É verdade que a criminalidade nos EUA está no nível mais baixo da história, como diz Trump?
A BBC verificou as alegações do governo de que índices de criminalidade e homicídios estariam nos menores níveis há 125 anos, e ouviu especialistas para entender o que está por trás dessa queda
O presidente dos Estados Unidos afirma, com frequência, que a criminalidade está em seu patamar mais baixo em mais de um século. Além disso, a Casa Branca atribui esse movimento a um “compromisso inabalável com a restauração da lei e da ordem”. Do outra lado, especialistas costumam dizer que a história é mais complexa, já que o debate envolve várias métricas, métodos de cálculo e lacunas de dados. Em linhas gerais, o que temos até agora é uma queda consistente de certos crimes violentos desde a última década, além de observações de que o quadro pode variar conforme a definição de crime analisada.
O FBI é o principal provedor de estatísticas criminais nos EUA. Ele não mede a criminalidade como um todo, mas contabiliza crimes violentos relatados à polícia. Entre eles estão homicídios (que englobam assassinato e homicídio culposo), estupro, roubo e agressão. Para 2024, a taxa de crimes violentos ficou em 348,6 por 100 mil habitantes, o menor registro desde 1969, segundo a análise de dados do FBI feita por especialistas em criminalidade. Vale mencionar que essa comparação usa uma definição de estupro antiga (revista pelo FBI em 2013) para buscar uma consistência histórica.
Ainda assim, há limites na leitura puramente anual. O FBI ainda não publicou os dados nacionais de crimes violentos para todo o ano de 2025, mas o último panorama disponível aponta uma queda de ~10% no total de crimes violentos até outubro de 2025, repetindo uma trajetória de baixa observada também em 2023 e 2024. O analista Jeff Asher projeta que, em 2025, os EUA devem ter a menor taxa de crimes contra o patrimônio já registrada e, provavelmente, a menor taxa de crimes violentos desde aproximadamente 1968. Porém, como ele mesmo ressalta, o FBI só começou a publicar dados nacionais de homicídios de forma consistente a partir de 1960 (com dados amplos a partir de 1930), o que torna difícil comprovar a afirmação de que o país está no patamar de 125 anos naquele indicador específico.
Mas e os homicídios? A dúvida segue. Uma leitura cautelosa aponta que a redução se estende a várias medidas, mas a leitura sobre o que isso completa em termos de “menor nível em 125 anos” depende de como se olham os dados. O cenário é enriquecido por estudos de institutos independentes que cruzam dados de saúde pública com registros policiais para projetar tendências de longo prazo, sempre com ressalvas sobre as fontes e metodologias.
Na prática, o que se sabe é que, até o momento, há indícios de que esse recuo seja parte de uma tendência que começou após o pico observado por volta de 2020, potencialmente acentuado nos anos seguintes. Pesquisadores apontam que o foco renovado em políticas de prevenção, bem como estratégias de policiamento direcionadas a áreas e perfis de risco, têm contribuído para reduzir os crimes violentos. Além disso, há quem atribua parte da melhora a mudanças sociais pós-pandemia: menor estresse emocional e econômico, retorno de rotinas, e até mudanças no comportamento de consumo de álcool, que pode reduzir incidentes em bares e violência doméstica.
Por outro lado, especialistas lembram que não há consenso definitivo sobre o que realmente impulsiona a queda. Adam Gelb, presidente do Council on Criminal Justice (CCJ), admite a complexidade de desvendar os motores por trás da tendência, destacando que fatores sociais, institucionais e econômicos caminham juntos. Entre as hipóteses citadas, ele aponta a recuperação de escolas, locais de trabalho, programas sociais e instituições cívicas após a interrupção da pandemia, que ajudariam a reduzir tensões diárias. Outro indício apontado por Gelb é a redução no consumo de álcool, que poderia estar relacionado a menos brigas em estabelecimentos e menos agressões domésticas.
Além dos Estados Unidos, a leitura de tendências é de que muitos países ocidentais também registraram quedas em crimes violentos, ainda que com bases diferentes. Em análise recente, a polícia da Inglaterra e do País de Gales reportou, até setembro de 2025, o menor número de homicídios desde que os registros comparáveis começaram, em 2003. Mesmo assim, especialistas ressaltam que, de modo geral, as nações desenvolvidas costumam ter taxas de criminalidade mais baixas do que os EUA, o que não invalida a percepção de queda, mas exige cautela ao comparar contextos.
Para esclarecer os números, uma pesquisa da Associação de Chefes de Polícia das Grandes Cidades envolveu 67 departamentos de polícia de alta complexidade. O levantamento apontou uma queda preliminar de 19% nos homicídios relatados entre janeiro e setembro do ano anterior, em comparação com o mesmo período de 2023. Embora alentadora, essa estatística precisa ser encarada com prudência, já que se trata de uma amostra específica e de um recorte temporal ainda provisório.
No fim das contas, a discussão sobre se a criminalidade está no menor nível de todos os tempos envolve várias camadas. O dado de 2024 — e o recorte de 2025 — ajudam a entender tendências, mas não selam um veredito definitivo sobre o patamar histórico de 125 anos para todos os indicadores. O que fica claro para o leitor comum é que as cidades continuam a lidar com o desafio de reduzir crimes violentos, mantendo o foco em prevenção, policiamento dirigido e apoio social, com atenção aos sinais de mudanças sociais que podem reforçar ou frear essa trajetória.