Trump pode influenciar eleições no Brasil; prejudicar a direita

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Depois da Venezuela, Trump vai tentar influenciar eleições no Brasil, mas pode prejudicar a direita, diz especialista americano

Erick Langer, professor da Georgetown, desenha um panorama em que a interferência dos EUA se mantém como eixo estratégico na região, com o Brasil no papel de contrapeso estratégico.

Depois que a operação que resultou na prisão de Nicolás Maduro ganhou as manchetes, o prognóstico é claro para quem acompanha a geopolítica regional: os Estados Unidos vão continuar se envolvendo na América Latina, mas o jogo não será igual para todos. cada país carrega um peso global diferente e, por isso, as pressões costumam se adaptar ao cenário interno de cada nação. Quem aponta esse caminho é Erick Langer, professor de história na Georgetown University, nos Estados Unidos.

Na visão dele, a prioridade de Washington na Venezuela é transformar o país em uma colônia econômica, com o petróleo no centro dessa parceria. “O petróleo venezuelano é o prêmio”, resume, destacando que a estratégia não depende tanto do regime em vigor, mas do interesse de garantir acesso aos recursos. Nesse raciocínio, a ditadura chavista pode até permanecer sob novos nomes, desde que o petróleo siga fluindo para os Estados Unidos.

Essa leitura não fica apenas no campo econômico. Langer aponta que houve um ajuste de alianças entre lideranças chavistas e figuras de peso em Caracas, como Delcy Rodríguez, com uma leitura que indica uma possível coabitação entre interesses externos e o que ainda resta do poder chavista. “Acordos com quem está no governo podem travar Maduro, para que o controle do petróleo permaneça nas mãos de quem manda no petróleo”, comenta. E acrescenta que María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, pode sentir impactos desse movimento, já que Washington mantém preferências estratégicas por perfis que consideram menos suscetíveis a pressões internas.

Entre os desdobramentos, o especialista cita ainda o novo desenho geopolítico na região: é provável que os EUA intensifiquem a pressão para isolar Cuba, inclusive atuando sobre relações com o México, para dificultar qualquer ajuda a Havana. O argumento é claro: o objetivo é manter o monopólio sobre o petróleo e controlar o eixo hemisférico, com a ideia de transformar o Hemisfério Ocidental em uma esfera mais diretamente sob o comando americano.

No dia a dia, o que isso pode significar para o Brasil? O Brasil surge como o grande contrapeso a esse movimento. Apesar de as tensões com o diagnóstico de política externa dos EUA terem abalado a relação recente com o governo brasileiro, a leitura de Langer é explícita: quando o Brasil atua com firmeza, é capaz de impedir que a pauta regional se incline apenas para interesses de Washington. “O Brasil é o grande contrapeso”, afirma, sugerindo que uma postura mais moderada por parte de Brasília pode manter o equilíbrio regional frente às tentativas de influência americana.

Além disso, o panorama envolve uma leitura mais ampla sobre quem tramaria o futuro da região. O economista-chequeado reverso é o papel da China, presente em boa parte dos vínculos comerciais da América Latina. Enquanto os EUA buscam uma estratégia de intervenção mais direta, a China privilegia a atuação econômica, o que pode pressionar Washington a calibrar seus movimentos para não romper relações com parceiros da região. O teste, segundo o entrevistado, é o que acontecerá com empresas chinesas na Venezuela caso as pressões norte-americanas se intensifiquem.

Em relação à eleição brasileira de 2026, a tendência apontada é de que a interferência possa ocorrer, mas a percepção é de que esse movimento não favorecerá automaticamente o terreno da direita. O argumento central é que o nacionalismo tende a ganhar espaço quando há uma percepção de que os Estados Unidos tentam impor agendas sem considerar a memória histórica do país e a vontade de escolha soberana do povo brasileiro.

No conjunto, a leitura de Langer coloca o Brasil diante de uma equação complexa: manter o diálogo com Washington, proteger os próprios interesses, e ao mesmo tempo evitar que a região se torne palco de uma nova fase de colonialismo econômico. “O Brasil pode ser o limitador desse avanço”, fecha o pesquisador, ao lembrar que a resposta da sociedade brasileira, combinada a uma postura firme do governo, é decisiva para o futuro do continente.

Já no desenlace, o resultado depende de como cada ator ligado à região reagirá: a combinação entre diplomacia, economia e mobilização política pode selar um caminho menos conturbado para o Brasil — e, por que não, para que a própria América Latina encontre um equilíbrio que não dependa de uma única potência externa.

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Jornalista

André Santos

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