Quem planta verde, colhe Maduro

Ouvir esta notícia

Jogou verde e colheu Maduro

Descrição

Maduro deixou de ser apenas o símbolo de um regime resistente às sanções para se tornar o centro de um desfecho que parecia improvável: a captura que, para muitos venezuelanos, simboliza justiça, paz e uma reviravolta desejada há tanto tempo. No dia a dia, a queda do líder do regime trouxe alívio, esperança e a sensação de que mudanças reais podem finalmente ganhar espaço, especialmente depois de anos de escassez, repressão e medo.

Mas, como na política internacional, o quadro não veio sem ambiguidades. Durante anos, os Estados Unidos oscilaram entre estratégias conflitantes em relação à Venezuela. De um lado, sanções severas e isolamento; de outro, concessões graduais, flexibilização econômica e negociações discretas, cada vez menos disfarçadas por interesses energéticos e estratégicos. Jogo verde ficou no ar por tempo demais, e só agora se vê o termo final: o regime ganhou fôlego, consolidou o controle e normalizou-se no cenário externo sem jamais abrir mão do poder.

Maduro soube jogar o jogo: aceitou mesas de negociação, fez promessas vagas, simulou reformas. Enquanto isso, a repressão persistiu, a oposição permaneceu fragmentada e o sistema permaneceu fechado. As sanções mudaram de função: deixaram de ser apenas instrumento de pressão e viraram álibi político — primeiro para explicar a crise, depois para justificar a permanência no poder.

A captura, ainda que de importância política, não apaga esse percurso. Pelo contrário, expõe o fracasso de uma estratégia que confundiu pragmatismo com cedência e equiparou valores a discursos. A democracia foi invocada quando conveniente e relativizada quando os custos estratégicos ficaram elevados. Não se pode, portanto, dissociar esse momento de um cenário mais amplo.

É preciso dizer, sem rodeios, que ninguém deveria concordar com intervenções que violam a soberania de um Estado, mesmo quando o regime é autoritário. O precedente não surge do nada: o que se justifica em nome da democracia pode, amanhã, ser usado por outras potências para justificar ações preventivas sob termos próprios. O direito internacional perde força não apenas quando violado por regimes autoritários, mas também quando é flexibilizado por democracias.

Os Estados Unidos nunca esconderam seus interesses na Venezuela. Num contexto de instabilidade energética global, o país passou a ser visto menos como um problema moral e mais como um ativo estratégico. A captura de Maduro não pode ser dissociada desse cálculo, ainda que tenha repercussões complexas no curto prazo.

A dúvida central agora se volta para os planos de transição. Tudo aponta para um papel determinante dos Estados Unidos no período de transição, quase como um governo de fato até a consolidação de uma nova liderança. Isso pode funcionar no curto prazo, mas levanta questões substanciais sobre legitimidade, autonomia e a reconstrução institucional a médio prazo.

Por isso, o dia 3 de janeiro de 2025 merece leitura cautelosa. Não como redenção, mas como uma correção tardia. Não como prova de coerência, mas como reconhecimento implícito de que a estratégia anterior falhou e que a solução encontrada traz novos dilemas. A pergunta que fica não é apenas se a captura representa justiça, mas se ela chega tarde demais para os venezuelanos comuns, que viveram entre colapso econômico, repressão e promessas vazias de transição. E se o custo dessa demora não foi pago, mais uma vez, por quem nunca esteve à mesa das decisões.

Na política internacional, jogar verde pode parecer prudente. Mas, quando se joga tempo demais, corre-se o risco de colher não democracia — e sim autoritarismos mais resilientes.

O que achou deste post?

Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

AO VIVO Sintonizando...