Trump diz ‘não ter visto’ vídeo racista postado em sua conta que mostra Obamas como macacos
O presidente dos EUA afirma que “não cometeu nenhum erro”, acrescentando que só havia visto o início do vídeo antes dele ter sido publicado.
No centro de uma nova controvérsia envolvendo memes e política, o tema voltou a ganhar as manchetes após surgir nas redes um clipe compartilhado pela conta Truth Social de Donald Trump. O material, de 62 segundos, mostrava Barack e Michelle Obama com traços caricatos que os retratavam como macacos, acompanhado pela trilha The Lion Sleeps Tonight. No final, o vídeo fazia alegações sobre fraude eleitoral em 2020 e foi removido pouco depois da repercussão.
Em entrevista a repórteres na sexta-feira (6/2), Trump afirmou que “eu não cometi um erro” quando questionado se pretendia pedir desculpas. Segundo ele, assistiu apenas ao começo do vídeo antes que alguém de sua equipe o postasse e ele não sabia que continha aquela representação dos Obamas.
O episódio não foi visto apenas como uma falha de conteúdo, e sim como uma reação de um setor do próprio partido. O senador Tim Scott, aliado de Trump, descreveu o caso como “a coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca”, destacando o peso do episódio para o ambiente político.
Inicialmente, a Casa Branca defendeu o vídeo como um “vídeo de meme da internet” e pediu que críticos parassem com a “falsa indignação”. No entanto, diante de fortes críticas, inclusive de outros republicanos, a postagem foi retirada da conta Truth Social. Um funcionário da Casa Branca disse que a publicação foi feita “erroneamente” por um integrante da equipe.
Segundo apurações, o material parece ter sido extraído de uma publicação do criador de memes conservador Xerias, publicada em outubro. Além de Obama, o vídeo trazia caricaturas de outros democratas — como AOC, Zohran Mamdani e Hillary Clinton — e revisava a imagem de Joe Biden, retratado como macaco comendo uma banana.
As Obamas ainda não se pronunciaram sobre o caso. O vídeo foi um dos diversos conteúdos publicados na noite pela conta de Trump, em meio a outros temas polêmicos. Trump disse que analisa milhares de coisas e que, após ver apenas parte do material, o entregou a pessoas que costumam assistir ao vídeo na íntegra. Mesmo que tenha justamente aceitado a mensagem sobre fraude eleitoral, ele admitiu que, se a equipe dele tivesse assistido ao vídeo completo, provavelmente teriam removido o conteúdo.
As reações não se limitaram a críticos de oposição. Tim Scott voltou a falar sobre o assunto; Mike Lawler, deputado de Nova York, classificou a publicação como “errada e ofensiva” e pediu a retirada imediata com pedido de desculpas. O senador John Curtis (Utah) também manifestou repulsa pública, dizendo que o material era “flagrantemente racista e indesculpável”.
Outros gestores republicanos também se posicionaram. Segundo a imprensa, o representante da Flórida, Byron Donalds, que já apoiou Trump, ligou para a Casa Branca para questionar a origem da postagem, tendo sido informado de que foi obra de um funcionário que “decepcionou o presidente”. A imprensa solicitou esclarecimentos sobre quantas pessoas têm acesso à conta presidencial e qual é o processo de aprovação das postagens.
Entre as vozes críticas, estiveram também nomes como Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, que disse em nota que o vídeo retrata Trump de forma viral como líder da selva e acusações de que os democratas seriam meras caricaturas, pedindo que se passe a notícia com foco no que realmente importa ao público americano.
Em meio a revolta de várias figuras públicas, o NAACP reagiu com veemência: Derrick Johnson chamou o clipe de “nojento e absolutamente desprezível” e afirmou que Trump estaria tentando desviar a atenção de posicionamentos legais envolvendo o caso Epstein e de uma economia em queda. Já Ben Rhodes, ex-assessor de Obama, escreveu que o episódio expõe o quão perigoso é para o país quando a retórica racial volta a ganhar espaço. Governadores como JB Pritzker (Illinois) e Gavin Newsom (Califórnia) também condenaram o episódio, cobrando que a oposição repudie esse tipo de preconceito. E o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, lembrou que o partido precisa denunciá-lo com firmeza.
No pano de fundo, o episódio reforça uma linha de ataque que Trump mantém há anos contra Obama, incluindo debates sobre a naturalidade de nascimento do ex-presidente. Embora recuasse de algumas afirmações no passado, ele acabou reconhecendo que Obama nasceu nos Estados Unidos, encerrando, ao menos publicamente, esse capítulo específico da campanha.