Em discurso mais longo do mandato, Trump reforça agenda patriótica em ano de eleição crucial
Segundo correspondente da BBC, presidente dos EUA fez acenos à base eleitoral e provocou adversários em fala marcada por recursos teatrais.
Na noite de terça-feira, Donald Trump subiu ao plenário para um discurso que parecia escalar o tom de evento de campanha: um pronunciamento quase de Estado da União, marcado por trejeitos teatrais, elogios às próprias realizações e uma defesa veemente de uma agenda voltada para seus apoiadores. O momento, ainda que carregado de teatralidade, trouxe o peso de um ano decisivo para as eleições de meio de mandato, com a liderança do Congresso em jogo e o discurso buscando capturar a atenção de dezenas de milhões de telespectadores.
Entre o público presente, houve o habitual mosaico de reações: de um lado, a solenidade dos momentos de homenagem e de apoio; de outro, as tensões próprias de uma sessão de alto calor político. O próprio Trump sabe bem onde mirar: além de acionar sua base, o presidente também desafia seus críticos com uma retórica de nacionalismo e de resultados tangíveis na vida cotidiana dos americanos. Na prática, o que se viu foi um republicano apostando na retórica patriótica para manter o ímpeto, mesmo diante de pesquisas que sinalizam insatisfação com a situação do país e com a condução de seu governo.
No decorrer da noite, o tom teatral ganhou espaços de destaque. Logo no início, Trump cumprimentou a equipe masculina de hóquei da seleção olímpica dos EUA, que estava na galeria ao lado de medalhas de ouro erguidas pelos atletas. Foi um momento pensado para as câmeras, com aplausos variados entre republicanos e até com reações positivas de democratas. Mais adiante, o presidente prestou homenagens a heróis de serviço: um veterano de 100 anos da Segunda Guerra Mundial e um nadador da Guarda Costeira que resgatou 165 pessoas durante enchentes no Texas no ano anterior. A segunda homenagem lhe rendeu a Medalha de Honra do Congresso; já o veterano recebeu a Legião do Mérito por bravura extraordinária.
Apesar de o discurso ter quebrado recordes de duração, esses intervalos de reconhecimento ajudaram a manter o eixo temático centrado no patriotismo e nas supostas realizações do país. A cada passagem, Trump reforçava uma narrativa de recuperação econômica e de força externa, promovendo um retrato de nação vitoriosa e em plena ascensão.
O homem que abriu o pronunciamento com mensagens já conhecidas não poupou críticas aos oponentes: repetiu a ideia de que o país estaria “<(strong>de volta)” e que seria o país mais dinâmico do mundo. Em determinado momento, ao atribuir à oposição a responsabilidade por uma crise de custo de vida, ele repetiu, de modo enfático, que “estamos indo muito bem”.
Na avaliação econômica apresentada ao longo da noite, Trump elencou conquistas como recuperação de renda, valorização do mercado de ações, queda no preço da gasolina, avanços na segurança da fronteira com redução expressiva de travessias de migrantes sem documentação e inflação sob controle. Em tom triunfalista, encerrou com a expressão de que “nosso país está vencendo novamente”.
Por trás do brilho da casa lotada, o desafio político permanece claro: a popularidade pública registra números que giram em torno de 40%, e o gargalo de apoio pode limitar o alcance de suas propostas em meio à trajetória das eleições. Assim, a expectativa é de que, ao ampliar a audiência por meio do discurso, o efeito prático seja diferente. No dia a dia, o desafio é converter esse otimismo em apoio concreto para temas quentes entre eleitores, especialmente quando a mídia e o público já se mostram céticos em relação a novas políticas públicas.
Embora tenha permanecido com foco de grande parte do pronunciamento no reforço de políticas já discutidas, Trump sinalizou algumas propostas concretas. Entre elas, surgem: novas contas de poupança para aposentadoria direcionadas a trabalhadores de baixa renda; um acordo com empresas de inteligência artificial para assegurar fornecimento estável de energia elétrica às instalações, evitando tarifas elevadas para consumidores; um plano de saúde que prevê pagamentos diretos para ajudar a cobrir franquias; uma exigência de comprovação de cidadania para eleitores; e a vedação da emissão de carteiras de motorista comerciais para migrantes sem documentação. Além disso, o presidente reiterou a intenção de seguir avançando com seu amplo conjunto de tarifas, pese as dúvidas provocadas por decisões recentes da Suprema Corte.
Em torno de esse tema, três ministros que votaram contra as tarifas acompanharam a sessão em silêncio, enquanto Trump e o presidente da Suprema Corte, John Roberts, trocaram um breve aperto de mão — sem sorrisos — antes de o debate subir para o plenário. A discussão sobre tarifas provocou murmúrios entre democratas e abriu frestas de desconforto entre bolsones republicanos, que também reconhecem os custos econômicos dessas medidas e o risco político que podem representar para suas candidaturas.
Ao tratar de imigração, surgiram momentos de alto clamor entre apoiadores, com o presidente descrevendo o que chama de ameaça de migrantes ilegais e recebendo os aplausos mais dilatados da plateia. No entanto, o tema ficou marcado por controvérsias no país, especialmente após episódios de fiscalização com mortes de cidadãos americanos em Minneapolis — notícias que desafiaram de forma contundente a narrativa de tolerância zero na fronteira. Ainda assim, o discurso enfatizou crimes atribuídos a migrantes sem documentação, buscando retomar o tema como linha polar de seu argumento eleitoral.
Em termos de estratégia, o que se desenha é um alinhamento claro entre defesa de políticas antigas — como o reforço de controles migratórios e de barreiras comerciais — e um conjunto de propostas que pretende oferecer uma renda de suporte para determinados setores da população. O tom, no dia a dia, é o de uma aposta política: manter o impulso entre a base para as eleições de meio de mandato, ainda que o ambiente político externo esteja longe de assumir um caminho azul claro. Além disso, não houve manobra para uma ação externa mais agressiva de imediato, com a preferência declarada pela diplomacia quando possível, sempre sob o teto de não permitir que adversários cometam abusos — sobretudo no que se refere à presença de armas nucleares no tabuleiro internacional.
No conjunto, o discurso parece refletir uma leitura de cenário: a aposta é manter o clima de patriotismo no centro do debate público, esperançoso de que o pragmatismo econômico se traduza em apoio político suficiente para atravessar o ano eleitoral. E, no fim das contas, o que fica para o leitor comum é a sensação de que a política de Trump continua buscando retomar o controle da narrativa, misturando referências a heróis nacionais, números econômicos e um positivismo que busca contagiar a população em meio a um cenário eleitoral desafiador.