Quase ninguém mais fala de Nicolás Maduro na Venezuela
Por Andrés Cañizález – Quase 20 dias após a captura de Nicolás Maduro pelas forças especiais americanas em Caracas, a rotina dos venezuelanos segue sob o peso da inflação e da expectativa por melhorias provocadas pela reconfiguração do setor petrolífero.
No dia a dia, a conversa que antes girava em torno do líder deposto parece ter perdido espaço para as contas de casa. A crise econômica permanece presente, ainda que os especialistas tentem mostrar sinais de contenção. Enquanto os preços de itens básicos sobem de forma quase diária, a esperança de ver o petróleo impulsionar a economia ronda a população como um rumor distante. Ao mesmo tempo, a ideia de um retorno de grandes empresas ao setor — com olhares para Chevron, ExxonMobil e outras multinacionais europeias — aparece como possibilidade de alavancar empregos e renda.
Os analistas projetam que esse movimento pode significar um retorno de até US$ 20 bilhões nos dois primeiros anos, impulsionando a produção na faixa do Orinoco para além de 2 milhões de barris por dia até 2027. O panorama, no entanto, é duro de ler no cotidiano: mesmo quem não trabalha diretamente com hidrocarbonetos espera tirar proveito de uma cadeia produtiva mais aquecida, desde o refino até a distribuição de energia. Em casa, a vida segue condicionada pela variação cambial que prende preços ao dólar ou ao euro, acentuando a inflação e tornando cada compra uma decisão complexa.
Para muitos venezuelanos, a cesta básica de uma família de quatro pessoas continua custando o equivalente a US$ 600 por mês, enquanto a renda total, entre o que cada um ganha e as ajuda de casa, mal chega a US$ 150. Por aqui, as famílias precisam escolher entre refeições diferentes, somam empregos informais ou adotam turnos duplicados para sequer se manterem de pé. Em cerca de 20% dos lares, as remessas enviadas por quem deixou o país ajudam a atenuar a crise. É nesse contexto que as conversas sobre política parecem ter migrado para o terreno prático do dia a dia, com as pessoas priorizando o que é essencial para a sobrevivência.
Antes da prisão, em 3 de janeiro, Maduro já havia lançado avisos fortes sobre uma possível reação nacional se fosse capturado — e o episódio já virou referência de debate político. Hoje, o clima no eixo Caracas não é de explosão, mas de cansaço contido. Memes e conteúdos fabricados por inteligência artificial circulam pela internet como lembrete de que o passado recente não some, embora as imagens de uma prisão hollywoodiana não resistam às checagens de sites especializados. Do outro lado, a Assembleia Nacional — sob a liderança de Jorge Rodríguez, aliado da atual conjuntura — conversa sobre reformas profundas nas leis de hidrocarbonetos para alinhar-se a direções norte-americanas, em meio a uma retórica mista de cooperação e desentendimentos internos.
Nas ruas, as manifestações em apoio ao chavismo já não atraem a adesão de outrora. Houve uma marcha na capital, mas com participação bem abaixo do esperado, e os slogans passaram a falar mais da volta de figuras históricas do passado do que de um projeto político claro para o futuro. No cotidiano, a presença de funcionários públicos nas mobilizações permanece visível, ainda que de modo tímido, e a cidade parece ter decidido seguir em frente, entre a percepção de que a vida precisa de previsibilidade para recuperar o eixo. Enquanto isso, a indústria petrolífera acumula expectativas: embora o chavismo não boicote a cooperação com os Estados Unidos, os analistas apontam atritos e contradições que atrasam o amadurecimento de soluções duradouras. No conjunto, o episódio da prisão, de certa forma, perde espaço, mas não deixa de assinalar uma pauta de incerteza sobre quem estará à frente do país nos próximos meses.
No fim das contas, o que resta para quem trabalha, estuda e sonha com uma recuperação é a esperança de ver um caminho mais estável, com sinalizações claras de que o crescimento econômico pode de fato voltar a alavancar a vida das famílias. A televisão estatal já insiste na narrativa de protagonismo nacional, mas a leitura cotidiana aponta para um país que tenta equilibrar, entre tensões internacionais e necessidades internas, o equilíbrio entre consumo, produção e dignidade diária. Enquanto não se define quem governará a curto prazo, a pergunta que fica é simples: até que ponto as mudanças no setor energético poderão transformar a vida de quem gera o sustento de casa? A resposta, por ora, está nas ruas, nas escolas, nos empregos e nos preços que, dia após dia, moldam a realidade de milhões de venezuelanos.