Venezuelanos mandam carta a Maduro: ‘O passarinho Chávez’

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Venezuelanos escrevem a Maduro: “O passarinho Chávez” e outras mensagens

Uns insultam-no, outros provocam-no, e há quem deseje a mesma dor que provocou. Uma jovem residente na Florida enviou uma carta com 35 mensagens de venezuelanos a Maduro. E já prepara a segunda.

Storm, pseudônimo usado nas redes, descobriu que Nicolás Maduro nunca esteve tão acessível — bastava uma carta, paga com o preço de um selo. A jovem de 21 anos resolveu aproveitar o momento em que o presidente venezuelano estava detido no Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, em Nova Iorque, para escrever-lhe e, através disso, dar voz a centenas de venezuelanos que logo se sentiram estimulados a participar. Não se engane quem pensa que o conteúdo destas mensagens é de encorajamento: o tom, nesta leva, incluiu críticas acesas, desabafos e provocações.

“A ver se o passarinho Chávez te visita aí” — assim inicia a 11.ª mensagem entre as 35 que integram a primeira carta enviada a Maduro. Não é a única que recorre à lembrança do ancestral de Chávez. Ouça-se ainda a pergunta da mensagem número 6: “Ainda falas com o passarinho?” Os recados remetem a um episódio de 2013, quando Maduro, então já no poder, disse ter visto o ex-presidente Hugo Chávez surgir diante dele em forma de ave. Ao longo dos meses, o gesto simbólico ganhou contornos de arma retórica, e as referências ao passado político da Venezuela aparecem com força entre as cartas.

Neste quadro, a curiosa coincidência de histórias tem a ver com as “cenouras” da curiosidade internacional: as declarações sobre espionagem, a suposta emboscada e o ataque à chamada fortaleza dos dissidentes. Segundo o relato que chegou a NBC, muitos observam que as autoridades norte-americanas detiveram Maduro e a mulher, Cilia Flores, em circunstâncias ainda envoltas em segredo. A iniciativa partiu de Storm, uma jovem que vive na Flórida, que, depois de publicar uma imagem da carta que pretendia enviar ao então líder de Caracas, percebeu que outras pessoas também desejavam contribuir. A ideia de Storm nasceu justamente ao ver que indivíduos buscavam espaço para desabafar e, quem sabe, conseguir algum tipo de eco público.

Ao falar com a imprensa, Storm explicou que não imaginava receber tantas respostas: “No dia seguinte, receberam-se mais de 100 respostas ao meu pedido.” O que começou como uma brincadeira — reunir mensagens — rapidamente se transformou num movimento em que muitos venezuelanos desejavam partilhar histórias, sofrimento, ou apenas perguntas que não podiam colocar diretamente a Maduro. Storm, então, selecionou 35 mensagens que julgou mais pessoais e, para cada uma, redigiu uma carta curta, mantendo as identidades em segredo. Junto às mensagens, ela apoiou três folhas de papel com o destinatário explícito: Nicolás Maduro Moros, número de registo BOP 00734-506, Metropolitan Detention Center, 80 29th Street, Brooklyn, NY 11232.

“Passei a atuar como ponte entre a Venezuela e os EUA, partilhando relatos de venezuelanos que vivem neste país e que tinham família ou amigos presos ou perseguidos pelo governo”, relatou Storm. E acrescentou que, cada vez que recebia mensagens, a ideia de partilha ganhava mais força: “Tenho recebido mensagens sobre as histórias das suas famílias.” Entre as linhas, surgem relatos de pessoas que descrevem o que significava viver com medo, sem saber se voltariam a ver os seus entes queridos, ou como lidavam com a distância entre a própria vida e a pressão do regime.

O conteúdo da carta de Storm não se limitou a pedidos ou reprovações. Um dos trechos mais comoventes descreve a dor de quem ficou sem a família: “Passei 11 anos sem a minha família por tua culpa, e isso nunca esquecerei. Mas agora estou feliz por seres tu a ter de passar tempo sem a tua família, sem a tua esposa, sozinho num quarto frio.” O testemunho, colocado na carta, mostra que o envio não foi apenas uma brincadeira: por trás dele está a memória de pessoas reais, pessoas que aguardam por uma resposta, por uma palavra de conforto, por qualquer sinal de que são ouvidos.

Storm cresceu num triângulo de histórias que começou na Venezuela, ganhou nova vida nos Estados Unidos e cruzou a fronteira da experiência pessoal com o desejo de apontar falhas e difamar o que não funciona — sem perder o humor ácido que a levou a propor a brincadeira inicial. A família de Storm deixou a Venezuela em 2015, e o pai, crítico de Chávez, faleceu de cancro no ano anterior. O último desejo dele era regressar à Venezuela; para Storm, escrever aquela carta foi quase um desfecho simbólico de uma história familiar marcada pela distância.

Mesmo que tenha tentado manter o silêncio, alguém acabou por identificar Storm, descobrindo a escola que frequentava e a conta de Instagram ligada ao pseudônimo. O jornal El País confirmou que, diante do medo de retaliações para a família na Venezuela, Storm manteve a privacidade da conta, e só mais tarde decidiu torná-la pública. Hoje, a jovem não descarta enviar uma segunda carta com as mensagens que lhe forem chegando, ampliando o recado de venezuelanos que desejam fazer ouvir a sua voz, ainda que à distância.

Entre os relatos que chegaram, surgem também mensagens em espanhol, com notas de indignação e pedidos de solidariedade, sempre mantendo o tom crítico, mas sem perder o equilíbrio entre a curiosidade e a necessidade de arrancar uma resposta pública. E no dia a dia, a história de Storm serve como lembrete de que as vozes individuais podem, sim, se transformar em uma janela para o que se passa além das fronteiras — especialmente quando se está preso a palavras que chegam de longe e que, de alguma forma, acabam por atravessar a distância que separa carris, muros e regimes.

No fim das contas, o que tudo isto sugere é que, mesmo em situações de tensão política, há espaço para testemunhos que, embora curtos, carregam emoções profundas. E que, de alguma forma, uma carta pode se tornar a ponte entre quem está do outro lado da fronteira e quem vive a experiência de quem decide permanecer fiel aos seus valores, mesmo quando o destino parece hesitar entre o silêncio e a palavra dura. Um lembrete de que, para o leitor comum, a distância pode parecer pequena, mas o impacto de cada história pode ressoar muito além das paredes de uma penitenciária.

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Jornalista

Fernanda Costa

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