Trump quer o petróleo da Venezuela. O plano vai funcionar?
Presidente dos EUA mira nas maiores reservas de petróleo bruto do mundo, mas especialistas alertam que recuperar infraestrutura exige bilhões e pode levar anos
O discurso de Donald Trump girou em torno de aproveitar as vastas reservas venezuelanas de petróleo após a prisão do presidente Nicolás Maduro, com a promessa de que os Estados Unidos “vão administrar” o país durante uma transição “segura”. A ideia é mobilizar empresas petrolíferas norte-americanas a investir bilhões para reconstruir uma infraestrutura gravemente deteriorada e, assim, colocar o petróleo para gerar dinheiro para a nação. No papel, soa simples: atrair capital privado para reativar um setor-chave da economia venezuelana. Na prática, não é tão simples assim.
Especialistas lembram que o caminho está cheio de entraves, sobretudo legais e políticos. Mesmo com uma aposta tão audaciosa, os custos seriam elevados e os resultados podem demorar. A expectativa de que um projeto tão ambicioso traria uma recuperação rápida da produção parece improvável; a ideia, na visão dos analistas, requere bilhões de dólares em investimentos e pode levar anos até que haja algum aumento significativo na oferta de petróleo.
Do lado técnico, a Venezuela abriga o que hoje é tido como as maiores Reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris. Porém, a produção atual é modesta: por volta de 860 mil barris por dia, o que representa pouco mais de um terço do que era há dez anos e menos de 1% do consumo global. Além disso, grande parte do petróleo venezuelano é do tipo “pesado e ácido”, mais difícil de refinar, diferente do que impulsiona a maioria das refinarias americanas, que trabalham com petróleo “leve e doce”.
As sanções e o isolamento econômico pesam fortemente sobre o país. Nas últimas semanas, autoridades apreenderam navios e endureceram bloqueios a embarcações sancionadas, o que complica ainda mais qualquer plano de normalizar a produção com participação estrangeira. Para quem quer explorá-la, a dificuldade começa pela necessidade de um acordo com o governo venezuelano — algo que só seria viável com um novo governo empossado, após a definição de um sucessor de Maduro. E, mesmo assim, os investidores teriam que apostar bilhões na estabilidade de um cenário político que ainda é incerto.
Para ilustrar o tamanho do desafio, analistas destacam que, mesmo com uma eventual pacificação institucional, os projetos demandariam um ciclo de meses, ou até anos, para se estruturar e começar a retornar caixa. Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, afirma que o impacto de tais planos na oferta global de petróleo seria limitado, o que significa pouca variação nos preços em curto prazo. Em outras palavras: o otimismo inicial pode esbarrar em uma realidade de obstáculos gigantescos e prazos longos.
Entre as perguntas que permanecem no ar: quem financiaria tudo isso? quais contratos seriam firmados com um novo governo? e quanto tempo levaria para que a produção venezuelana voltasse a se aproximar dos níveis de outrora? Além disso, mesmo numa recuperação parcial, dificilmente a Venezuela voltaria a figurar entre os maiores produtores do globo, ajudando a reduzir a dependência de outros mercados ainda mais ácidos em termos de custo e risco. No fim das contas, não é segredo que a indústria enfrenta décadas de subinvestimento e gestão inadequada, o que eleva o preço da operação e estende o tempo de retorno.
A Chevron permanece como a única grande produtora de petróleo norte‑americana ainda atuando na Venezuela, após receber, em 2022, uma licença para operar apesar das sanções, com participação relevante na extração venezuelana. A empresa diz estar concentrada na segurança de seus empregados e no cumprimento das leis aplicáveis, sem grandes sinais de expansão. Já as demais gigantes do setor têm mantido silêncio — um indicativo de que o entusiasmo pode não se traduzir em ações rápidas no curto prazo. Segundo Falakshahi, executivos do setor discutem internamente se vale a pena cruzar esse passo, pois o apetite de investir depende fortemente da situação política e dos recursos disponíveis no território.
Mesmo diante da incerteza, muitos veem o prêmio como significativamente atraente para quem conseguir navegar as complexidades políticas, legais e econômicas. No entanto, é preciso reconhecer que o êxito real depende de fatores que vão além do simples desejo de explorar reservas imensas: segurança jurídica, continuidade de políticas, acesso a financiamento e condições de mercado estáveis por muitos anos.