Polêmica Zezé di Camargo x SBT: as relações pragmáticas que Silvio Santos mantinha com a política
Críticas do cantor levaram ao cancelamento do especial e abriram um debate sobre o papel do SBT, o legado e as posições políticas de Silvio Santos
O caso envolvendo Zezé Di Camargo ganhou contornos de bastidores e acabou movendo leitores e fãs para o centro de uma discussão nacional. O artista pediu ao SBT que cancelasse o especial de Natal após críticas públicas dirigidas à presença de Lula e de integrantes do governo no lançamento do SBT News. Na prática, o episódio começou como uma reação de um artista alinhado ao bolsonarismo, mas rapidamente se transformou em um debate sobre mídia, polarização política e o uso simbólico do legado de Silvio Santos.
O especial “Natal é Amor com Zezé Di Camargo” estava marcado para ir ao ar no dia 17, mas foi retirado da grade depois que o cantor divulgou um vídeo nas redes sociais criticando duramente a emissora. No pronunciamento, Zezé afirmou que o SBT estaria “se prostituindo” ao receber Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes em um evento institucional de lançamento do novo jornal.
Pouco depois, o SBT informou, em nota, que decidiu não exibir o especial após avaliações internas e que divulgaria posteriormente a atração que ocupará o horário. A emissora é hoje conduzida pela viúva de Silvio Santos e pelas seis filhas do apresentador, falecido em agosto do ano passado.
No vídeo, Zezé disse que não tinha “nada contra ninguém”, mas afirmou que o que viu no evento não representava seu pensamento, nem, segundo ele, o pensamento de grande parte do Brasil. Ao mencionar diretamente as filhas de Silvio Santos, o cantor sugeriu que elas estariam adotando posições diferentes das do pai e declarou que “filho que não honra pai e mãe não existe”.
A repercussão ganhou cor política. O lançamento do SBT News, ocorrido na última sexta-feira, reuniu autoridades de diferentes campos e foi marcado por um tom institucional e cordial. Imagens do evento mostraram Lula compartilhando risadas e cumprimentos com adversários políticos, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O encontro foi interpretado por críticos como um gesto simbólico de reaproximação entre a emissora e o governo.
Zezé Di Camargo, há anos ligado publicamente ao bolsonarismo, não citou Lula nominalmente em seu vídeo, mas sua identificação política é reconhecida. Em outubro, durante show em Santa Catarina, ele defendeu a anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, discursando para uma plateia que demonstrava apoio explícito ao ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso sob acusação de liderar uma trama golpista.
A repercussão alcançou o campo político. A primeira-dama Janja Lula da Silva criticou as declarações do cantor e afirmou que Zezé foi “misógino” e “machista” ao usar o termo prostituição para se referir às decisões das filhas de Silvio Santos, hoje à frente da emissora. Segundo ela, a fala reflete um padrão de desrespeito à presença feminina em espaços de poder e alimenta discursos de ódio contra mulheres em posições de comando.
No campo bolsonarista, a reação foi mais contida. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL, criticou o uso da palavra “prostituir” por Zezé Di Camargo, embora tenha dito compreender a indignação do cantor. Em entrevista, Flávio afirmou que a expressão foi exagerada, especialmente por envolver as filhas de Silvio Santos, e defendeu que divergências políticas não devem ser tratadas de forma agressiva. Para ele, o cantor deveria pedir desculpas pela maneira como se expressou.
O debate também mergulha no próprio legado de Silvio Santos. Enquanto Zezé sugeria que a direção atual da casa estaria se afastando dos valores do fundador, o jornalista e biógrafo Mauricio Stycer, em entrevista de 2021 à BBC News Brasil, disse que Silvio via a política como ferramenta para garantir seus negócios, não como uma causa a ser defendida. Ao longo de décadas, ele manteve relações com governos de diferentes matizes, inclusive durante a ditadura, quando obteve autorizações para operar canais em várias capitais e possibilitou a criação do SBT, em 1981.
Era comum ver Silvio demonstrar gratidão pública a diferentes governantes, e houve até uma tentativa de carreira política: em 1989, Silvio tentou se lançar candidato à Presidência, em uma articulação que envolveu disputas políticas e empresariais. Embora nunca tenha exercido cargo público, o apresentador se manteve próximo de presidentes civis e militares, surgindo como um nome competitivo nas pesquisas, até a candidatura ser barrada por entraves legais poucos dias antes da eleição. Segundo Stycer, o episódio evidenciou uma visão de política como cenário estratégico para a sobrevivência de seus negócios.
No período dos governos civis que se seguiram, Silvio manteve relações cordiais com figuras como José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, chegando a aparecer em depoimentos elogiosos em documentários sobre sua vida. Em 2010, durante a crise do Banco Panamericano, reuniu-se com Lula para discutir alternativas que evitassem a liquidação da instituição, que acabou socorrida pelo Fundo Garantidor de Créditos antes de ser vendida.
A proximidade com o poder também se intensificou nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Temer participou de programas do SBT enquanto buscava apoio para a Reforma da Previdência, e a emissora exibiu vinhetas defendendo a medida. Com Bolsonaro, a relação ficou ainda mais explícita: o então presidente entrou ao vivo no Teleton logo após ser eleito e visitou Silvio em sua casa, em São Paulo. Em 2020, Bolsonaro recriou o Ministério das Comunicações e nomeou Fábio Faria, genro de Silvio Santos, para o cargo.
Para Stycer, essa proximidade sempre teve relação com interesses empresariais e com a sobrevivência do grupo no competitivo mercado de mídia. Silvio nunca se apresentou como militante político e não manteve uma linha ideológica fixa: o objetivo central, segundo ele, era proteger e ampliar seus negócios.
Com informações de reportagens publicadas em agosto de 2021 e agosto de 2024