Por que protestos no Irã são maior teste para regime desde 1979 e tornam próximos dias decisivos
Autoridades respondem às manifestações com repressão intensa e bloqueio quase total da internet, em meio a pressões internacionais e a uma temperatura de fevereiro que não cede
O Irã encara o seu maior desafio desde a revolução de 1979, com o governo adicionando uma ofensiva de segurança sem precedentes a um bloqueio de telecomunicações que corta grande parte do contato com o mundo. As ruas, que já ecoaram com vozes de indignação, começaram a recuar sob o peso de ordens que pedem contenção. “Na sexta-feira passada, a massa era enorme, mas no dia seguinte tudo parecia diferente”, afirmou um morador de Teerã à meses de relatos internacionais. Enquanto a pressão interna cresce, há quem apele para ações externas, com ameaças diretas vindas de Washington, que já condicionaram qualquer retorno a negociações a cenários que o regime considera desfavoráveis. No entanto, para muitos, essa combinação de restrições e tensões externas serve apenas como uma nova carta na manga de um tabuleiro de poder já complicado.
Esta semana pode se tornar decisiva para o rumo dos acontecimentos: o Irã não apenas enfrenta a pressão de manter o controle sobre o que acontece nas ruas, como precisa lidar com um cenário internacional que envolve possíveis ações militares e a insistência de que o diálogo sobre questões sensíveis permaneça complexo. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, transmitiu que a situação está “sob controle total”. Do lado de fora, as imagens que chegam de Teerã mostram ruas lotadas por ordens oficiais para a aparente normalidade, enquanto relatos de hospitais ao limite, necrotérios improvisados e números de mortos e detidos se acumulam. A cada nova rodada de descontentamento, o balanço humano se agrava, e o governo admite, de maneiras contidas, que houve fatalidades entre os manifestantes.
O governo atribui a maior parte da escalada a inimigos externos, um tema repetido com foco em Israel e nos Estados Unidos. A narrativa é fortalecida pela evidência de infiltrações de serviços estrangeiros durante confrontos anteriores, o que alimenta um clima de desconfiança entre autoridades e cidadania. A cada nova onda de desordem, surgem perguntas antigas: até onde vão os protestos? Quem está indo às ruas? Como as autoridades vão reagir? E, no fim das contas, que consequência prática isso terá para a vida cotidiana do iraniano comum?
Entre os desdobramentos mais marcantes, surgem relatos de uma energia que não se esgota facilmente. A crise começou com fatores econômicos: a moeda caiu, comerciantes entraram em greve e o custo de vida disparou. Em pouco tempo, a população uniu-se em diferentes cidades, pedindo mudanças políticas e econômicas. O regime, por sua vez, tem se apoiado na repressão para manter o controle, sinalizando que ações de “terrorismo contra Deus” não ficarão impunes. Enquanto isso, os serviços de segurança fortalecem a argumentação de que apenas a coesão interna pode evitar um colapso mais amplo. Em meio a esse cenário, observa-se uma tensão entre a estabilidade do sistema e a pressão por reformas, sem que haja garantias de como o equilíbrio será mantido no dia a dia.
O peso decisivo recai sobre a figura do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que, cercado por apoiadores fieis, continua a manter a autoridade máxima. O papel da Guarda Revolucionária e de seus aliados na economia, na política e na segurança é cada vez mais central. Pensadores internacionais destacam que qualquer movimento externo, se chegar, poderia, paradoxalmente, reforçar a unidade da elite e, ao mesmo tempo, aprofundar a vigilância sobre quem está dentro do círculo de poder. “O efeito mais determinante seria consolidar laços entre as camadas dominantes, reduzindo as fissuras”, comenta um analista, lembrando que as sanções e a pressão externa intensificam o dilema estratégico do regime. No entanto, a conjuntura também aponta para a possibilidade de mudanças emergentes, caso haja uma reavaliação sobre negociações nucleares e dissuasão, algo que o próprio governo tenta manter sob controle.
No radar da oposição, o papel de figuras públicas exiladas ganhou novo peso. O ex‑validante de confiança da monarquia, Reza Pahlavi, voltou a aparecer como voz influente, defendendo uma revisão do rumo político. Aos seus olhos, a transformação deve vir de forma pacífica e por meio de vias democráticas; porém, seu apelo encontra resistências dentro da diáspora e entre quem vê risco em alianças internacionais. Paralelamente, nomes que já foram símbolos de resistência, como Narges Mohammadi e Jafar Panahi, ressaltam que mudanças precisam nascer de dentro, mantendo o foco na construção de uma sociedade mais livre sem rupturas acidentais. O contexto revela que Pahlavi, mesmo com potencial mobilizador, ainda não conseguiu consolidar uma frente única entre as várias vozes da diáspora, nem definir de forma clara a que tipo de transição o país pode aspirar.
Em tom de maior cautela, analistas apontam que o que está em jogo é a própria sobrevivência do sistema, mais do que um simples tropeço político. A linha de frente está concentrada na leitura de que não há soluções rápidas: manter a base de poder exige um equilíbrio entre repressão contida, gestão econômica e uma leitura realista das necessidades de uma população que clama por mudanças. A única certeza, segundo especialistas, é que a história já ensinou que quando o fervor popular encontra força institucional, a mudança pode vir de cima, de baixo ou de uma combinação imprevisível das duas vias. No fim das contas, o que está em jogo é o próprio conceito de futuro do Irã — e se esse futuro será decidido pelas ruas, pela liderança ou por uma combinação de pressões internas e externas.