Em conversa por telefone, Lula e Trump marcam reunião em Washington; o que se sabe
Esta é a terceira vez que Lula e Trump trocam telefonemas desde que se aproximaram politicamente, em setembro do ano passado
Em meio a uma agenda de encontros internacionais, o presidente brasileiro Lula e o ex-presidente norte-americano Donald Trump acertaram que o brasileiro fará uma visita a Washington assim que retornar de uma viagem que o levará à Índia e à Coreia do Sul, prevista para fevereiro. As conversas entre eles ocorreram por telefone nesta segunda-feira e constam de uma nota publicada pela Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência). Ainda não está definida a data exata da viagem, segundo o documento oficial, o que demonstra que, por ora, o cronograma segue em aberto.
Este é o terceiro contato entre Lula e Trump desde que os dois institucionalizaram uma aproximação no fim de setembro do ano passado, período marcado por uma trégua diplomática após um pico de atritos que incluiu tarifas elevadas sobre produtos brasileiros anunciadas por Washington. Na prática, o que antes parecia improvável ganhou contornos de possibilidades mais palpáveis, à medida que novas leituras sobre interesses comuns vão sendo discutidas nos bastidores.
Desde aquele encontro realizado durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, uma visita oficial de Lula a Washington já vinha sendo estudada pelos dois governos. Se concretizada, a viagem representará a segunda ida do líder brasileiro à capital norte-americana no atual mandato. Em fevereiro de 2023, Lula já tinha sido recebido pelo então presidente Joe Biden na Casa Branca, em um momento de aproximação que deixou portas entreabertas para novas frentes de diálogo.
Conselho de Paz e Venezuela pairam como temas centrais da conversa. A nota divulgada pela Secom aponta que Lula e Trump discutiram a atual situação política da Venezuela e o Conselho de Paz lançado por Trump na semana anterior. Foi a primeira vez que os dois falam desde uma operação militar dos Estados Unidos no território venezuelano, que resultou na prisão de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. Esse capítulo, aliás, reacendeu a curiosidade de observadores sobre quais serviços diplomáticos poderiam ser oferecidos para manter a região estável.
No texto, o presidente brasileiro reforçou a importância de manter a paz e a estabilidade da região, além de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano. Nos bastidores, diplomatas que conversaram de forma reservada com a BBC News Brasil indicaram que a ação militar na Venezuela acendeu um alerta no Brasil, com receios de que intervenções desse tipo possam desequilibrar ainda mais o cenário regional.
Sobre o Conselho de Paz, a nota revela que Lula sugeriu que o organismo, criado pelos EUA, se restrinja à reconstrução e pacificação na Faixa de Gaza, conforme a resolução do Conselho de Segurança da ONU endossada em novembro do ano passado, que previa a criação desse conselho. No entanto, documentos recentes, como a carta de fundação do organismo e discursos de Trump, suscitaram críticas de analistas. Eles apontam que a iniciativa poderia, na prática, funcionar como uma alternativa à ONU para resolução de conflitos em escala global.
Ao comentar o convite para o Brasil participar desse Conselho, Lula propôs que o órgão apresentado por Washington se concentre na questão de Gaza e inclua um assento para a Palestina. Nesse ponto, reforçou a importância de uma reforma abrangente da Organização das Nações Unidas, com ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Em tom cauteloso, o presidente brasileiro já havia sinalizado reservas a respeito da proposta em discussões anteriores, deixando claro que não via a ideia sem ponderação.
“O presidente Trump está apresentando uma visão de criar uma nova ONU, na qual ele seria o próprio dono da organização”, disse Lula, ao mencionar, de passagem, que ainda via a proposta com reservas. Esse comentário, feito em tom crítico, abriu espaço para debates sobre o papel real de instituições multilaterais e sobre como o Brasil pretende desempenhar uma atuação mais autônoma sem abrir mão de cooperações estratégicas com os EUA.
Qual o sentido prático de tudo isso para o dia a dia dos brasileiros? A resposta não é simples, e a leitura de bastidores sugere que o cenário é de cautela compartilhada. Enquanto Lula aponta para uma reforma da ONU que amplie a representatividade e a participação de nações com peso regional, Trump insiste em caminhos que, na visão de analistas, podem reconfigurar a ordem global de maneira acelerada. No meio dessa equação, o Brasil busca manter o equilíbrio entre diálogo direto com Washington e a defesa de uma arquitetura internacional estável e previsível.
Na prática, a conversa de hoje reforça a ideia de que as próximas semanas serão decisivas para entender se a relação entre Brasil e EUA caminhará por uma ponte estável de cooperação ou se haverá novos ajustes estratégicos que mudem o tom do debate internacional. Em resumo, o diálogo entre Lula e Trump revela uma relação que, embora ainda em construção, já transita por temas sensíveis que afetam não apenas as pautas de política externa, mas também a percepção de estabilidade regional para o cidadão comum.
No fim das contas, o que muda para o leitor comum? Continuar de olho na evolução das negociações, porque as decisões que começarem nessas conversas — sobre Venezuela, Gaza, paz regional e reformas da ONU — podem, a curto e médio prazos, influenciar o clima diplomático, além de sinalizar possibilidades de acordos ou divergências que impactem setores como comércio, investimentos e cooperação tecnológica entre Brasil e Estados Unidos.