‘Agora temos esperança de voltar’: venezuelanos no Brasil comemoram captura de Maduro, mas temem por parentes que ficaram
O clima entre os refugiados é de comemoração e alívio, com alguns já pensando na possibilidade de retornar ao país de origem após anos longe.
No fim de semana, a notícia da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos mexeu com a comunidade venezuelana que vive no Brasil. Em Boa Vista, cidade de fronteira em Roraima, um grupo de imigrantes chegou a planejar uma celebração pública na praça ainda naquela noite. No entanto, além do alívio, pairava a preocupação: como fica a vida de quem ficou para trás, as dificuldades de atravessar a fronteira e a incerteza sobre o que virá a partir de agora?
Para muitos, a situação no país de origem desperta memórias de deslocamentos, perdas e incertezas. O fluxo de venezuelanos que deixou o país é expressivo: 7,9 milhões migraram, e 6,9 milhões encontram-se na América Latina e no Caribe. No Brasil, a comunidade venezuelana representa o maior grupo entre os imigrantes: mais de 271 mil habitantes de nacionalidade venezuelana, conforme o censo de 2022 do IBGE. Além disso, muitos enfrentam dificuldades para acompanhar notícias sobre parentes que ficaram na Venezuela, com fronteiras ainda fechadas e terminas de transporte com acesso restrito.
Entre os relatos que chegaram de Boa Vista, está o de uma venezuelana que vive no Brasil há uma década. Ela preferiu manter o nome em sigilo por temores de retaliação no país de origem. A família — o marido, três filhos nascidos no Brasil e um emprego estável — planejava sair já naquele dia para buscar abrigo em Santa Elena, na fronteira com Roraima, conforme a passagem entre os dois países fosse reaberta. Contudo, as incertezas se acumularam: o terminal de ônibus e postos de combustível em sua cidade ficaram fechados e tudo parecia suspenso. “Todas as nossas coisas estão no Brasil. Nosso emprego. Pessoas com quem contamos. Precisamos pagar aluguel na próxima semana”, relatou a tradutora de histórias, que ainda resumiu o sentimento de cautela que acompanha muitos neste momento.
No dia a dia, o receio também se mistura com a esperança. Muito disso se traduz em ações simples, como cortar contatos digitais para evitar notificações indesejadas ou represálias, ou manter a família unida mesmo distante. “Tem algo que ainda nos prende aqui: o que vamos encontrar pela frente, caso haja mudanças no comando do país vizinho”, comentou uma moradora de Belo Horizonte, que há oito anos deixou a Venezuela para buscar segurança e melhores condições para a família.
Outra história que ganhou voz é a de Katherine Mota, uma empresária de 31 anos que vive em Boa Vista. Ela descreve uma montanha de sentimentos ao mesmo tempo: alegria pela possibilidade de retorno e receio pela presença de parentes no país de origem. “Estou feliz porque sentimos que há uma saída para a crise, mas também sinto medo por quem ainda está lá. As Forças Armadas estão nas ruas, muitos estabelecimentos fecharam e as compras se tornaram agitadas pela preocupação com o desabastecimento. Ainda assim, há esperança de que tudo possa melhorar.”
Katherine revela que a família dela recebeu visita de mãe, avó e tia nos últimos dias, todos no Brasil. Elas pretendiam retornar à Venezuela na próxima semana, mas agora não sabem se isso será viável. “Amo muito Roraima, mas a esperança de retornar persiste”, resumiu. Paralelamente, Damarys Lara, 49 anos, que trabalha como cozinheira em São Paulo, compartilha o temor de que o descontrole atual possa evoluir para uma nova crise. “Estamos com medo porque não sabemos para onde isso vai.
Damarys reforça a ideia de que, apesar da instabilidade, muitos venezuelanos mantêm o desejo de retornar assim que a situação econômica permitir. “Pode levar anos, mas queremos voltar para um país que ofereça condições reais de liberdade e oportunidades para a nossa família.” Enquanto isso, parte da comunidade em Boa Vista continua a apoiar familiares que dependem de remessas para manter o básico, especialmente quando a situação no Brasil já exige ajustes no orçamento familiar.
Quem vive na fronteira também se apoia na ideia de que novas dinâmicas surgem a partir de mudanças políticas. Um migrante que trabalha intermediando transferências entre Brasil e Venezuela contou que tem sido procurado por muitos que pedem envio urgente de recursos para compras emergenciais. Em meio a esse cenário, a recepção de notícias sobre o futuro é marcada pela ansiedade, mas também pela possibilidade de reconstrução de vínculos com a Venezuela, caso haja um avanço que permita retorno seguro.
Para quem ficou e para quem chegou, o momento é de rever planos e priorizar a proteção da família. Um olhar mais atento para as histórias individuais ajuda a entender que, por trás de cada notícia, existem pessoas que vivem a incerteza do dia a dia, mas também a vontade de recomeçar. Um pensamento comum entre muitos migrantes: a saudade da casa e a esperança de um caminho mais estável no futuro. O que muda na prática, diante dessas perspectivas? A resposta pode depender de como as políticas migratórias e as condições econômicas evoluírem nos próximos meses.
Enquanto isso, a comunidade permanece unida na busca de informações confiáveis, apoio entre pares e oportunidades para se reorganizar, seja para ficar ou para retornar à Venezuela quando as condições permitirem. E você, leitor, como imagina o próximo capítulo dessa história de deslocamento, espera e resiliência?