca de 75% possa se posicionar contra. A Rede já sinalizou que não seguirá os psolistas se a decisão for pela federação com o PT. Paulo Lamac, presidente da Rede, afirma que a federação pode oferecer uma alternativa de esquerda, sem transformar o bloco numa força que pretenda hegemonizar a esquerda inteira.
Sâmia Bomfim, por sua vez, demonstra desconfiança em relação a quem quer “amarrrar” ainda mais o PSOL ao PT. Em suas palavras, há quem veja nisso uma forma de aproximar o partido de Lula, o que muitos interpretam como uma etapa para construir uma linha sucessória mais próxima do atual governo. E há o temor de que os derrotados permaneçam no PSOL apenas para manter posições, dificultando a renovação interna.
Historicamente, a esquerda brasileira teve momentos de tensão que lembram o próprio espírito de uma federação: a frase que ficou marcada durante a ditadura, de que a esquerda só se unia em situações extremas, ecoa como referência para entender a resistência atual. O PSOL, surgido de uma dissidência com o PT já no primeiro governo de Lula, sempre navegou em mares agitadíssimos: entre manter alianças diversas e buscar manter uma identidade crítica frente ao PT, especialmente no Congresso. Depois de apoiar Lula em 2022, o PSOL experimentou novos embates internos sobre participação no governo e, agora, se depara com o desafio de decidir se uma federação com o PT seria um passo adiante ou um risco de perder parte da autonomia conquistada ao longo dos anos.
No fim das contas, o tema não é apenas sobre alianças partidárias. Trata-se de entender como a esquerda pode se manter relevante, coesa e, ao mesmo tempo, fiel a suas bandeiras históricas. O desfecho depende de uma leitura cuidadosa de quem pode abrir mão de espaço para ampliar votações e de quem está disposto a defender, com firmeza, a própria linha programática. Para o leitor comum, fica a pergunta: o que essa coalizão pode significar na prática para as políticas públicas e para a vida cotidiana?