Venezuela: multidões pedem aumento de salários ao governo interino

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Centenas vão às ruas na Venezuela para exigir que governo interino aumente salários

Renda mínima equivale a 28 centavos de dólar (R$ 1,46), enquanto inflação anual supera 600%; Chavistas bloqueiam marcha e demandam fim das sanções

Centenas de trabalhadores e aposentados foram às ruas de Caracas na tarde desta segunda-feira, 23 de março, para exigir reajustes nos salários “de fome” e nas aposentadorias, hoje congelados há quatro anos e corroídos por uma inflação que, segundo estimativas, supera 600% ao ano. Com um salário mínimo de US$ 0,28, a mobilização reforça a pressão sobre o governo interino liderado por Delcy Rodríguez, instalado após a deposição de Maduro em uma operação que atraiu a atenção internacional.

O contexto econômico é determinante para entender o movimento: o menor reajuste ocorreu em 2022, quando o governo fixou uma renda básica de US$ 28 (aprox. R$ 146). A fatia da população que sobrevive com esse patamar vê-se diante de uma cesta básica que, conforme estimativas, custa por volta de US$ 645 (R$ 3.380) para uma família. Como destacou uma aposentada entrevistada pela AFP, “isso já não é um salário”.

Mesmo com a possibilidade de a renda subir para cerca de US$ 150 quando somados bônus estatais, o valor ainda não cobre o essencial, o que alimenta o tom crítico das famílias. E, no entorno, a manifestação ganhou um tom político ao ser alvo de bloqueio por parte de motociclistas afinados com o chavismo e por forças de segurança, que impediram o percurso rumo ao Ministério do Trabalho. Na prática, isso mostra como a pressão popular se cruza com o cenário de tensões entre forças políticas.

Ao mesmo tempo, as forças sindicais elevam o tom: há reivindicações para que o salário mínimo passe a US$ 200 e para que se utilizem receitas de um fundo petrolífero administrado a partir de uma nova relação com a presidência interina. Em meio a esse debate, uma página oficial de Delcy Rodríguez aponta receitas de US$ 300 milhões e despesas no mesmo valor, sob a rubrica de um “aumento da renda mínima integral” — sem detalhes adicionais. Griselda Sánchez, líder sindical, insistiu que se intervenha nos recursos do petróleo para elevar os salários.

Economistas, por sua vez, divergem: muitos concordam que o país não está em condições de elevar os salários ao nível exigido pelos trabalhadores, mesmo contemplando cenários com receitas adicionais. No radar político, o chavismo seguiu com uma marcha própria para exigir a suspensão de sanções internacionais, alegando que o fim das medidas tornaria possível tratar com mais eficiência a questão salarial. Quando o assunto é política externa, a posição de figuras de peso, como Diosdado Cabello, aparece fortalecida: segundo ele, com sanções menos rígidas, “podemos lidar melhor com a questão dos salários”.

No dia a dia, a disputa vai além de números: representa a tensão entre o custo de vida, a proteção social de milhões de pessoas e o desenho do poder em meio a pressões internas e externas. Enquanto a economia oscila entre receitas do petróleo, inflação e ajustes aparentes, a percepção comum é de que a população precisa de uma saída que combine renda estável com políticas que deem fio condutor para o futuro da saúde financeira das famílias.

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Jornalista

Lucas Almeida

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