Trump pode estar mais próximo de um plano para encerrar guerra com o Irã?
A Casa Branca mantém o discurso de controle dos rumos, mas entre republicanos há frustração com mensagens conflitantes sobre os objetivos de guerra.
O presidente dos Estados Unidos parece cada vez mais interessado em encontrar uma saída para o conflito com o Irã — ou, pelo menos, a ideia de “encerrar” a guerra aparece como uma tentação constante. No entanto, a estratégia ainda não está clara, e as mensagens que saem de Washington soam diferentes entre si. Por um lado há sinais de que a pressão pode seguir por vias distintas ao mesmo tempo: o confronto pode ser intensificado para ganhar tempo, ou uma negociação com Teerã pode emergir como plano viável.
No dia 24 de março, o Pentágono ordenou o envio de tropas terrestres para a região, enquanto negociadores americanos apresentaram ao regime iraniano um novo plano de paz de 15 pontos. Na manhã seguinte, a Casa Branca passava a mensagem de que os EUA desejavam ver Irã aceitar o acordo, ao mesmo tempo em que deixava claro que poderia recorrer a medidas mais fortes se necessário. Na prática, isso gerou uma confusão sobre quais seriam as reais intenções de Trump.
Dependências internas complicam a leitura do momento. Ex-funcionários citados para explicar a situação disseram que há muita apreensão dentro do governo, pois parece claro que Trump não discutiu tudo com antecedência. “Eles sabem que falta pensar em várias etapas”, comentou um ex-funcionário que trabalhou com o presidente em seu primeiro mandato, sob condição de anonimato.
Entre os atalhos de comunicação, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, reforçou uma linha que parece combinar firmeza e urgência: “O presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno”. E em seguida lembrou que “o Irã não deve errar nos seus cálculos” — uma postura que alimenta a percepção de que as conversas não passam de fachada para uma pressão crescente.
O Irã, por sua vez, rejeitou a proposta de paz apresentada, o que alimentou dúvidas sobre a seriedade das negociações diplomáticas. O conflito, conforme descrito pelos analistas, já abalará não apenas o Oriente Médio, mas também a economia global e o cenário político interno dos republicanos, dividido entre ala mais interventora e quem teme o envolvimento prolongado.
Um ponto-chave que persiste é a abertura do Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circulam cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás. A grande pergunta é: como os EUA poderiam garantir a reabertura da passagem caso Teerã não ceda? Até hoje, os apelos para que aliados da Otan contribuíssem não foram atendidos, alimentando a incerteza sobre o desfecho.
“O problema para o presidente é o Estreito de Ormuz. Se ele deixar nas mãos do Irã, será difícil sustentar a vitória”, afirma Stephen Hadley, ex-conselheiro de Segurança Nacional. A crítica aponta para uma falha de coordenação internacional — a sensação de que Trump não consultou parceiros estrangeiros está entre as razões para a hesitação de aliados em apoiar uma linha de atuação tão agressiva.
No dia seguinte, surgiram sinais de que o tom de Washington também encontra resistência dentro do Congresso. O presidente da Câmara, Mike Johnson, pediu cautela ao falar sobre a conclusão da operação militar. Já a congressista Nancy Mace — crítica de parte do grupo Maga — disse não apoiar tropas em solo iraniano, mesmo após uma reunião fechada com o briefing de defesa. A reação entre os republicanos, portanto, revela uma dissidência explícita entre quem defende uma postura firme e quem teme o custo político de uma escalada.
Outra peça daquilo que parece um mosaico de planos é o tal de “plano de paz de 15 pontos”. Segundo relatos, ele exigiria que o Irã abandone o programa nuclear, limite seus mísseis balísticos e reabrisse o Estreito de Ormuz — um conjunto de condições que, na prática, lembra propostas já vistas em negociações anteriores envolvendo outras regiões. O vazamento aconteceu depois que Trump sinalizara, na semana anterior, que poderia ampliar a guerra caso o Irã não aceitasse abrir o estreito. Em seguida, Trump manteve a suspensão de um ataque por cinco dias, citando progressos “grandes” em direção a um acordo para encerrar o conflito.
Mesmo com esse rascunho, analistas lembram que Teerã não parece inclinado a ceder sob condições percebidas como inaceitáveis. Um funcionário iraniano, citado anonimamente pela televisão estatal, descartou a proposta e disse que Irã tem suas próprias exigências. Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, afirmou que não há negociações em andamento e que o Irã não pretende abrir o Estreito de Ormuz para navios ocidentais aliados aos EUA. Em resumo: o Irã investe na percepção de que tem mais controle sobre o rumo da guerra do que os EUA aparentam ter.
Ainda assim, a Casa Branca parece apostar que o envio de tropas terrestres pode pressionar o regime a reabrir o Estreito de Ormuz e, quem sabe, forçar uma rendição mais rápida. Porém, especialistas destacam que é pouco claro como um destacamento relativamente limitado — com unidades da 82ª Divisão Aerotransportada — seria capaz de impactar diretamente o estreito ou mudar o curso do conflito. Alguns chegam a apontar cenários em que os EUA passariam a controlar a Ilha de Kharg, núcleo de exportação petrolífera iraniano, mas tudo isso envolve riscos para as próprias tropas.
O que fica claro é que a escalada expõe outra frente: a percepção de que não há uma estratégia articulada para a guerra. “Não parece resultar de um plano com objetivos bem delineados; parece mais um jogo de ‘quais unidades estão disponíveis agora?’”, comenta um ex-funcionário da defesa. E, no fim das contas, quem acompanha o noticiário se pergunta: qual é o um plano que de fato guiará essa crise? O próximo movimento pode redefinir não apenas a região, mas a vida de quem, aqui no Brasil, consome notícias com curiosidade e expectativa.