Trump diz em Davos que ‘Europa não está indo na direção certa’
Presidente americano quer anexar o território dinamarquês, apesar da forte oposição de líderes europeus.
No Fórum Econômico Mundial em Davos, a fala de Donald Trump era cercada de expectativa. O mundo queria entender quais recados ele deixaria aos líderes globais em meio a tensões crescentes provocadas por decisões de sua gestão. Mesmo com um contratempo técnico no início — o avião presidencial passou por um problema antes de decolar — o presidente chegou ao encontro no horário e discursou por mais de uma hora, surpreendendo ao passar cerca de 20 minutos acima do tempo previsto. Em meio a sorrisos contidos e perguntas no ar, Trump abriu espaço para críticas à Europa, que ele já havia caracterizado, no passado, como em decadência nos planos de segurança. E, ainda que tenha dito “Não quero ofender ninguém”, não deixou de reforçar o tom confrontacional que marca parte de suas intervenções.
Entre os tópicos que ganharam destaque, o americano voltou a defender a economia doméstica, as tarifas que implementou e a ideia de que os Estados Unidos não vão subsidiar o mundo — uma mensagem que, segundo ele, tem impulsionado crescimento e mercados. O ponto mais chamativo, porém, foi a menção de sua vontade de negociar rapidamente a aquisição da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca desde 1814, ainda que tenha repetido: “não usaremos a força”.
“>Nós queremos conversas imediatas para conseguir a Groenlândia, mas não usaremos a força”, afirmou Trump. A Groenlândia foi descrita como “um país vasto, quase desabitado e não desenvolvido, que está indefeso”. O presidente ainda disse que não há sinal da Dinamarca na ilha e criticou o que considerou desperdício de recursos do país no território. A retórica externa não esconde, porém, a tensão que envolve o tema: em meio às negociações, Washington impôs tarifas sobre a Dinamarca e outros sete países europeus que resistiram ao seu plano de aquisição.
Na prática, o discurso no palco de Davos foi marcado por promessas de paz—à primeira vista—e por uma retórica de poder. Trump ressaltou que não pretende recorrer à força contra aliados da OTAN, como a Dinamarca, repetindo: “Não preciso usar força, não quero usar força, não vou usar força”. Ainda assim, repetiu o objetivo central: colocar sob o guarda-chuva americano o território que poderia abrigar o que ele chamou de “o maior domo de ouro” — uma alusão ao projeto de defesa para proteger o continente contra ameaças de mísseis. Segundo ele, o interesse não seria mineral de terras raras, mas a segurança nacional e a segurança internacional.
Para contextualizar, a cobertura do debate mencionou a afirmação de Nick Beake, correspondente da BBC na Europa, de que o discurso encerrou qualquer esperança de parte dos líderes europeus de ver, no curto prazo, algum alívio na crise da Groenlândia. Ainda assim, caberá aos próximos passos confirmar se as promessas de não uso da força ganharão adesão prática entre aliados. A Groenlândia, de fato, é a maior ilha do mundo, com cerca de três quartos do seu território cobertos por gelo permanente. A população mal chega a 56 mil habitantes, tornando-a a região menos densamente povoada do planeta. Suas vias estratégicas, entre a América do Norte e o Ártico, a colocam em posição privilegiada para sistemas de alerta precoce e monitoramento marítimo.
Os acordos entre Dinamarca e os EUA, que já permitem a presença de tropas no território — com mais de cem soldados estacionados na base de Pituffik, na frente noroeste da Groenlândia —, sinalizaram abertura para o incremento de tropas americanas no futuro, em diálogo com as autoridades dinamarquesas. E, no cenário de Davos, a tensão entre EUA e Europa sobre o domínio da ilha ficou evidente, mesmo com o compromisso de evitar ações militares diretas.
Além do tom sobre a Groenlândia, o discurso traçou imagens da Europa. Trump iniciou o debate dizendo que “não reconhece a Europa”, acrescentando que a ama, quer que o continente prospere, mas não está caminhando na direção correta. Ele citou episódios como migração descontrolada, déficits orçamentários recordes e desequilíbrios na balança comercial, apontando elevação de tarifas como uma ferramenta para recalibrar esse cenário. Em sua leitura, países europeus enfrentam custos de energia mais altos e quedas de produção em setores como energia, o que, para ele, reforça a necessidade de uma nova relação econômica com Washington.
Mas, no centro de sua retórica, não houve apenas crítica. Trump defendeu que a economia americana melhorou sob sua gestão, alegando ter reduzido o déficit comercial mensal em 77% em um ano, sem inflação, e ressaltando avanços como “siderúrgicas sendo construídas” nos EUA e a assinatura de acordos comerciais com parceiros que representam 40% do comércio americano. Disse que esses acordos favoreceram não apenas os EUA, mas também os países que aderiram a eles, no que ele descreveu como crescimento compartilhado. A linha defendida foi clara: quando os EUA crescem, o mundo cresce junto.
Em um ponto crucial, Trump retomou a defesa do que chamou de “tarifaço global”. A ideia é justificar políticas que, segundo ele, ajudaram a reduzir preços de medicamentos nos EUA ao não subsidiar o mundo inteiro. Ele lembrou uma conversa com o então presidente francês Emmanuel Macron e afirmou ter chegado a ameaças tarifárias caso Macron não aceitasse suas pressões sobre preços de medicamentos. E repetiu a convicção de que os EUA não vão subsidiar o mundo todo, defendendo que “vamos pagar o preço mais baixo que houver em qualquer lugar do mundo”.
Outro desdobramento citado pelo encontro diz respeito à Venezuela. Em referência ao que chamou de intervenção relacionada à deposição de Nicolás Maduro, Trump mencionou a apreensão de “50 milhões de barris de petróleo” para os EUA e sugeriu que o país vizinho poderia lucrar mais nos próximos meses do que nos últimos 20 anos. A menção à Venezuela foi encaixada no debate sobre custos de energia, que, segundo ele, teriam sido inflados pelo governo de Joe Biden por conta de políticas ambientais. Segundo Trump, sob sua presidência a produção de petróleo e gás aumentou, o que ele atribui à recuperação da indústria americana.
Em síntese, o discurso em Davos reforçou uma linha de atuação que coloca a Groenlândia no centro das atenções geopolíticas, ao mesmo tempo em que traça uma leitura de mundo em que a economia dos EUA segue como motor de mudanças globais — com tarifas, acordos comerciais e uma defesa ferrenha de interesses nacionais. O leitor fica com a sensação de que, para além das palavras, há consequências práticas ainda por se delinear para as relações entre EUA, Europa e aliados próximos do Atlântico.